28/05/06

TERMINUS 5: ALGUMAS COISAS QUE EU ACHO SUSPEITAS, BIZARRAS, DESNECESSÁRIAS OU ESTÚPIDAS

Fico farto de tentarem adivinhar o que eu penso sobre isto ou sobre aquilo. Para acabar com males entendidos aqui fica uma lista do que eu acho supérfluo:
  1. Joggers (acho suspeito pessoas correrem pela rua sem motivo aparente; cá pra mim fizeram alguma)
  2. Colheres em pacote (a ideia é evitar a propagação dos germes; se assim é, porque não chávenas em pacote?)
  3. Um dentista que diz “Isto não dói nada.”
  4. Um barbeiro com doença de Parkinson
  5. Um contabilista com doença de Alzheimer
  6. Uma massagista tailandesa com buço
  7. Um pivot com Síndroma de Tourette
  8. Um empregado de balcão com manchas de óleo na roupa
  9. Cafés onde não se pode entrar com comida de fora (isto é o mesmo que entrarmos numa loja de roupa e dizerem-nos que não podemos entrar com roupa de fora)
  10. Livros sobre como tratar de plantas de plástico
  11. Tamagochis
  12. Políticos que pedem aos contribuintes mais trabalho e mais impostos e depois baldam-se ao serviço para irem a almoços no estrangeiro com os amigos e põem a despesa total na conta do Estado
  13. Mulheres que se maquilham excessivamente e dizem que “o interior é que conta”
  14. Produtores de cinema portugueses residentes em França que recebem balúrdios do Estado português para fazer filmes de merda que ninguém vai ver e depois vêm à televisão do Estado português dizer que o Estado português não lhes dá apoio nenhum
  15. Pessoas que são donas de agências funerárias e de talhos
  16. Pessoas que são donas de restaurantes chineses e de lojas de animais
  17. Pitas que se julgam adultas e capazes de mudar o mundo após tomarem a sua primeira cerveja às oito da manhã e vomitarem na casa de banho do café
  18. Pessoas que fingem ignorância para falar como entendidos daquilo que não percebem.
  19. Artistas que não sabem explicar as suas obras
  20. Candidatos a Procurador-Geral da Republica que são advogados pessoais do Primeiro-Ministro
  21. Planos de retaliação a ataques terroristas não aprovados por falta de estudo sobre o impacto ambiental
  22. Estilistas que fazem campanha a favor das espécies protegidas usando casacos de peles de espécies desprotegidas
  23. Militantes da extrema-direita que se dizem tolerantes e não xenófobos
  24. Cineastas portugueses que fazem filmes só para o seu umbigo à custa do dinheiro dos contribuintes e perante reacções negativas dizem: “Eu quero é que o público português se foda!”
  25. Críticos que admiram a qualidade do cinema português e atribuem as salas vazias à falta de cultura dos portugueses que não sabem o que é “arte”
  26. Políticos que mudam de ideologia como quem muda de gravata.
(Foi a minha homenagem ao comediante George Carlin, que ainda não morreu, mas eu acho que se devem homenagear as pessoas também quando estão vivas e não só depois de mortas.)

