20/05/06

TERMINUS 3: O CÓDIGO DE JOEL

Sou um dos 40 milhões que comprou e leu ‘O Código Da Vinci’. Confesso que sou e não tenho vergonha de o admitir. Porém, gostava também de dizer que me mantive um pouco a leste de toda a polémica gerada pelo livro. Não por concordar ou discordar do que foi dito, mas por falta de atenção ao que se passa à minha volta.
Li o livro na sua versão original, antes de ser traduzido para português, muito antes ainda da “explosão ideológica” a que se assistiu. Duas coisas que convém dizer a propósito da obra: primeiro, é um bom policial (embora tivesse gostado mais do romance anterior ‘Anjos e Demónios’); segundo, é uma obra de ficção. E é com esta premissa em mente que devemos encarar o livro de Dan Brown (como objecto literário) e não nos deixarmos levar por falsas suposições.
O Código da Vinci’ dá continuidade à personagem principal utilizado por Brown em ‘Anjos e Demónios’, Robert Langdon, professor de Simbologia Religiosa na Universidade de Harvard. A trama começa quando Langdon é chamado ao Museu do Louvre (em Paris, para os que não sabem) para examinar um cenário de crime. Este é o princípio básico duma história que tentou romper barreiras, alertar consciências. Tentou e falhou. Sim, eu li o livro e gostei, mas daí ao ponto de o considerar como verdadeiro vai um GRANDE passo.
Ao longo de mais de quinhentas páginas, Langdon e Neveau (a ‘Langdon-girl’ de serviço) vão decifrando enigma após enigma, código após código. O nível de dificuldade aumenta de enigma em enigma e lentamente começamos a descortinar a história que se esconde por detrás de todo aquele secretismo, qual a verdade que a Igreja Católica tem tentado manter oculta ao longo de quase dois mil anos.
Os que já leram o livro sabem que verdade é esta (os que não leram, tivessem lido porque tiveram tempo mais que suficiente): Jesus era filho de Deus e de uma mulher virgem, percorreu quilómetros e quilómetros a dizer que devíamos ser bons uns para os outros, a multiplicar pães, transformar água em vinho, a ressuscitar mortos, curar cegos e leprosos e a caminhar sobre as águas. Jesus foi um homem bom, tão bom que os romanos só tinham uma coisa a fazer: crucificá-lo. Quem pode, pode e assim foi. Jesus foi crucificado (não sem antes levar umas valentes chicotadas) e morreu na cruz. Depois (como era filho de Deus podia-se dar a tais luxos) Jesus ressuscitou e ascendeu ao Céu onde foi viver para junto do seu pai, que nos criou à sua imagem e semelhança. (Basta olharmos uns para os outros para verificarmos isso.)
Volto a dizer: o livro de Dan Brown é um bom policial, mas cai no absurdo ao tentar fazer passar esta tese como sendo verdadeira. Monsenhor José Rafael Espírito Santo, Vigário Geral do Opus Dei em Portugal, diz que a obra de Dan Brown “não assenta num fundo de realidade”. Apesar de não partilhar da mesma convicção religiosa, concordo plenamente com as afirmações do Vigário. Dan Brown pode ser um bom novelista, mas cai no mais ridículo dos ridículos ao afirmar que a versão oficial e mais perto da realidade (no meu ver) defendida pela Igreja Católica – a de Jesus Cristo ter sido um homem bom, mas humano, que se apaixonou por uma mulher e teve uma criança dando origem a uma linhagem que dura há vários séculos – é falsa.
Brown vai ao extremo, não através de acções ou afirmações explícitas mas sim, mal dissimuladas de afirmar que a teoria da evolução das espécies defendida pela Igreja Católica é absurda e desprovida de qualquer rigor científico.
Pior ainda. A certa altura do livro, uma das personagens invoca o Génesis. Lembro-me de ter pensado ‘um pouco de coerência finalmente!’, mas não foi o caso. Contrariando todas as noções de bom senso, Brown auto-proclama-se Deus e inventa a sua própria teoria da criação, usando o Génesis como pano de fundo.
Deus criou Adão e arrancou-lhe uma costela para criar Eva. Certos indivíduos chamam a isto mutilação e clonagem, Brown chama-lhe ‘desígnio divino’. É mentira. Deus é bom e não trata mal os seus filhos. Só que Adão e Eva, apesar de serem filhos de Deus, eram indisciplinados e não souberam obedecer às ordens do pai e o pai à primeira infracção cometida usou da sua benevolência e expulsou-os de casa. Adão e Eva, irmãos, vieram para a terra e tiveram dois filhos (chama-se a isto incesto), um bom e um mau. O mau matou o bom. Adão e Eva não se ficaram e tiveram mais filhos, rapazes e raparigas. Fizeram casalinhos e foi cada um para seu lado.
Mesmo que vagamente inspirado na existência da linhagem defendida pela Igreja Católica, Brown ignora questões de extrema relevância como doenças congénitas que podem surgir de vez em quando numa linhagem que dura desde o início da história da humanidade. Dito de forma simples, dois mil anos tolera-se, mais que isso é cair no ridículo.
E parece que fizeram um filme baseado no livro. Imagino a risota que não será naquela cena em que Robert Langdon (interpretado por Tom Hanks) diz a Sophie Neveau (Andrey Tautou) que Jesus Cristo ressuscitou depois de ser crucificado.
Querem a minha opinião? Dan Brown teria feito melhor em dedicar-se à pesca. Talvez assim encontrasse alguma ideia minimamente verosímil.

