23/08/06

TERMINUS 11: PELA SEGURANÇA DA NAÇÃO


PRIMEIRA PARTE
A notícia saiu na semana passada num diário bem conhecido do povo português e falava da aquisição de material técnico ao exército israelita por parte da Polícia Judiciária para proceder à vigia de sites e salas de conversação (Messenger, Skype, mIRC, etc.).
Ao ler esta notícia não pude ficar indiferente e, como bom cidadão que sou, a primeira coisa que fiz quando cheguei a casa nesse dia foi ligar-me ao Messenger e mudar a minha mensagem pessoal para Mensagem especial para qualquer agente da autoridade que possa estar a ler isto: NÃO TÊM NADA MAIS INTERESSANTE PARA FAZER, NÃO?
Mas isto, meus caros, não é nada. Vou explicar-vos uma coisa. A PJ não começou a vigiar as nossas conversas electrónicas agora, já vigia há mais tempo; só que agora tem material mais sofisticado ao seu dispor. Do pouco que sei – e é mesmo pouco – existem programas que disparam alarmes sempre que são localizados certos termos registados numa lista especial. Às vezes as escutas são feitas por motivos profissionais, outras vezes por motivos de recreio. Não quero julgar aqui ninguém. Sei bem o que é ter um trabalho secante para fazer e compreendo a acção do agente de escuta que se serve do Programa de Controlo da Palheta Online (PCPO) como se este fosse um sintonizador de rádio.
Quando há combinações de compra de droga utiliza-se o termo “CD”. Isto foi-me dito, não sei se é verdade ou mentira. Uma coisa é certa. O termo “CD” pode ser mesmo CD. Se algum dia decidirem aceder a salas de conversação mais obscuras descobrirão que “CD” é também abreviatura de “cross-dresser” (travesti em português). A minha pergunta é lógica e legítima: do que é que eles andam realmente à procura?
Mais algumas advertências sobre essas salas, caso algum dia decidam ir lá:
1 – Sempre que um username esteja entre chavetas { } é porque já tem dono (quem curte de cenas sado-maso sabe do que eu estou a falar melhor do que vocês ou mesmo eu)
2 – Nomes altamente sugestivos geralmente pertencem a pessoas do sexo oposto ao que é apresentado. Ex: NymphoBlonde é geralmente usado por um careca de óculos (com todo o respeito que os carecas de óculos merecem)
3 – Raparigas de 19 anos são gordas, baixas e têm 60 anos.
4 – Os homens têm todos pénis descomunais (mesmo aqueles que fazem companhia com o Farinelli).
Compreendo a necessidade duma segurança apertada. Numa altura em que a ameaça terrorista ameaça pairar sobre o nosso país não é tempo para brincadeiras. É preciso prevenir.
É claro que não há bela sem senão. Neste caso, o reverso da moeda são aquelas pessoas que se preocupam muito com a sua privacidade electrónica mas que, ao mesmo tempo, contam tudo pessoalmente na condição de que a outra pessoa não conte nada a ninguém. Se são muitas ou poucas não interessa, interessa é que nos arriscamos a vê-las desistirem de utilizar a Internet e o telefone e o telemóvel e isso não augura nada de bom para as intenções do Governo de promover o choque tecnológico.

SEGUNDA PARTE
Uma semana depois de ter lido a notícia referida no início do artigo, li uma outra notícia sobre o perigo de violação das telecomunicações das forças de segurança pública por parte de radioamadores ou mesmo de criminosos.
O que temos aqui é um caso típico de vigias a serem vigiados. Nada de grave. Estamos em Portugal. Vigiar conversas privadas de altos funcionários do Estado não vai revelar nada que não tenha sido já revelado “por fonte anónima do gabinete do adjunto do assessor do Ministério” no dia anterior, num tablóide de grande tiragem.
Peço desculpas pelo tipo de vocabulário utilizado, mas temo que esta mensagem possa estar a ser lida por terceiros. Daí a minha preocupação em escrever este texto de forma aparentemente simples, ao mesmo tempo que recorro a técnicas criptográficas do mais avançado que há.
É claro que há um lado bom em termos as nossas forças de segurança vigiadas por criminosos. Primeiro, os criminosos conseguem saber de antemão os movimentos dos agentes da autoridade e agir em conformidade. Segundo, à medida que as forças de segurança pública aumentam o seu nível tecnológico, os criminosos vêem-se obrigados a fazer o mesmo.
Duma perspectiva tecnicista, essas disputas de equipamento só são boas para o choque tecnológico. O nosso país precisa duma guerra dessas. E se por acaso calharem a apanhar um ministro ou uma figura política de alta importância a tecer comentários jocosos sobre o site da Ana Malhoa, por favor, sejam amigos e partilhem isso connosco. Temos saudades duma boa escuta.