25/05/06

TERMINUS 4: ATAQUE ALEATÓRIO AOS BONS COSTUMES

No passado dia 21 deste mês foi organizada uma marcha contra a fome. O evento ocorreu simultaneamente em 365 cidades de 100 países. Em Lisboa e Porto participaram sete mil pessoas, com o Alto-Comissário para os Refugiados, o ex-Primeiro-Ministro de Portugal, António Guterres, a encabeçar as hostes em Lisboa. Ora, convém deixar aqui bem claro o seguinte: uma marcha contra a fome é uma medida estúpida.
Admito a vossa relutância (ou ignorância) em não aceitarem esta minha opinião mas, se acompanharem o meu raciocínio, decerto mudarão de ideia.
Ora vejam:
- Num lado, há um grupo de pessoas que não tem nada para comer;
- Do outro, há um grupo de pessoas que em vez de oferecer comida aos primeiros, resolve ir dar um passeio. (Como se isso fosse encher o estômago dos outros.)
E agora a parte realmente estúpida.
A marcha cansa. Chegados ao fim da marcha, o que é que os participantes fazem? Comem. Mas não comem um “lanchinho”. Não, como estão cansados, comem um lanche, melhor, um “lanche reforçado”. Ou seja, não só não enviam como ainda consomem mais comida do que se tivessem ficado em casa a ver a marcha na televisão e a pensar “Se eu pudesse até tinha ido”.
O objectivo da marcha é angariar fundos para ajudar os mais carenciados”, alguém disse. Provavelmente. Não ouvi ninguém dizer isto, para dizer a verdade; mas este é daquele tipo de frases que se dizem sempre nestas situações. E angariar fundos é fácil. Principalmente nestas circunstâncias. Imaginem. Milhares, vá lá, centenas de pessoas chegam junto dum inocente transeunte e pedem-lhe trocos para matar a fome aos pobrezinhos. Acredito que muitas pessoas lhes dêem dinheiro por genuína solidariedade, mas a maioria só o faz porque tem medo de levar porrada se disser “não” àquela gente toda. Não que tal vá acontecer, mas nunca é demais prevenir.
Em Lisboa e Porto reuniram 70 mil euros. A dividir por 7000 dá 10 euros a cada um. E agora uma questão sobre a aplicação directa dessa verba: onde é que eles gastam o dinheiro? São milhares de pessoas a andar, pessoas que se cansam e ficam com fome; milhares de pessoas que quando aquilo acabar vão comer qualquer coisa e só depois é que voltam para casa. Com que dinheiro é que vocês pensam que eles vão pagar o lanche?
Não se iludam, meus caros. É possível que algum do dinheiro recolhido seja utilizado num propósito legítimo, mas não me tentem convencer que TODO o dinheiro recolhido é para esse fim. Não me tentem convencer que alguém faz o que quer que seja a troco de nada.
Sabem quem ganha mais com isto? São os cafés e os restaurantes por este mundo que tiveram que servir lanches, almoços e jantares a esta gente toda. Sim, porque enquanto cá lanchávamos, noutros países comia-se pernil de porco com batata assada, noutros comia-se galinha picante e noutros ainda pensava-se como seria bom ter qualquer coisa para comer.

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O Campo Pequeno reabriu e, como não podia deixar de ser, o espaço foi reinaugurado com uma tourada – ou como eles dizem, uma “corrida TV”.
Um pequeno aparte acerca das tradições. Eis a minha opinião sobre as tradições: respeitá-las desde que enquadradas devidamente na realidade que se vive. A tourada, para mim, é um exemplo duma tradição que teve o seu tempo, mas devia arrumar as botas, pendurar os trapinhos e seguir viagem.
Não obstante a minha opinião sobre o assunto, dizem que foi um espectáculo bonito de se ver. Eu não vi, por isso não comento. A única coisa que vi – e posso comentar – foram os comentários de vários participantes e do público em geral. Um senhor toureiro disse que todos – e friso “todos” – estavam com saudades duma boa tourada. Sinto que ficou a faltar um comentário da parte do touro. Podíamos ter ouvido um comentário do género “Ai que saudades dumas boas farpas no lombo.”
Volto a dizer, a tourada é uma tradição obsoleta, mas se não querem acabar com ela, sejam coerentes e tragam de volta outras tradições entretanto extintas e que são tão ou mais interessantes:
- Sacrificar raparigas virgens a vulcões (ou a buracos de obras mal tapados);
- Queimar pessoas na fogueira por dizerem coisas que não se deve dizer (como “É feio queimar pessoas na fogueira”);
- Escravizar aqueles com menos posses a troco duma falsa liberdade, deveres aos quais não consegue fugir e direitos restringidos que implicam cedências de vária ordem
Se é para sermos antiquados, que o sejamos como deve ser.

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Li uma entrevista com a poetisa Rosa Lobato (de) Faria há dois dias atrás. Não querendo pôr em causa a obra literária da senhora quero chamar a atenção para o teor mais bizarro de certas perguntas e consequentes respostas.
Pergunta o jornalista (não dizia se é homem ou mulher, por isso generalizo):
O que é indispensável na sua casa?”
Responde a poetisa, “O silêncio e a vista.”
É por isso que eu nunca me considerei poeta. Consigo pensar em coisas mais essenciais numa casa além do silêncio e da vista; sejam elas: paredes, tecto, canalização, electricidade e outras coisas que para mim são importantes.
O que ouve em casa?”
E a resposta, “Música clássica. Quando escrevo gosto de músicas que não sugiram imagens.”
Se calhar nunca ouviu falar dum senhor Ludwig van Beethoven. E se ele estivesse vivo hoje em dia, aposto que ele também não ouviria falar dela. Quid pro quo, minha cara.
A fechar, “E o que está a mais em Lisboa?”
Os carros do lixo à noite! Fazem um barulho ensurdecedor.”
Para quem preza o silêncio, concordo que os carros do lixo à noite “fazem um barulho ensurdecedor”. Concordo também que quem dá preferência à vista em prol de saneamento básico não se deve sentir muito incomodado se os sacos de lixo na rua começarem a amontoar-se até chegar a um terceiro andar.
Sim, Rosa Lobato (de) Faria é uma escritora conceituada, reconhecida e admirada, mas cometeu um deslize. Ou talvez não. Talvez seja eu que só veja o lado negativo das coisas e confundi sensibilidade poética com falta de bom senso. Se calhar fui eu.

