25/05/06

TERMINUS 4: ATAQUE ALEATÓRIO AOS BONS COSTUMES

No passado dia 21 deste mês foi organizada uma marcha contra a fome. O evento ocorreu simultaneamente em 365 cidades de 100 países. Em Lisboa e Porto participaram sete mil pessoas, com o Alto-Comissário para os Refugiados, o ex-Primeiro-Ministro de Portugal, António Guterres, a encabeçar as hostes em Lisboa. Ora, convém deixar aqui bem claro o seguinte: uma marcha contra a fome é uma medida estúpida.
Admito a vossa relutância (ou ignorância) em não aceitarem esta minha opinião mas, se acompanharem o meu raciocínio, decerto mudarão de ideia.
Ora vejam:
- Num lado, há um grupo de pessoas que não tem nada para comer;
- Do outro, há um grupo de pessoas que em vez de oferecer comida aos primeiros, resolve ir dar um passeio. (Como se isso fosse encher o estômago dos outros.)
E agora a parte realmente estúpida.
A marcha cansa. Chegados ao fim da marcha, o que é que os participantes fazem? Comem. Mas não comem um “lanchinho”. Não, como estão cansados, comem um lanche, melhor, um “lanche reforçado”. Ou seja, não só não enviam como ainda consomem mais comida do que se tivessem ficado em casa a ver a marcha na televisão e a pensar “Se eu pudesse até tinha ido”.
O objectivo da marcha é angariar fundos para ajudar os mais carenciados”, alguém disse. Provavelmente. Não ouvi ninguém dizer isto, para dizer a verdade; mas este é daquele tipo de frases que se dizem sempre nestas situações. E angariar fundos é fácil. Principalmente nestas circunstâncias. Imaginem. Milhares, vá lá, centenas de pessoas chegam junto dum inocente transeunte e pedem-lhe trocos para matar a fome aos pobrezinhos. Acredito que muitas pessoas lhes dêem dinheiro por genuína solidariedade, mas a maioria só o faz porque tem medo de levar porrada se disser “não” àquela gente toda. Não que tal vá acontecer, mas nunca é demais prevenir.
Em Lisboa e Porto reuniram 70 mil euros. A dividir por 7000 dá 10 euros a cada um. E agora uma questão sobre a aplicação directa dessa verba: onde é que eles gastam o dinheiro? São milhares de pessoas a andar, pessoas que se cansam e ficam com fome; milhares de pessoas que quando aquilo acabar vão comer qualquer coisa e só depois é que voltam para casa. Com que dinheiro é que vocês pensam que eles vão pagar o lanche?
Não se iludam, meus caros. É possível que algum do dinheiro recolhido seja utilizado num propósito legítimo, mas não me tentem convencer que TODO o dinheiro recolhido é para esse fim. Não me tentem convencer que alguém faz o que quer que seja a troco de nada.
Sabem quem ganha mais com isto? São os cafés e os restaurantes por este mundo que tiveram que servir lanches, almoços e jantares a esta gente toda. Sim, porque enquanto cá lanchávamos, noutros países comia-se pernil de porco com batata assada, noutros comia-se galinha picante e noutros ainda pensava-se como seria bom ter qualquer coisa para comer.

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O Campo Pequeno reabriu e, como não podia deixar de ser, o espaço foi reinaugurado com uma tourada – ou como eles dizem, uma “corrida TV”.
Um pequeno aparte acerca das tradições. Eis a minha opinião sobre as tradições: respeitá-las desde que enquadradas devidamente na realidade que se vive. A tourada, para mim, é um exemplo duma tradição que teve o seu tempo, mas devia arrumar as botas, pendurar os trapinhos e seguir viagem.
Não obstante a minha opinião sobre o assunto, dizem que foi um espectáculo bonito de se ver. Eu não vi, por isso não comento. A única coisa que vi – e posso comentar – foram os comentários de vários participantes e do público em geral. Um senhor toureiro disse que todos – e friso “todos” – estavam com saudades duma boa tourada. Sinto que ficou a faltar um comentário da parte do touro. Podíamos ter ouvido um comentário do género “Ai que saudades dumas boas farpas no lombo.”
Volto a dizer, a tourada é uma tradição obsoleta, mas se não querem acabar com ela, sejam coerentes e tragam de volta outras tradições entretanto extintas e que são tão ou mais interessantes:
- Sacrificar raparigas virgens a vulcões (ou a buracos de obras mal tapados);
- Queimar pessoas na fogueira por dizerem coisas que não se deve dizer (como “É feio queimar pessoas na fogueira”);
- Escravizar aqueles com menos posses a troco duma falsa liberdade, deveres aos quais não consegue fugir e direitos restringidos que implicam cedências de vária ordem
Se é para sermos antiquados, que o sejamos como deve ser.

