29/04/12

TERMINUS 300: O FIM


O primeiro artigo do blogue Protuberância foi publicado a 29 de Abril de 2006. Seis anos depois é tempo de fazer um balanço, fechar a porta e seguir para novas paragens.

Este não foi o primeiro blogue que criei, nem foi aquele a que mais tempo e atenção dediquei. Foi, aliás, bastante ignorado e mal-tratado nos seus primeiros meses, diria mesmo anos, de vida. Às vezes, por falta de tempo, outras, por pura preguiça, negligenciava a escrita e publicação de artigos com outras afazeres, uns mais prioritários, outros nem tanto.

O blogue Protuberância começou por ser um texto de despedida afixado numa porta. Corria o ano de 2005, trabalhava eu no Centro de Cópias da Universidade Autónoma de Lisboa, no Pólo da Boavista, e nos seis meses que lá estivera criara uma relação de amizade com muitos alunos e professores. Os alunos de hoje ignoram isto, mas havia nesse tempo uma batalha de egos entre os cursos de Arquitectura e de Ciências da Comunicação, batalha essa capaz de fazer parecer a Guerra Civil Americana uma amena discussão no trânsito.

Quando soube que iria sair dali para iniciar um estágio na Biblioteca Municipal da Moita, resolvi expressar a minha opinião sobre esse conflito sem sentido e afixá-lo na porta do estabelecimento. Não tardou muito até eu decidir ir um pouco mais além, criando aquele que seria o meu terceiro blogue.

Durante os primeiros da sua existência, os artigos eram publicados quando havia tempo e vontade. Tanto podia estar semanas, meses, sem escrever nada, como podia escrever vários artigos no mesmo dia. (Na prática isso não mudou muito. Só que hoje em dia já sei programar os dias de publicação, coisa que antes não fazia.)

Em 2010 houve alguém que me disse que eu devia apostar a sério nas minhas crónicas. Motivado por esse desafio, contactei diversos jornais e disponibilizei-me a escrever para eles artigos de humor. Dos vários que aceitaram a minha proposta, há três (Jornal do Barreiro, O Rio e O Primeiro de Janeiro) que publicam com maior frequência textos de minha autoria. Não recebo qualquer remuneração por isso, mas é uma forma de chegar a outros públicos.

Em simultâneo com a existência deste blogue desenvolvi e concluí vários projectos. Dessa lista, constam os seguintes trabalhos:

O CAMINHO DE VOLTA - Guião para longa-metragem. Em revisão.
REDENÇÃO & DEVER - Guião para longa-metragem. Em desenvolvimento.
O CONVITE - Guião para longa-metragem. Em desenvolvimento.
R.P.G. - REAL PLAYING GAME - Guião para longa-metragem, escrito em parceria com David Rebordão. Produzido pela MGN Filmes. Em breve nos cinemas.

A CHAMADA - Guião para curta-metragem, realizada por Vasco Rosa. Disponível no MEO Videoclube
SINAPSE (aka SYNAPSIS) - Guião para curta-metragem, escrita com a colaboração de Vasco Rosa e José Inácio. Em stand-by.
SONHOS DENTRO DE SONHOS - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
A ARCA - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
A FÓRMULA DA FELICIDADE - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
DO OUTRO LADO (aka A PORTA) - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
CATIVA - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
DA LUCIDEZ À LOUCURA - Guião para curta-metragem. A ser reformulado para longa-metragem.
ESPELHO FALSO - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
O EXCLUSIVO - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
O LIVRO - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
P(L)ANO DE FUNDO - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
A PRIMEIRA VEZ - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
PSICOAPATIA - Guião para curta-metragem.A ser reformulado para longa-metragem.
SOB VIGIA - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.
OS ÚLTIMOS QUARENTA MINUTOS DA MINHA VIDA - Guião para curta-metragem. À espera de realizador.

A INTERSECÇÃO - Guião para episódio piloto, mais dois episódios seguintes.
O ÚLTIMO - Guião para episódio piloto, mais quatro episódios seguintes.

UM CAPPUCCINO VERMELHO - Romance de ficção. Nova versão.
PÁTRIA ATRAVESSADA - Livro de viagem. A estudar hipóteses de publicação.
HISTÓRIAS EM AVULSO Contos de diversos géneros. Em revisão.
A IMAGEM - Romance de ficção. Em revisão.