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Em 2050 vai acabar o problema do buraco do ozono na atmosfera. Não, não vamos ficar sem atmosfera. O que vai acontecer, segundo dizem, é que o buraco vai se fechar. Dizem que é por causa da diminuição da emissão de gases para a atmosfera.
Seja verdade ou não, precisamos de avisar os Estados Unidos que já não é preciso eles respeitarem o protocolo de Kyoto. Digam-lhes, coitadinhos, que já podem poluir o planeta à vontade.

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Na Universidade de St. Andrews na Escócia, um grupo de cientistas descobriu que os macacos conseguem juntar vários sons e articular frases simples. É mais uma característica que aproxima estes primatas de nós humanos. E eu pergunto: onde é que querem chegar com isto?
Todas as semanas surgem notícias de algo que os macacos fazem e que os humanos também fazem, ou ao contrário. Será que o objectivo é convencer as pessoas que é praticamente a mesma coisa? Só vejo uma razão para isto:
A senhora foi apanhada a ter relações sexuais com um primata.”
Ele disse que gostava de mim.”
Isso dizem sempre. A senhora não sabe que humanos e primatas não são compatíveis?”
É só uma diferença de dois por cento nos genes, senhor Juiz.”

20/05/06

TERMINUS 3: O CÓDIGO DE JOEL

Sou um dos 40 milhões que comprou e leu ‘O Código Da Vinci’. Confesso que sou e não tenho vergonha de o admitir. Porém, gostava também de dizer que me mantive um pouco a leste de toda a polémica gerada pelo livro. Não por concordar ou discordar do que foi dito, mas por falta de atenção ao que se passa à minha volta.
Li o livro na sua versão original, antes de ser traduzido para português, muito antes ainda da “explosão ideológica” a que se assistiu. Duas coisas que convém dizer a propósito da obra: primeiro, é um bom policial (embora tivesse gostado mais do romance anterior ‘Anjos e Demónios’); segundo, é uma obra de ficção. E é com esta premissa em mente que devemos encarar o livro de Dan Brown (como objecto literário) e não nos deixarmos levar por falsas suposições.
O Código da Vinci’ dá continuidade à personagem principal utilizado por Brown em ‘Anjos e Demónios’, Robert Langdon, professor de Simbologia Religiosa na Universidade de Harvard. A trama começa quando Langdon é chamado ao Museu do Louvre (em Paris, para os que não sabem) para examinar um cenário de crime. Este é o princípio básico duma história que tentou romper barreiras, alertar consciências. Tentou e falhou. Sim, eu li o livro e gostei, mas daí ao ponto de o considerar como verdadeiro vai um GRANDE passo.
Ao longo de mais de quinhentas páginas, Langdon e Neveau (a ‘Langdon-girl’ de serviço) vão decifrando enigma após enigma, código após código. O nível de dificuldade aumenta de enigma em enigma e lentamente começamos a descortinar a história que se esconde por detrás de todo aquele secretismo, qual a verdade que a Igreja Católica tem tentado manter oculta ao longo de quase dois mil anos.
Os que já leram o livro sabem que verdade é esta (os que não leram, tivessem lido porque tiveram tempo mais que suficiente): Jesus era filho de Deus e de uma mulher virgem, percorreu quilómetros e quilómetros a dizer que devíamos ser bons uns para os outros, a multiplicar pães, transformar água em vinho, a ressuscitar mortos, curar cegos e leprosos e a caminhar sobre as águas. Jesus foi um homem bom, tão bom que os romanos só tinham uma coisa a fazer: crucificá-lo. Quem pode, pode e assim foi. Jesus foi crucificado (não sem antes levar umas valentes chicotadas) e morreu na cruz. Depois (como era filho de Deus podia-se dar a tais luxos) Jesus ressuscitou e ascendeu ao Céu onde foi viver para junto do seu pai, que nos criou à sua imagem e semelhança. (Basta olharmos uns para os outros para verificarmos isso.)
Volto a dizer: o livro de Dan Brown é um bom policial, mas cai no absurdo ao tentar fazer passar esta tese como sendo verdadeira. Monsenhor José Rafael Espírito Santo, Vigário Geral do Opus Dei em Portugal, diz que a obra de Dan Brown “não assenta num fundo de realidade”. Apesar de não partilhar da mesma convicção religiosa, concordo plenamente com as afirmações do Vigário. Dan Brown pode ser um bom novelista, mas cai no mais ridículo dos ridículos ao afirmar que a versão oficial e mais perto da realidade (no meu ver) defendida pela Igreja Católica – a de Jesus Cristo ter sido um homem bom, mas humano, que se apaixonou por uma mulher e teve uma criança dando origem a uma linhagem que dura há vários séculos – é falsa.