4 comentários:

missfriky disse...

ora bem n li o livro por ixo vou fazer uma coisa tipicamente portuguesa: falar sem conhecer ou entao falar dp d ver o filme e pensar k este reproduz fielmente o livro...dp d ver o filme comento kk coisa jeitosa!
o tema religioso não me desperta qualquer tipo de curiosidade..huuum...sim confirma-se nada rien bah, apatia completa e nem entendo o pk d tt alarido numa obra de -como o Joel dixe e bem- é 1 ficção, mas suponho uqe há gente k n entende ixo!
bjiiis Sr. Joel (respect eheh)

qyoka disse...

Ele há certas coisas que não se discutem. Isto, é o que diria a maioria das pessoas, principalmente quando toca à religião. Mas eu digo, tudo se discute.
Dan Brown é sem dúvida um romancista, mas não um romancista qualquer, ele tem uma editora/agente altamente esperta. Soube vender o peixe e ganhar balúrdios com ele.
Eu que também li achei interessante. Mas claro, a verdade fica sempre aquém do que se pode ver escrito em qualquer livro. De qualquer forma, acho bom o facto de o emaranhado de palavras no código DAVINCI ter suscitado dúvidas. Andamos a dormir há muito tempo, uns porque continuam a acreditar inquestionavelmente e outros porque nem querem saber.
Tentei discutir certas coisas com a minha avó na altura. Resposta dela: "não quero saber, já acredito há tempo de mais nas coisas para agora mudar"
Cada um vê sempre aquilo que quer ver (e passo a redundância)

Irina disse...

Vamos por partes:
o livro é um bom policial;
o livro é ficção;
Pq assumes então que brown leva a sério a teoria da igreja católica?!
não pode ele alongar-se em algo que para ele pode ser ficção também, e que melhor instrumento para isso que uma obra sua?
Gostei do livro. Quando algo se mediatiza todos tendem a mandar bitaques, mas apenas e só quando se mediatiza se faz uma busca incessante por defeitos e virtudes.
Enfim as opiniões valem o que valem.
Só mais uma coisa: a pesca pode ser uma boa terapia e servir de inspiração a novos romances.
Será que é isso que queres?


Beijinhos

irina disse...

Joel perdoa-me a minha precipitação e principalmente a minha distracção.
achas q o dan brown é um radical, ok.
voltamos ao inicio, ele é escritor de ficção, e vou repetir-me, que melhor sitio que um romance próprio para exarcebar as nossas paixões. és escritor sabes do que falo.
Ultima coisa: o artigo tá bom. mais um para a lista dos bitaques sobre o tema.