É claro que esta lista, por mais extensa que pudesse ser, não desculpa o desleixo que, por vezes, demonstrei para com este blogue, embora, de certa forma, ajude a explicar o porquê desse comportamento. Portanto, contas feitas, foram seis anos produtivos q.b. e fecho esta porta consciente e satisfeito pelo trabalho que fiz.

O blogue Protuberância continuará disponível para quem o quiser visitar, mas os seus artigos terminam aqui. A partir de agora estarei no meu novo blogue: ângulo obtuso.

Visite-o já pois tem um passatempo à espera.

26/04/12

TERMINUS 299: ARTIGO (NOSTÁLGICO) SOBRE A SOFLUSA

Embora sempre tenha morado na Margem Sul, desde tenra idade que vou para Lisboa. Inicialmente acompanhado, hoje em dia por conta própria. E sempre apreciei a travessia do Tejo, tanto nos barcos antigos como nos actuais catamans. Eu tenho mais por hábito gozar com as coisas do que contemplá-las com a nostalgia que ela merecem, mas ao preparar este artigo dei por mim a fazer justamente isso. É verdade que os preços estão mais caros, há menos carreiras, despediu-se mais pessoal, mas também é verdade que antigamente demorava quase duas horas em transportes de casa para o trabalho e hoje em dia demoro metade do tempo. Não digo que concordo com o aumento do preço dos títulos de transporte – principalmente quando estes antecedem uma renovação de frota da administração – mas reconheço o avanço que se fez nos últimos anos.
A travessia tornou-se mais rápida com a chegada dos catamarans, todavia persiste um problema que já acontecia com os barcos antigos e que tem que ver com os nomes. Os nomes dos catamarans, embora prestem homenagem a pessoas ilustres da Cultura e da História Portuguesa, geram mais equívocos e embaraços do que louvores. Comentários como “Eu no Torga gosto é de ir atrás.”, e piores, não dignificam em nada o autor de Contos da Montanha.
Este problema com os nomes acontecia também, como já disse, nos barcos antigos, embora fosse num nível completamente diferente. Os barcos que partiam do Barreiro iam todos para Lisboa. No entanto, não era isso que as placas indicavam. Um barco indicava como destino “São Jorge” nos Açores, outro, mais vago, “Trás-os-Montes”, mas havia mais. E isto iludia as pessoas. Pelo menos a mim iludia. Quando eu quando apanhava um barco que tinha como destino o “Algarve” era porque eu queria ir para o Algarve e não para Lisboa! Trezentos paus para ir do Barreiro para o Algarve? Era logo!
O único que ainda escapava era o “Martim Moniz”. Não parava mesmo lá, mas era o que ficava mais perto. Fazia-me confusão eu ser o único a queixar-me disto. Entretanto, fiz a operação e tudo passou a fazer sentido. 
Voltando aos catamarans, para mim são como uma casa de banho gigante; no sentido em que, cada vez que lá vou, venho sempre com uma ideia ou uma observação. A mais recente foi um aviso que li há tempos sobre manter as crianças sob vigilância. O aviso já era antigo, já o havia lido antes, mas só nesta última leitura é que eu percebi o real significado contido naquelas palavras.
O aviso pede para manter as crianças sob vigilância. Eis o que eu não percebo em relação aos raptos nos barcos. Caso alguém tenha uma falha mental elevada ao ponto de querer levar uma dessas avante, onde é que guarda os putos? A não ser que seja alguém da tripulação, o único sítio que eu vejo para alguém guardar um puto é debaixo do banco. Onde guardam os coletes de salvação. Só que não cabem lá dentro as duas coisas. Eu sei porque já experimentei com um amigo meu que é anão – eu não gosto de falar sem saber – e aquilo é apertado. Ou seja, para enfiar o puto lá dentro, o raptor é obrigado a vestir o colete de salvação. E aquilo chama a atenção.
Manter as crianças sob vigilância. Para quê? Já viram os putos que andam nos barcos? Quem é que vai querer um puto daqueles a moer o juízo? Só dá vontade de os atirar pela janela.
Eh pá! Não sejas assim. São só crianças!”
E a culpa é de quem? Minha? Já com os bebés é a mesma coisa. Até quando é que temos de aguentar? Quando estamos num sítio público, tipo consultório, e está um bebé a chorar, ninguém é capaz de dizer nada! Ninguém! Quanto muito é para atirar palpites.
Se calhar 'tá sujo.”
Isso é mas é fome.”
Ou então sono.”
E eu pergunto: e vontade de chatear, não?
Ninguém acredita que um bebé possa fazer birra só para moer o juízo aos pais e a toda a gente à sua volta. É preciso ser-se mesmo estúpido. O Pavlov ensinou-nos isso. Estímulo-reflexo. E o bebé não é parvo. O bebé sabe que basta fazer um minuto de choradeira para lhe darem de comer, mudarem a roupa, embalarem-no e etc. É o sonho de qualquer homem. Fazer um choradinho e espetarem-lhe uma mama na boca. Alguns bem tentam, mas tudo o que conseguem é ficarem com ar deprimente.
Alguém tem de ensinar uma lição a esses bebés que choram sem razão. Mas calma! Também não sou adepto da violência excessiva. Acho que esfregar-lhe a cabeça em carne crua e pô-lo a brincar com um rotweiller dos pequeninos chega. Aí, ele pode chorar, mas já se sabe porquê e não é preciso dar palpites.