Brown vai ao extremo, não através de acções ou afirmações explícitas mas sim, mal dissimuladas de afirmar que a teoria da evolução das espécies defendida pela Igreja Católica é absurda e desprovida de qualquer rigor científico.
Pior ainda. A certa altura do livro, uma das personagens invoca o Génesis. Lembro-me de ter pensado ‘um pouco de coerência finalmente!’, mas não foi o caso. Contrariando todas as noções de bom senso, Brown auto-proclama-se Deus e inventa a sua própria teoria da criação, usando o Génesis como pano de fundo.
Deus criou Adão e arrancou-lhe uma costela para criar Eva. Certos indivíduos chamam a isto mutilação e clonagem, Brown chama-lhe ‘desígnio divino’. É mentira. Deus é bom e não trata mal os seus filhos. Só que Adão e Eva, apesar de serem filhos de Deus, eram indisciplinados e não souberam obedecer às ordens do pai e o pai à primeira infracção cometida usou da sua benevolência e expulsou-os de casa. Adão e Eva, irmãos, vieram para a terra e tiveram dois filhos (chama-se a isto incesto), um bom e um mau. O mau matou o bom. Adão e Eva não se ficaram e tiveram mais filhos, rapazes e raparigas. Fizeram casalinhos e foi cada um para seu lado.
Mesmo que vagamente inspirado na existência da linhagem defendida pela Igreja Católica, Brown ignora questões de extrema relevância como doenças congénitas que podem surgir de vez em quando numa linhagem que dura desde o início da história da humanidade. Dito de forma simples, dois mil anos tolera-se, mais que isso é cair no ridículo.
E parece que fizeram um filme baseado no livro. Imagino a risota que não será naquela cena em que Robert Langdon (interpretado por Tom Hanks) diz a Sophie Neveau (Andrey Tautou) que Jesus Cristo ressuscitou depois de ser crucificado.
Querem a minha opinião? Dan Brown teria feito melhor em dedicar-se à pesca. Talvez assim encontrasse alguma ideia minimamente verosímil.

15/05/06

TERMINUS 2: ARTIGO 2 EM 1


VERSÃO A: A MARCA PORTUGAL VS. OS D'ZERT NO ROCK IN RIO LISBOA
No seguimento do artigo anterior, trago-vos esta semana algo que se enquadra de certo modo no que foi discutido anteriormente. (Para os que conseguirem dissecar o significado intrínseco desta frase, não pensem que se trata de mais do mesmo.) A eventual implementação dum curso de Design fez-me pensar em alguns assuntos que muito têm sido discutidos na praça pública mas dos quais ninguém fala.
A propósito da Marca Portugal, têm sido feitas campanhas, tem-se investido algum dinheirito na criação e divulgação dum conceito que se resume ao chavão "O que é nacional é bom." É verdade, temos coisas boas. Uma coisa boa que temos – li há uns anos atrás, por isso não sei se a informação está actualizada – Portugal é o segundo país da União Europeia com maior índice de corrupção passiva. Podíamos ser o segundo país da União Europeia com maior índice de corrupção activa, mas isso implicaria a malta trabalhar. Acredito que esta informação possa estar desactualizada, uma vez que foi publicada antes da entrada dos últimos dez países. Ainda assim, é um sinal de orgulho.
Marca Portugal. Qualidade, prestígio, inovação.
É óptimo na teoria e ainda melhor na prática.
Portugal é um país óptimo para viver. E se for um cidadão não cumpridor da lei há toda uma série de vantagens que lhe serão auferidas.
1 – O pessoal do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) é mal pago; uma compensaçãozinha monetária extra é suficiente para que um processo de legalização seja concluído rapidamente sem que certos e determinados procedimentos sejam devidamente observados.
2 – Caso não queiram obter a legalização, podem ir para o Algarve onde o facto de falarem uma língua estrangeira é sinónimo de bons tratos, regalias e, em alguns casos, preços mais baixos.
3 – Caso se legalizem e naturalizem, podem ficar sujeitos à corrupção e ao suborno. Aqui temos o nosso melhor chamariz. Devido a um pequeno lapso inconstitucional, nós portugueses não podemos acusar ou julgar quem recebe o suborno, só quem faz.
A Marca Portugal deve ser difundida e defendida por todos. É necessário para que o nosso país evolua de forma visível e considerável. Porém, existe um reverso nisto tudo. Não posso estar aqui a falar de vantagens e ignorar certas acções que pouco ou nada contribuem, antes pelo contrário, para o chamado "desenvolvimento do objectivo traçado".
Em poucas palavras, falo da vinda dos D'Zert ao Rock in Rio Lisboa. Meus caros, se o objectivo é dar um bom nome a Portugal, não é assim que vamos conseguir.
Pensem bem: eu estou a dar o meu melhor, estou a divulgar pontos-chave para a nossa aceitação no estrangeiro e depois põem os D'Zert num Festival de música internacional (ou Festival internacional de música). Não se percebe.