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Li uma entrevista com a poetisa Rosa Lobato (de) Faria há dois dias atrás. Não querendo pôr em causa a obra literária da senhora quero chamar a atenção para o teor mais bizarro de certas perguntas e consequentes respostas.
Pergunta o jornalista (não dizia se é homem ou mulher, por isso generalizo):
O que é indispensável na sua casa?”
Responde a poetisa, “O silêncio e a vista.”
É por isso que eu nunca me considerei poeta. Consigo pensar em coisas mais essenciais numa casa além do silêncio e da vista; sejam elas: paredes, tecto, canalização, electricidade e outras coisas que para mim são importantes.
O que ouve em casa?”
E a resposta, “Música clássica. Quando escrevo gosto de músicas que não sugiram imagens.”
Se calhar nunca ouviu falar dum senhor Ludwig van Beethoven. E se ele estivesse vivo hoje em dia, aposto que ele também não ouviria falar dela. Quid pro quo, minha cara.
A fechar, “E o que está a mais em Lisboa?”
Os carros do lixo à noite! Fazem um barulho ensurdecedor.”
Para quem preza o silêncio, concordo que os carros do lixo à noite “fazem um barulho ensurdecedor”. Concordo também que quem dá preferência à vista em prol de saneamento básico não se deve sentir muito incomodado se os sacos de lixo na rua começarem a amontoar-se até chegar a um terceiro andar.
Sim, Rosa Lobato (de) Faria é uma escritora conceituada, reconhecida e admirada, mas cometeu um deslize. Ou talvez não. Talvez seja eu que só veja o lado negativo das coisas e confundi sensibilidade poética com falta de bom senso. Se calhar fui eu.

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Em 2050 vai acabar o problema do buraco do ozono na atmosfera. Não, não vamos ficar sem atmosfera. O que vai acontecer, segundo dizem, é que o buraco vai se fechar. Dizem que é por causa da diminuição da emissão de gases para a atmosfera.
Seja verdade ou não, precisamos de avisar os Estados Unidos que já não é preciso eles respeitarem o protocolo de Kyoto. Digam-lhes, coitadinhos, que já podem poluir o planeta à vontade.

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Na Universidade de St. Andrews na Escócia, um grupo de cientistas descobriu que os macacos conseguem juntar vários sons e articular frases simples. É mais uma característica que aproxima estes primatas de nós humanos. E eu pergunto: onde é que querem chegar com isto?
Todas as semanas surgem notícias de algo que os macacos fazem e que os humanos também fazem, ou ao contrário. Será que o objectivo é convencer as pessoas que é praticamente a mesma coisa? Só vejo uma razão para isto:
A senhora foi apanhada a ter relações sexuais com um primata.”
Ele disse que gostava de mim.”
Isso dizem sempre. A senhora não sabe que humanos e primatas não são compatíveis?”
É só uma diferença de dois por cento nos genes, senhor Juiz.”

1 comentário:

qyoka disse...

E pergunto eu: Joel sabes porque é que não tens nenhum comment neste post??
E respondo, tambem eu: porque é grande e cansativo de mais.
Ufa, lamento mas nao li até ao fim.
queria dizer qualquer coisa sobre os textos, mas só me lembro do da tourada, e esse não vou comentar. Até porque, podia acabar queimada numa fogueira em praça pública.