04/07/06

TERMINUS 8: OS TRÊS Fs (FARÓFIAS, FAFE E FUTILIDADES)

Tenho recebido imensas queixas de leitores descontentes com o facto de há mais de duas de semanas não publicar nada neste blogue. É um problema de actualização e a culpa é vossa. Se não me disserem nada, eu penso que não vale a pena gastar tempo com isto. Eu sei que isso contradiz a primeira frase, mas como vocês não estão a ler, paciência. A minha ideia é simples: se querem um blogue actualizado, ACTUALIZEM-NO VOCÊS! (ou façam o vosso próprio blogue; é fácil)
A verdade é que estas foram duas semanas um tanto quanto conturbadas. Felizmente, não necessariamente por motivos maus. Ou seja, embora tivesse matéria de sobra para analisar, a minha mente não se conseguia decidir sobre como tratá-los.
Deixemos isso de parte e falemos do grande assunto que fez os portugueses saírem para as ruas no dia 1 deste mês de Julho: o aumento da taxa da Euribor.
Contas feitas, este indexante passou de uma média de 2,60% em Dezembro para 3,15% em Junho, o que significa uma subida de 21%. Em suma, quem quer comprar casinha, tá bem lixadinho.
E isto é ainda mais complicado quando o desemprego não pára de aumentar e a idade da reforma é esticada um pouquito todos os dias porque alguém que trabalha menos de 10 anos toda a vida e depois tem direito a uma reforma vitalícia acha que quem trabalha 40 anos para depois ter direito a uma reforma também vitalícia anda a brincar e pode trabalhar mais uns anitos porque ainda tem corpo para isso. Ambos recebem uma reforma vitalícia. A diferença é que o primeiro reforma-se antes dos cinquenta e o segundo reforma-se pouco antes dos setenta. É natural que o primeiro receba mais dinheiro, uma vez que a sua esperança de vida é muito maior.
A vida não está fácil para nós portugueses. Não que esteja fácil para todos os outros. Há quem esteja pior que nós, há quem esteja melhor. Mas nem todos podem dizer: passámos às Meias-Finais do Campeonato Mundial de Futebol!
Sim! As ruas fervilham de alegria e espírito positivo!
Uma mãe com uma criança ao colo, ambos não comem há dois dias, mas sorriem porque Portugal ganhou o jogo.
O senhor Menezes, 63 anos, sofre duma condição física que lhe dificulta o desempenho de funções no seu local de trabalho. Infelizmente para o senhor Menezes, caso este se decida reformar antes do tempo, terá de escolher entre gastar dinheiro em comida ou em medicamentos. Por outro lado, segundo o que o seu médico lhe diz, mais uns anos de trabalho e o senhor Menezes só terá de se preocupar em ter um fato pronto para usar no dia do seu funeral.
Um estudante recém-licenciado, procura trabalho na sua área. Não estando filiado a nenhum movimento ou organização partidária, decide inscrever-se no Centro de Desemprego como tendo apenas o 12º. As hipóteses de arranjar trabalho aumentam exponencialmente. Na sala de espera do Centro de Desemprego, estão mais cinquenta pessoas que acreditam que uma vitória de Portugal no Mundial de Futebol vai melhorar a sua vida exponencialmente. Muitos estão desempregados desde o final do Euro 2004.
Tentem ver isto de forma objectiva. Não comecem a pensar já: traidor da Pátria, etc. Pensem como isto era há dez anos. Lembrem-se como nos costumávamos referir àqueles que ostentavam a bandeira portuguesa em tudo quanto era sítio. Nacionalista era o termo mais simpático, outros eram considerados fascistas ou pior que isso. Hoje em dia quem não tem a bandeira à vista é que está fora do sistema.
As coisas mudam, não há dúvida, mas eu preferiria que OUTRAS coisas tivessem mudado. Nomeadamente, o bom senso dos portugueses que são estúpidos e estão na merda e convencem-se que o facto de Portugal ganhar um jogo ou mesmo o Campeonato Mundial de Futebol vai-lhes trazer a certeza duma vida melhor. Meus caros, abram os olhos: nem uma esperança vão receber, quanto mais uma certeza.
Não gosto de futebol. Não gosto. Admito que preferiria não ter Portugal no Mundial. Talvez assim, os noticiários não fossem algo assim:
Continuamos em directo de Marienfeld onde a qualquer momento esperamos ouvir as declarações de Ricardo que se encontra neste momento no WC. Recordo que Ricardo hoje comeu caril ao almoço. (…) E parece que a porta vai-se abrir. E sim! Cá está ele! Ricardo! Ricardo! Como se sente?”
O Ricardo precisa de mais papel higiénico. Tem aí?”
Faz-se uma reportagem para cada jogador, outra sobre o próximo jogo, outra sobre o último jogo, outra sobre o treino da manhã, outra sobre os adeptos em Portugal, outra sobre os adeptos na Alemanha, outra sobre os adeptos noutros países (e, quem sabe, no futuro, uma reportagem sobre os adeptos noutros planetas). No meio, assim como quem não quer a coisa, diz-se que mais dez fábricas encerraram, os Estados Unidos ameaçam bombardear o Gana por suspeitarem que existem lá armas de destruição maciça e o Emplastro está prestes a lançar uma linha de produtos de beleza.
Nós estamos na merda e ninguém nota. Ninguém quer saber. O futebol estupidifica-nos e, no entanto, tem em si a capacidade de nos tornar mais inteligentes. Portugal tem dos resultados mais baixos em exames de Matemática. Não atinamos com aquilo. A culpa é dos professores, é dos alunos, é dos programas, é das escolas; a culpa é de tudo e de todos, mas nunca é de ninguém. E aqui entra o futebol. Pensem num problema qualquer com um merceeiro, dois quilos de maçãs, três quilos de batatas e um troco de 1,27 cêntimos, metam pra lá uma equação, peçam para calcular as probabilidades das maçãs serem vermelhas, para elaborar um gráfico circular e vejam quantos alunos acertam. Coloquem o mesmo problema usando o futebol como base e vão ver a diferença. Não é segredo nenhum. Pitágoras, o matemático grego, se fosse vivo e residente em Portugal, seria um tipo muito frustrado.
Ganhámos à Inglaterra. Ficámos contentes, continuámos na merda.
O presidente da Câmara Municipal de Viseu, também presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses disse que o melhor método para lidar com os fiscais ultra-zelosos do Governo é “corrê-los à pedrada”. São declarações assumidas como lúcidas, uma “expressão” como disse o próprio no dia seguinte, e que eu tomo como minhas. Mas o meu alvo de eleição seria o Zé Povinho otário que janta uma vez por semana, vive numa barraca sem luz e água com a mulher e oito filhos, mas poupou dinheiro durante um mês para comprar um cachecol da Selecção.
E viva Protugal!