VERSÃO B: SEM TEMA
Esta semana regressei por um dia a áreas boavisteiras. Foi um regresso temporário, com motivos inerentes de visita, que suscitou reacções várias – algumas de contentamento, outras de indignação, raiva e, em alguns casos, de aversão. Houve, inclusive, quem tivesse sentido alguma irritação cutânea, mas isso foi mais por falta de higiene pessoal, do que propriamente devido à minha presença. (Julgo eu.) No fundo, senti-me como se tivesse estado ausente durante duas semanas e tivesse voltado de visita. Provavelmente por ter sido isso que aconteceu.
Portanto, estive de volta. Não por nada ligado a essa palavra efémera que é a saudade, mas por outros motivos bem mais nobres, como arranjar matéria para escrever este artigo.
Tentei escrever qualquer coisa de manhã. Não consegui. Pensei "à tarde penso melhor". Estava errado.
São neste momento 15:00 e continuo sem inspiração para nada. E isto preocupa-me. Vocês que me conhecem e me admiram (os que não me admiram tomara que apanhem uma indisposição estomacal daquelas bem valentes) sabem que isto é grave. "O Joel está sem inspiração? Meu Deus, sinto os alicerces da minha fé a serem abalados por forças além da minha compreensão!"[1]
É mau isto acontecer a um rapaz que ainda só tem 26 anos. Contudo, apesar da minha idade, sou um rapaz prevenido e como tal preveni-me para uma eventualidade destas. As próximas frases que se seguem poderão chocar algumas pessoas e vocês também pelas referências óbvias a sexo e violência. Chamo a atenção para esse facto, colocando as frases em questão em negrito.
Há quem goste de sexo brutal e violento e de ver filmes com montes de mortos e sangue e corpos esventrados e cabeças decepados e sexo com animais e sangue, muito sangue e há pessoas ainda mais doentes que acham que "O Crime" é um bom jornal de café. E agora uma referência ainda mais óbvia a sexo e violência: sexo e violência.
Chega de sexo e violência por agora. (Oh… dizem vocês)
Pronto. Só mais um bocadinho.
Sexo e violência.
Sexo e violência.
Sexo e violência.
Sexo e violência.
Sexo e violência.
Sexo e violência.
Agora já chega. Vamos passar a uma fase mais calma. Para os que me perguntaram "O que fazes agora?", "Onde é que andas agora?", "O que é que andas a fazer agora?" ou outras perguntas cujo significado se resume a uma curiosidade interessada ou interesseira acerca dos meus actuais afazeres e o local onde esses mesmos afazeres continuam a ser exercidos. Esta é a oportunidade de saberem duma vez por todas o que é que eu ando a fazer.
Tráfico de mulheres. Só mulheres, drogas não é comigo. E não é difícil traficar mulheres. É preciso ter atenção ao mercado e às estações do ano mas, fora isso, não é difícil. Brasileiras no Inverno e eslavas no Verão. Não tem nada que saber.
Um conselho que me deram e que eu vou partilhar com quem estiver no ramo ou pensa entrar no ramo: nunca, mas mesmo nunca, a sério, encomendar mulheres do leste fora da época quente. Além de não ter quase saída nenhuma, a mercadoria fica depois no armazém empatada a ganhar pó.
Isto que eu tou a dizer, pode parecer chocante para alguns de vocês (para os outros admito que possa mesmo ser), mas é verdade. Eu próprio tenho dificuldades em acreditar. Mas, não há como o negar. Mulheres do leste só vendem no Verão.
Outra actividade à qual eu me tenho dedicado de vez em quando é o embalsamamento de animais. É chato porque como não tenho um carro ou uma moto para atropelar os animais, tenho de utilizar um bastão e agredi-los na cabeça. Isto pode parecer uma piada de mau gosto, mas garanto que eles têm uma morte rápida. E os que não têm é apenas por uma questão de segundos. Além disso, mesmo que tivesse um carro ou uma moto, como condutor sou uma porcaria e o mais certo era eles acabarem feitos em merda.
Outra coisa que descobri. Pensavam que vinham cá e não aprendiam nada? E não são só coisas más. Descobri que atirar senhoras idosas, as chamada velhinhas, dum 10º andar pode causar algumas complicações no trânsito.
Estamos sempre a aprender, não é verdade?
Menos mal; há pessoal que não aprende nunca. Há gente muito burra por aí.