19/04/12

TERMINUS 298: ANDAR DE AUTOCARRO 3 – ANDAR SEM BILHETE & PASSE UNIVERSAL

Sempre que ando de transportes públicos costumo utilizar passe, mas houve uma altura na minha vida em que, por ser utilizador esporádico, bastavam-me os bilhetes. Hoje em dia já quase que não há bilhetes, é tudo cartão, mas eu lembro-me do medo que sentia caso o pica aparecesse quando viajava sem bilhete e da frustração quando gastava dinheiro no bilhete e não aparecia ninguém para o picar.
Isto irritava-me profundamente porque eu comprava o bilhete por uma única razão: o pica. Se o pica não aparecia, era um bilhete que ia para o lixo sem cumprir o seu real propósito. Eu não precisava de bilhete para andar autocarro: bastava-me o autocarro. Sem bilhete, podia de autocarro à mesma; sem autocarro, não podia andar de bilhete. Era tão básico como parece.
A certa altura eu desisti de comprar bilhete, o que levou a alguns confrontos bem intensos. Ao fim de três meses de utilização de transportes públicos sem adquirir um único bilhete, apareceu-me, finalmente, um pica. E o bandalho queria multar-me. Dizia ele que eu não possuía um título de transporte válido e, como tal, teria de me passar uma multa.
Irritado, confrontei-o com as vezes que tinha adquirido bilhete e ele não tinha aparecido. Não resultou. E aqui fica uma pequena grande lição: leiam os meus artigos, riam-se com as minhas parvoíces, mas não sigam os meus conselhos. Podem-se dar mal.
Esta história nunca aconteceu, foi apenas uma criação fictícia da minha parte, assim como esta ideia com a qual terminarei este artigo: tive um sonho, no qual eu era a pessoa mais espectacularmete humilde do mundo. Isto não tem nada a ver com a ideia que eu vos quero contar, foi apenas um desabafo. Vamos à ideia.
Como seria se todas as companhias de transporte públicos adoptassem um sistema de passe social universal? Já temos passes combinados com Soflusa, Transtejo, STCP, TCB, Metropolitano de Lisboa, Metropolitano do Porto, TST, Barraqueiro, CP, etc. etc. Essencialmente, transportes terrestres, fluviais e ferroviários.
E os aéreos? Há todo um mercado por explorar. O combinado TAP+Carris+CP seria óptimo para aqueles turistas que vêm da América Central com embrulhos no estômago. Com a quantidade de voos que fazem todos os meses, de certeza que lhes daria jeito. Para aquelas pessoas que viajam muito teriam de fazer vários modelos. Teríamos, por exemplo, o N (nacional), o E (europeu), o IC (inter-continental) e o PTL (pra todo o lado). Isto seriam os gerais.
Depois, tal como já acontece com os combinados já existentes, haveriam também as subdivisões. A pessoa vai à companhia, preenche os impressos, escolhe o modelo e depois a zona abrangente; o simples, o 1, o 12 e o 123, que é o maior.
Claro que haviam de aparecer problemas. É normal.
Então o senhor quer ir para as Caraíbas, não é assim?”
É sim.”
Pois, mas o seu passe é o N. Só dá até ao Cacém.”

