29/04/06

TERMINUS NEGATIVO: UM ARTIGO SEM NEXO MAS COM UM TÍTULO

Por volta do século XI (os historiadores vão-me perdoar a imprecisão) a civilização ocidental vivia um clima de incerteza e temor em relação ao futuro próximo. Sinais como a peste e desastres naturais – hoje em dia encarados por nós de forma mais ligeira – eram vistos pelas gentes de outrora, influenciadas pela "chegada do Apocalipse" proclamada pelo quadrante mais (novamente o termo será impreciso) "fanático" da Igreja Católica, como um castigo pelos nossos pecados.

Passados dez séculos a situação mudou essencialmente no modo como analisamos as coisas. Não temos a peste, mas temos a SIDA, a hepatite, cólera, varíola e – a futura nova coqueluche dos movimentos de solidariedade e contribuições bancárias – a gripe das aves; os desastres naturais continuam a acontecer quando têm de acontecer e no que toca aos pecados temos os reality-shows (esperemos pela punição).
Aviso ao leitor incauto (desprevenido, desatento, etc.): Mudança do tom do discurso
Os dois parágrafos anteriores (ignorando o Aviso) tiveram como finalidade transmitir uma ideia tantas vezes dita e redita: quanto mais as coisas mudam, mais ficam na mesma.
Creio que não é preciso ser-se um génio para se perceber o que é que eu estou a falar; alguns já falam disso, outros preferem não admitir nada com medo que a admissão se venha a transformar em realidade. É, infelizmente, impossível da minha parte ignorar esta situação. Não consigo fechar os olhos e fingir que não se passa nada. Admito que possa estar a ser injusto com alguns de vocês – não gosto de rotular pessoas, muito menos julgar os grupos pelos indivíduos que os compõem – mas a vossa indiferença (o que eu interpreto como tal) não me possibilita outra análise se não esta.
Como já devem ter percebido, falo do cancelamento do concerto do Ricky Martin na Índia.
OK, pela vossa reacção vejo que afinal não estavam tão a par do assunto como eu pensava. As minhas mais sinceras desculpas se vos julguei precipitadamente.
Em traços gerais, o que aconteceu foi o seguinte: alguém disse ao Ricky Martin que ele tinha talento (ou foi ele que acordou um dia com azia e em vez de ir à casa-de-banho decidiu gravar um disco), depois disso foi um vazio. Há quem trace um paralelismo entre esse vazio criativo do cantor (no qual ele lançou vários álbuns) e o regime de intolerância vigente durante a Idade Média. Não obstante o facto de realmente naquele tempo as pessoas se matarem umas às outras por coisinhas de nada (era uma época em que espirrar significava estar possuído pelo demónio), também foi facto que a criatividade não abrandou (em alguns zonas até floresceu).
Portanto, comparar a falta de criatividade na Idade Média com a falta de criatividade do Ricky Martin é um erro; mais que um erro, é uma ofensa.
E por agora chega de Ricky Martin; vamos mas é falar do que realmente interessa. Só estou cá há… 5 meses, e quem me conhece sabe que gosto de preparar o terreno antes de avançar. Se fosse mais velho e tivesse participado em alguma guerra, diria que é a minha experiência de batalha a falar. Como não é o caso, digo que foi a minha experiência de Boavista a falar.
É importante estabelecer uma aproximação cuidada quando o assunto em questão é tão delicado como este que vos trago. De tal modo que utilizei o estratagema do início falso, tudo para que se rissem, sorrissem ou, pelo menos, relaxassem de modo a encarar o que tenho para vos dizer com outros olhos.
Desta vez não posso usar a expressão "como já devem ter percebido" porque sei que não perceberam, eu sei que vocês não sabem – basta-me olhar para as vossas caras para saber que não sabem – por isso, sem mais delongas, eis o assunto que me levou a escrever este artigo:



As 333 medidas do governo para combater a burocracia
Primeiro que tudo uma curiosidade; o dobro de 333 é o 666, o número da besta, número do fim dos tempos, do Apocalipse. Não quero traçar paralelismos ou lançar ideias disparatadas sobre o fim do mundo. No meu ver, sendo o número de medidas igual a metade do número maldito, isso só pode significar uma coisa: é meio caminho andado. Mais 333 e chegamos ao fundo do poço; o que, como disse um economista da nossa praça, "É bom, porque do poço já não passamos."
Devo dizer que esperava mais orgulho da parte deste Governo. Mais do que as promessas não cumpridas é isto que me chateia.
Tudo começou com aquela história das empresas criadas numa hora. Por esta altura já devem ser 2850 (eram 2849 quando comecei a escrever este artigo; não sei quantas serão quando estiverem a ler) as empresas criadas através deste novo sistema. O que não se percebe é o que é que o Governo está a publicitar:
a) o tempo
b) as empresas
Analisemos os dois casos.
Se for a hipótese b) empresas, é tempo perdido. Há dois tipos de empresas (grandes empresas) em Portugal; as que funcionam mal e as que funcionam bem. E quando funcionam bem o que acontece é isto: os donos vendem-nas a empresários estrangeiros ou declaram falência e mudam-se para países onde a mão-de-obra é mais barata ou, caso fiquem em Portugal, declaram falência e abrem novas empresas com o dinheiro que não dispunham antes para pagar aos funcionários da antiga empresa (isto sem contar com as chamadas "ajudas de custo" e "incentivos ao desenvolvimento empresarial" que o Estado Português tão criteriosamente distribui.
Obviamente, há excepções. Não podemos ser preconceituosos e "pôr tudo no mesmo saco" porque há empresários que não agem assim; simplesmente pegam no dinheiro e vão para um sítio onde ninguém os chateie.
Outra hipótese a considerar: o tempo.
Admito que o Governo possa estar contente por fazer algo significativo como a criação de UMA empresa no período de uma hora, mas porquê limitar-se a isso? Se a intenção é dar destaque ao que se consegue criar numa hora, porque não publicitar com o grau de ênfase que a situação exige, a criação de desempregos no espaço de uma hora?
Os números não param de aumentar e são ícones emblemáticos que representam (é um pleonasmo, eu sei) toda uma política económica e social iniciada não se sabe já por quem e continuada por este Governo (e passível de ser mantida pelo próximo).
Portugal devia ter mais orgulho nos seus desempregados e criar condições para que estes se desenvolvessem.
Espanha conseguiu chegar aos 20% enquanto nós por cá ainda mal chegámos aos 10%.
Irra! "Samos" portugueses ou não "samos"?
Eu acredito que é possível chegar aos 30%. Basta empenharmo-nos mais. Se trabalharmos ainda mais por ainda menos, os nossos empresários enriquecerão mais bem mais depressa e poderão fechar as portas muito mais cedo do que esperam. Não sejamos egoístas! 30% de desempregados é um objectivo nobre a atingir, dignifica-nos como Nação e mostramos ao mundo que, quando queremos, somos capazes.
PS: Já agora, para quem ainda não sabe, vou-me embora em breve. Por esta altura hesitei entre ser honesto ou hipócrita. Sendo assim vou dizer que gostei muito de certas pessoas, menos de outras e outras ainda continuo a ter dificuldade em reconhecê-las como tal. A localização geográfica possibilitou-me conhecer mais pessoas do Curso de Ciências da Comunicação do que do Curso de Arquitectura, mas deixem-me que vos diga, um vale tanto quanto o outro. Só cá estive cinco meses mas já conhecia o clima existente. Ambos os lados dizem que "a culpa é dos outros". Caso não saibam, a culpa é SEMPRE dos outros, nunca é nossa. Há que aprender com os erros e seguir em frente. Em relação aos alunos professores alunos de Ciências da Educação nada a apontar. Turma do 2º ano, continuem a comprar gomas porque é bom para as unhas e para o cabelo; turma do 1º ano, o vosso altruísmo é muito bonito mas não é salutar num clima de competição.
Uma última pergunta para todos aqueles de CC e de Arquitectura: para quando um 9 de Novembro na Boavista?
Aqueles com mais cultura geral sabem que dia foi, os outros vão me perguntar agora:
"Joel, o 9 de Novembro foi o quê?"
E eu responderei:

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