[1] Adorava que alguém pensasse isto e o dissesse publicamente. Enaltecer-me-ia o ego.

08/05/06

TERMINUS 1: ENTRE DOIS MUNDOS

ou
CHAMA-SE A ISTO ‘BATER NO CEGUINHO’

No dia da minha partida de Universidades Autónomas surgiu o boato de que um novo curso irá juntar-se ao rol de cursos já leccionados no Pólo da Boavista. (Reparem como consegui conjugar os termos ‘rol’ e ‘leccionados’ na mesma frase, o que, vistas bem as coisas, não é nada assim tão espectacular para eu me estar a gabar. Assim vocês vêem os pontos de interesse existentes na minha vida.) Desconheço se o rumor (ou boato, se preferirem) tem fundamento e isso é bom pois atesta que é um verdadeiro rumor. Para quem não sabe um verdadeiro rumor é aquele que nós não sabemos se é verdade ou não; por isso é que é um rumor. Se nós soubéssemos que um rumor é verdadeiro, já não seria rumor, seria um facto.
Após um parágrafo tão longo, vou escrever um bem mais curto, mas com muito menos interesse. E pronto, foi isto.
Em relação ao curso, lá está, é um rumor; pode ser verdade, pode não ser. O que dizem por aí é que irá começar um curso de Design. (Suponho eu que seja uma licenciatura) Portanto, coloca-se um problema que eu penso conseguir demonstrar plenamente recorrendo a um filme.
O filme, de seu título ‘No Man’s Land’, foi o vencedor dos Óscares de 2001 para Melhor Filme Estrangeiro, e passa-se na Guerra dos Balcãs. A história é simples e ideal para explicar o que talvez possa vir a acontecer no próximo ano lectivo no Pólo da Boavista. Eis o que acontece: um soldado sérvio e um soldado bósnio ficam encurralados numa trincheira – e agora vem a parte gira – mesmo no meio do campo de batalha. O filme é interessante e oferece uma perspectiva diferente, por vezes divertida, da guerra. E para comparação já chega.
Mas em que medida é que este exemplo se relaciona com o pessoal de Design?
Simples. Onde é que eles serão colocados?
Os materiais utilizados e as técnicas sugerem uma zona de maior confluência arquitectónica; os possíveis conceitos e a inserção num contexto profissional indicam mais um ambiente de forte conteúdo comunicacional. Por isso, em que é que ficamos?
Antes de responder à pergunta lançada no final do parágrafo anterior quero que saibam que eu podia escrever frases bem mais simples, mas não o faço porque tenho pretensões de erudito. (Embora eu acredite que não hajam muitos eruditos a conjugar vocábulos como ‘calendário’, ‘comichão’, ‘azia’, ‘zurrar’ e ‘olheiras’ numa única construção frásica.
Em suma, a ser verdadeira a vinda desta nova turpe, além da dúvida já referida da localização, surge mais uma: na semana das praxes quem vai praxar os caloiros de Design? Uma vez que ainda não existem veteranos, como é que se fará a sua integração no ambiente académico? Proponho que se faça assim:
1 – Dividem-se os caloiros em dois grupos (os que chegam a horas no primeiro dia de aulas e os que chegam quando lhes apetece)
2 – Os atinadinhos serão praxados pelos outros
3- Não tenho mais nada para dizer, mas achei bem escrever este terceiro ponto uma vez que não há duas sem três
A grande pergunta que se coloca é: há alguma vantagem neste novo curso?
Há. Ou, pelo menos, penso que há. Sendo um curso que toca em áreas comuns à Comunicação e à Arquitectura (ainda que, por vezes, de forma tosca ou pouco evidente) acredito que isso possa vir a ser um meio de encurtar as distâncias que separam estes dois grandes rivais boavisteiros.
Já aqui falei de como deveriam utilizar os conhecimentos de outros cursos sempre que isso fosse útil. Os exemplos foram dados no artigo anterior, por isso não os vou repetir. Desta feita, cabe acrescentar que a aproximação (a possível aproximação, isto é) será bastante mais forte e, por conseguinte, menos fraca.
E AGORA UM PEDIDO DE DESCULPAS:


PEDIDO DE DESCULPAS
Venho por este meio pedir desculpas a todos aqueles que acabaram de ler este artigo e tenham sentido que não foram alcançados os níveis adequados de riso, gargalhada ou galhofa alcançados no artigo anterior. (Espero bem que o artigo anterior tenha provocado riso, gargalhada, galhofa ou um simples esgar, caso contrário este pedido de desculpas torna-se desnecessário e ridículo.) Para me redimir, deixo-vos com uma última piada:

“Porque é que a galinha atravessou a estrada?”
Bom, antes de considerarmos uma resposta válida para esta questão, há que analisar toda uma série de contingências relacionadas com o habitat da dita ave. Acima de tudo, cabe a nós ponderar se uma eventual deslocação no espaço geográfico rodoviário, se além de viável, possui um motivo psicológico ou se se trata duma mera afirmação pessoal de independência, uma ânsia de libertação das amarras do aviário ou---- Merda!!! Porque é que eu não consigo escrever coisas simples?!

01/05/06

TERMINUS 0: O PORQUÊ DA RIVALIDADE

Em circunstâncias normais, o normal seria fazer um balanço somente lá para o mês de Outubro – altura em que completaria um ano na Boavista – contudo, isso só seria possível se ainda lá estivesse. O que não é o caso. Pelas minhas contas foram seis meses, o que já não é mau, já dá para fazer alguma apreciação.
Antes de mais, um breve esclarecimento (os que já sabem, estão à vontade para saltar esta parte, se assim o quiserem): eu não caí na Boavista de pára-quedas, já lá havia estado cinco anos antes e só me surpreendi por ver que certas coisas continuavam na mesma. Eu, porém, mudei bastante no espaço de cinco anos. De tal modo que, além de aprender a usar uma faca e um garfo, decidi lançar-me num empreendimento ambicioso e, disseram-me alguns, “impossível”.
As circunstâncias e o tempo – que eu sabia ser escasso – estavam contra mim. Apesar disso, não desisti e tentei dar o meu contributo para a resolução deste conflito. Em Espanha temos os conflitos entre os separatistas bascos e o Governo; em Israel, temos o conflito israelo-árabe; na Irlanda do Norte, são católicos contra protestantes. Na Boavista, é CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO contra ARQUITECTURA. E percebe-se bem o porquê desta rivalidade.
Antes de regressar à Boavista trabalhei quatro anos em Santa Marta e nunca consegui compreender bem as rivalidades entre cursos que lá existiam:
ECONOMIA vs. GESTÃO
LÍNGUAS E LITERATURAS MODERNAS vs. TRADUTORES E INTÉRPRETES
DIREITO vs. RELAÇÕES INTERNACIONAIS
PSICOLOGIA vs. SOCIOLOGIA
entre outras.

Sendo CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO e ARQUITECTURA duas vertentes do mesmo domínio científico – ao contrário das anteriores demonstradas – compreende-se esta questão da rivalidade. Eis alguns dos motivos:

As cadeiras comuns
Por vezes a turma do 1º ano de CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO tem aulas com a turma do 2º ano de ARQUITECTURA numa sala onde mal cabe a turma do 1º ano de Ciências da Educação[1]. O espaço reduzido conduz a comportamentos nervosos e, por vezes, erráticos.

A utilização do estúdio de rádio ou de TV
Quantas vezes é eu que não ouvi queixas de alunos do 6º ano de ARQUITECTURA que precisavam de utilizar o estúdio de TV para editarem um spot publicitário, que seria depois inserido numa maqueta, e não o podiam fazer porque estava lá a turma do 3º ano de CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO?