12/04/12

TERMINUS 297: ANDAR DE AUTOCARRO 2 – HORA DE PONTA & VELHAS

A pior altura para andar nos autocarros, e transportes públicos em geral, é na hora de ponta. Eu não tenho muito que me queixar porque normalmente ando sempre fora de horas, mas às vezes, tem de ser. E o pior para mim nessas alturas, além das velhas carregadas de sacos a quererem entrar num espaço onde até os micróbios se sentem apertados, são os empurrões e os encontrões que as pessoas dão umas nas outras. Isto, já de si é chato, mas torna-se mais chato ainda quando temos aquelas pessoas que, quando nós as pisamos e não pedimos desculpa, ficam fulas. Pode acontecer nós pisarmos sem querer e não repararmos. A mim acontece-me isso às vezes. É por isso que às vezes, volta não volta, há alguém que se vira pra mim e grita, “Vê lá onde é que pões os pés, ó palhaço!”
No entanto, quando reparamos e pedimos desculpa, a resposta mais comum é, “Não foi nada. Deixe estar.” Ou então não dizem nada e ficam o resto da viagem a resmungar.
Nos autocarros há também aqueles lugares reservados a pessoas idosas, inválidas, mulheres grávidas, etc. Deixem-me só fazer um pequeno aparte para explicar uma coisa: estes lugares não são exclusivos dessas pessoas. São reservados. O que quer dizer que as outras pessoas que não se insiram em nenhuma destas categorias também se podem sentar lá. Só no caso dos restantes lugares estarem ocupados é que os destinatários têm direito, ou prioridade, melhor dizendo, a eles.
Isto vem a propósito duma cena que assisti ontem quando ia pra casa no autocarro.
O autocarro vinha quase vazio. Os lugares reservados vinham todos ocupados por várias pessoas, de todo o género, de todas as idades, incluindo um casal de jovens aí nos seus 20 anos.
Então, a meio da viagem, entra uma velha que de imediato começa a ordenar à moça que lhe desse o lugar. A moça recusa-se por estarem vários lugares vagos e a velha insiste. Esta troca de argumentos ainda dura alguns minutos, até que o namorado decide intervir e diz à velha que se vá sentar num dos outros lugares que estavam livres.
Mas a velha continuava a teimar que queria sentar-se ali. O rapaz começa a perder a paciência e é então que ela diz, “Você tem que me dar esse lugar porque eu já sou muito velha.”
Ao que o rapaz responde, “Eu não tenho culpa que você ainda esteja viva.”
O autocarro em peso esperava que aquilo descambasse à séria e até já se faziam apostas, quando subitamente a velha diz, “Eu saio já na próxima. Escusa de se incomodar.”
É má vontade, ou não é?

05/04/12

TERMINUS 296: ANDAR DE AUTOCARRO 1 – RAZÕES PARA & PASSAGEIROS

Detesto o trânsito. A sério que detesto. Para mim não há nada pior do que levar três horas de carro a fazer um trajecto que se pode fazer perfeitamente numa hora a pé. O problema, no meu ver, está nos carros. Não tenho nada contra os carros, atenção, mas, sinceramente, acho que dois carros por pessoa é um bocadinho demais. Para que é que alguém quer mais do que um carro se só pode andar com um de cada vez? É dia sim, dia não?
Há quem tente combater esse problema, usando os transportes públicos. Só que já se sabe que nestas coisas ou é 8 ou é 80. Ou vai tudo de carro, ou vai tudo de transportes. Não há meio-termo. Eu antes queixava-me porque havia muita gente a andar de carro e a entupir o trânsito. Hoje é o contrário. Anda tudo de transportes públicos. Até mesmo as pessoas que têm carro. Passámos de alguns milhares para alguns milhões. É exactamente a mesma coisa que viajar numa lata de sardinha: às tantas vale mais um gajo ir a pé.
E depois vem a qualidade dos passageiros. Oh sim! São do melhor que há! O meu preferido é aquele que fala. Não faz nada – só fala. E o pior é que fala, fala mas não diz nada de jeito.
Também gosto muito daquelas mulheres que vêm com dois riscos a fazer de sobrancelhas. Acho que elas só falam porque acreditam que é a única relação que ainda podem estabelecer com o mundo da maneira que andam na rua. Fazem-me lembrar aquele filme dos palhaços assassinos, o ‘Clown House’.
Eu não percebo porque é que as mulheres rapam as sobrancelhas. Eu acho que, na opinião das mulheres, não existe nada na face humana que pareça bem da maneira como vem ao mundo.
Maquilhagem, eh pá, tolera-se. Operações ao nariz, enfim. Somos nós que as pagamos a maior parte das vezes, ou então os pais, mas pronto. Agora, rapar as sobrancelhas? Quem é que olha para as sobrancelhas? (Abra-se aqui um parentesis para dizer que não arranjar as sobrancelhas não significa andar com dois esquilos por cima dos olhos.) O mais estranho nisto tudo, é que elas rapam as sobrancelhas para ficarem mais atraentes, mas depois têm a bela ideia de pintarem umas sobrancelhas falsas por cima.
Não sei o que é que vocês acham, mas a imagem duma mulher com sobrancelhas falsas e lábios pintados com aquele vermelho berrante, o cabelo armado com quilos de laca em cima e os óculos versão Amália assusta-me um bocado. Parecem um bando de clones. A mim assusta-me. Quando não parecem palhaços parecem travestis. É esta a ideia de sedução que querem transmitir?