A utilização da plotter
Às vezes os alunos do 4º ano de CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO da variante de Jornalismo querem imprimir uma plotagem para a usarem numa reportagem televisiva e não o podem fazer porque os alunos do 3º ano de ARQUITECTURA estão lá dia e noite.

Perante situações como estas É PERFEITAMENTE COMPREENSÍVEL A RIVALIDADE ENTRE ESTES DOIS CURSOS.
Meus caros, um conselho: sejam superiores à mesquinhice. Não vale a pena lutarem por um objectivo pobre de valor ou significado. Quem é que esperam impressionar com as vossas querelas? E agora estão a pensar ‘Eu não sou assim.’ ou ‘A culpa não é minha.’Errado. A culpa é VOSSA!
Mais importante que apontarem falhas uns aos outros, faziam melhor em (é uma ideia estúpida, mas eu vou dizer na mesma), coordenar esforços para a concretização de objectivos comuns.
Dou dois exemplos:
1 - Os alunos de ARQUITECTURA costumam fazer recolha de imagens, geralmente via fotográfica, dos locais onde vão ser construídos os edifícios que vão projectar.
Os alunos de CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO (a partir do 2º ano) fazem recolha de imagens através de vídeo, primeiro para se habituarem aos aparelhos, depois para a realização de reportagens.
Eis a minha ideia: quer me parecer que a utilização de imagens de vídeo oferece mais vantagens que a simples fotografia; assim, enquanto uns aprendem a filmar e a editar, os outros podem usar o "bruto" das filmagens para os seus projectos.
Talvez eu fale sem saber.
2 - A turma do 1º ano de CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO fez uma visita ao Museu de Arte de Contemporânea em Lisboa
Mais ou menos por essa altura uma turma de ARQUITECTURA (não sei se do 2º ou do 3º ano, confesso) iniciou um projecto cuja tema era um… Museu de Arte Contemporânea
Suponho que os alunos de CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO tenham elaborado um relatório ou trabalho qualquer a propósito da visita (conhecendo o professor que os levou lá, acredito piamente que sim embora não ponha as mãos no fogo por isso), assim como acredito que os alunos de ARQUITECTURA tenham recolhido informações várias acerca deste tipo de museus (incluindo o museu visitado pelos “outros”.)
Novamente, declaro a minha ignorância. Mas aproveito também para expor duas situações que sei que vos vão chocar.
ALUNOS DO CURSO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO A COMPRAREM CÓDIGOS DO CURSO DE ARQUITECTURA
e
ALUNOS DO CURSO DE ARQUITECTURA A COMPRAREM CÓDIGOS DO CURSO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO
DE PROPÓSITO!
Especifico que foi de propósito para não começarem já com esperanças vãs. 'Se calhar enganaram-se.' Não. Foi deliberado. Aperceberam-se que naqueles códigos estavam informações relevantes para a realização dum trabalho, duma apresentação ou mesmo duma frequência.
A informação deve ser sempre considerada e não descartada a priori devido à sua origem. Perdoo este tipo de displicência ao pessoal de ARQUITECTURA, mas ao pessoal de CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO só tenho a dizer: a vossa atitude é estúpida. Principalmente para aqueles que querem seguir Jornalismo. Habituem-se às fontes que conseguem arranjar e não àquelas que gostariam de arranjar. Podem não gostar da pessoa, mas a informação que essa pessoa vos dá é que importa.
Não discutam sobre que curso é mais difícil. Uns têm trabalhos e exames e frequências ao longo do ano, os outros vão a casa uma vez por semana porque não entregar um trabalho pode significar chumbar a uma cadeira e chumbar uma cadeira é - literalmente - chumbar o ano inteiro.
E notem, eu não tomo partido de nenhuma das partes envolvidas neste conflito. No entanto, há que pensar: como seria o mundo hoje em dia se a Alemanha ainda estivesse dividida?
Sou a favor da existência do Muro de Berlim na Boavista. Acho bem que tenham escrito aquela frase por uma razão: é mais fácil acabar com algo quando esse algo é visível. Há cinco anos a rivalidade entre CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO e ARQUITECTURA era um fantasma que ninguém admitia que existia, hoje é real e já não se consegue esconder.
Quem escreveu a famigerada frase pode tê-lo feito com um intuito provocatório e de auto-afirmação mas deu, inadvertidamente, o primeiro passo para combater este problema.
Os meus parabéns a essa pessoa.

[1] A minha ex-posição conferia-me acesso a certos privilégios como, por exemplo, saber que a turma do 1º ano de Ciências da Educação é composta por dez alunos).