29/03/12

TERMINUS 295: O QUE DIZER?

É um dia normal. Tal como em dias anteriores, o homem sai de casa de manhã cedinho para ir para o trabalho. Logo para começar bem o dia, o carro não pega. Verifica o combustível, o motor, o óleo; passados cinco minutos lá descobre o que se passa e consegue pôr o carro a trabalhar.
Como está muito em cima da hora, resolve seguir por outro trajecto para poupar caminho. Armado em bom porque tem um GPS comprado na feira, entra numa rua sem saída e fica lá bloqueado porque outros três otários, provavelmente com um GPS igual ao seu, entraram atrás dele e bloquearam-lhe a passagem.
Assim que sai dali, decide retomar o percurso e seguir o trajecto que fazia todos os dias. O grande problema é que ele costuma passar por ali bem mais cedo. À sua hora a estrada é dele, hoje fica meia hora no trânsito para aprender a não se armar em esperto. Por esta altura, é mais que certo que ele já não vai chegar a horas. Decide então, apesar do que aconteceu da última vez, meter-se por um atalho. E desta vez, felizmente, tem sorte: a rua tem saída. Infelizmente, um dos pneus arrebenta.
O homem sai do carro para mudar o pneu e nisto, já depois de terminado o serviço, aparecem três bacanos. Ora, três bacanos, em pleno Inverno, às 7:20 da manhã, numa rua deserta, só podem querer dizer duas coisas: ou vêm da discoteca ou vêm para gamar. Como não há discotecas ali na zona, o homem palpita que a segunda hipótese deve ser a mais viável.
Confirmando-lhe o palpite, os três fazem-lhe uma rodinha, limpam-lhe a carteira, dão-lhe uma bela carga de porrada e, quando o suplício parecia já ter chegado ao fim, há um deles que o manda despir-se. Naquele instante o homem fica dividido por sentimentos ambíguos. Por um lado fica triste por lhe estarem a roubar a roupa, por outro fica orgulhoso de haver quem aprecie o seu vestuário ao ponto de achar que é capaz de vender aquilo. Seja como for, o homem não tem outro remédio senão despir-se.
Um deles, simpático, deixa que ele fique com as meias calçadas. O homem agradece e logo de seguida atiram-no ao chão. Ainda lhe dói o corpinho do espancamento que levara há minutos. Contudo, assim que o primeiro rufia lhe salta para cima, não consegue deixar de sentir saudades por aqueles agradaveis momentos em que eram punhos e pés a atingi-lo e não outros membros. Depois de cada ter a sua vez, o homem é espancado novamente. É tipo o cigarrinho depois do acto. No fim, os três bacanos pegam na roupa e no dinheiro, acabam de trocar o pneu e vão-se embora com o carro.
O homem, cheio de dores, caído no meio da estrada, sem roupa, um autêntico farrapo humano, olha para o relógio comprado na feira. Além das meias, foi a única coisa que os meliantes lhe deixaram ficar. Chegar a horas, é para esquecer.
Este é um homem bem-educado, um homem que raramente diz asneiras. Mas se há momentos em que, mais do que saber bem, é necessário dizer um palavrão, este é um desses momentos. O homem levanta-se, olha para o céu ainda meio escuro, toma fôlego e está prestes a dizer a maior asneira que jamais proferiu quando repara que está uma criança de seis anos a olhar para ele. Depois de tudo o que lhe acontecera naquela manhã, não seria isso que o iria incomodar, e sim o facto da criança estar acompanhada dos pais. E também o facto do pai parecer mais um armário do que uma pessoa.
Naquela situação, com toda aquela raiva contida, o homem quer extravasar, quer gritar, só que, ao mesmo tempo, tem de se conter senão leva um enxerto ainda pior. E então, tudo o que ele consegue, tudo o que ele pode dizer é um inofensivo: “Eh pá... chiça!”


25/03/12

TERMINUS 294: DO ÁLCOOL

Pode não parecer, principalmente para quem já me viu a empurrar velhinhas para o meio da estrada, mas eu sou uma pessoa que gosta de ajudar o próximo. Tenho um amigo, o Leandro (estou a usar o seu nome verdadeiro porque é o único que ele tem e também porque ninguém o conhece e quem o conhece faz de conta que não o vê) que, vá-se lá saber porquê, mete-se na pinga. É bêbado. Diz que ninguém lhe liga. O que é mentira. Eu sei o que estou a dizer porque houve uma vez em que eu estava perto dele e alguém ligou-lhe por engano. Portanto, não só é bêbado, como é também um pouco mentiroso. Não me faltavam razões mais que evidentes para o ajudar. E assim fiz.
Falei com ele e chamei-o à atenção para o problema que tinha com a bebida. Dei-lhe o chamado 'abanão psicológico' e disse que ele tinha de procurar ajuda o quanto antes. Custou a convencer, mas lá aceitou entrar para os Alcoólicos Anónimos, onde encontrou o apoio que precisava para vencer o vício. Hoje em dia continuam a ignorá-lo, mas felizmente já não se mete no álcool. Infelizmente, agarrou-se às drogas leves.
Nada disto aconteceu, não tenho nenhum amigo chamado Leandro que seja alcoólico, nem tão pouco tenho um amigo chamado Leandro. Esta pequena e divertida história serviu só para facilitar a introdução do seguinte tema: Alcoólicos Anónimos. Podia ter começado logo por aí, mas achei que uma historieta chamaria mais à atenção.
Vamos lá ao tema. Há muita coisa que não percebo nos Alcoólicos Anónimos. A começar pelo princípio. Já repararam que a primeira coisa que uma pessoa faz quando chega a uma reunião dos Alcoólicos Anónimos é dizer o seu nome? Onde é que está o anonimato? De seguida diz que é alcoólico. É impressão minha ou toda a gente que está ali é alcoólica? Só se há pessoas que não têm o vício do álcool, mas sim o vício das reuniões. Pode ser isso. O que eu não percebo: para quê dizer os nomes?
É certo que, quando uma pessoa está alcoolizada, tem tendência para se esquecer das coisas. Nomeadamente, os nomes. Talvez faça parte do processo e quando começam a fixar os nomes é sinal de que estão no bom caminho.
E chega de tema principal. Não vamos abusar porque pode cair mal a algumas pessoas.
Para muitas pessoas o álcool é o fim, para outras pode ser o princípio de algo especial. E estando eu a escrever este artigo a três dias do Dia de São Valentim, achei que podia terminar este artigo com uma história romântica.
O álcool faz-nos divagar. Dá-nos a sensação de que sabemos tudo e mais alguma coisa. Desperta-nos a inteligência, por assim dizer. Esta é a história de um homem que lida com pessoas assim. Um homem com um raciocínio tão complexo que ninguém o compreende. Um homem que, apesar de ter objectivos em contrário, só poderia ser empregado de balcão.
No bar onde trabalha este homem entra uma mulher, desiludida consigo, com a sua vida e com a vida em geral. Senta-se e pede um uísque. Ao quarto copo, a camisa do homem que ela não conhece de lado nenhum passa a ostentar uma placa onde se lê "PSICÓLOGO". Encontrando ali um escape, a mulher começa a desbobinar. De vez em quando, o homem diz qualquer coisa, que pode ou não ter a ver com o que a mulher está a dizer.
A História Universal é rica em grandes pares famosos, disso não restam dúvidas, mas nenhum par possui a classe deste. De um lado, temos um empregado de balcão que ninguém compreende e que se julga muito sábio; do outro, temos uma mulher que não liga nenhuma a isso. É o par perfeito