07/08/06

TERMINUS 10: PRIORIDADES

Agora cada português tem a sua caixa de correio electrónico. Depois de cada português ter o seu telemóvel (e na perspectiva do choque tecnológico) este era o passo natural a ser tomado pelos responsáveis que governam o nosso país. De futuro – quem sabe? – talvez vejamos cada família portuguesa a viver numa casa sem buracos no tecto, com paredes, com água, luz e gás. Talvez. Mas é melhor vermos pastores a fazer anúncios para a Netcabo.
Já não sou o primeiro a dizê-lo, mas não custa repetir para ver se entra nas vossas cabecinhas: quem dorme na rua numa caixa de papelão precisa da merda duma caixa de correio electrónico para quê? Ele não tem computador! E mesmo que tivesse, ia visitar o quê? http://www.sem-abrigos.pt/? Eu passo horas na Internet. Nunca encontrei fóruns ou salas de chats para os sem-abrigo. Quantas vezes foram a um Espaço Internet e viram um sem-abrigo a falar no Messenger ou a fazer uma busca no Google a “tipos de caixas de papelão” ou “sítios bons para dormir na rua”? Não se vê.
Outra coisa que também quero falar: a publicação das listas de devedores ao fisco. Acho suspeito – para usar um eufemismo – terem passado de 4000 para 290. Dizem que certas situações foram regularizadas. Pensem comigo um pouco. Mas só os que conseguirem. Acredito em algumas, mas não em todas. 3110 contribuintes resolveram pôr as contas em dia porque o Governo lhes disse “Se não pagas, vou dizer a todos que és feio?” Não creio.
E vejam lá se descobrem nessas listas um daqueles nomes, mesmo que remotamente, ligados a grandes grupos económicos ou a figuras do jet-set. Eu não vi nada. E duvido que alguém veja. Lembrem-se do seguinte: há uns meses foi o notícia o facto do fisco ter deixado prescrever uma dívida de 512 mil euros (mais coisa, menos coisa) do presidente da Vodafone Portugal. Ao que parece “esqueceram-se”. Agora “corrigiram” um erro.
Mas tudo bem. Todos nós temos uma caixa de correio electrónico e os que não são analfabetos podem enviar as suas queixas para a conta do Primeira-Ministro (e esperar que ele não tenha o filtro anti-spam ligado). Todos nós esperamos manter ou encontrar trabalho. Esperamos equilíbrio e alguma segurança futura. Mas a balança internacional oscila. É o aumento dos combustíveis, é o aumento disto, é o aumento daquilo; é a crise daqui, é a crise de acolá. Fábricas encerram e deslocam-se para países onde a mão-de-obra é mais barata. É a lei natural das coisas. Como portugueses, resignamo-nos indignados. “A minha vontade era ir lá pra eles verem como é que é!” Só que nunca vamos. A vontade não passa disso mesmo. “É melhor não. Parece mal.”
Para reflexão, deixo-vos com o seguinte: houve uma concentração de Ferraris cá em Portugal. O objectivo do organizador era reunir no mesmo local o maior número de Ferraris possível. Tanto quanto sei, qualquer pessoa podia ir, desde que tivesse Ferrari próprio (alugados ou a leasing não dava).
O que é curioso nisto é que muitos dos presentes eram na sua maioria empresários da indústria têxtil. Não duvido que desses vários tivessem encerrado fábricas por “questões de ordem económica”. Engraçado.
Calma! Não se ponham já com ideias! Parecendo que não, o Ferrari é um carro dispendioso e um homem tem todo o direito (para não dizer dever) de tomar opções. Quem gasta dinheiro num Ferrari topo de gama (incluindo combustível e manutenção) se calhar não pode continuar com a fábrica de atacadores aberta. 300 Euros para trinta trabalhadores que trabalham 12 horas durante toda a semana todos os meses é muito.
Carro ou fábrica? O que é que faz mais falta?
O empresário só com fábrica não pode ir de carro às compras, ao passo que o empresário só com carro não precisa de levar a fábrica atrás para ir onde quiser.
É tudo uma questão de prioridades, meus caros. Mandem-me um mail e depois conversamos.

02/08/06

TERMINUS 9: VIVA A GUERRA!


Numa perspectiva de entretenimento, educação e serviço público (três características que a RTP raramente consegue incluir num mesmo programa) vou falar dum tema que tem estado na ordem do dia: a ocupação do sul do Líbano pelas tropas israelitas.
Poderá parecer à primeira vista que o tema proposto não entretém, não educa e não serve o público; poderá também parecer que, num blogue deste género, a minha abordagem será satírica, porventura a roçar o campo do desagradável.
Quanto à segunda parte da oração anterior, asseguro-vos que serei o mais imparcial possível. Nada contra ou a favor de Israel, do Hezbollah, dos libaneses ou de quaisquer outros envolvidos neste caso. Convém dizer isto para que fique clara a minha imparcialidade. Posso dizer o que me vier à cabeça sem parecer tendencioso.
Resta então a parte do entretenimento, da educação e do serviço público.
A guerra não entretém? Se a guerra não entretém porque é que usam nomes como “teatro de guerra” ou “cenário de guerra” ou outros, todos eles alusivos ao mundo do... entretenimento.
A guerra não educa? Se Israel não tivesse invadido o Líbano, quem é que sequer ouviria falar do Líbano? As únicas vezes que se ouve falar do Líbano é naqueles concursos tipo “Herança” ou o “Um contra todos” (peço desculpas por só dar exemplos de concursos emitidos pela RTP, mas a verdade é que os outros canais públicos não emitem concursos interessantes); fora isso não há nada. Agora o Líbano está no centro da acção. E aqui entra uma questão subtil que é: o estado israelita é apoiado pelos Estados Unidos, que por sua vez encetaram uma luta contra o terrorismo (vulgo Islão). Acontece que os Estados Unidos não vão enviar nenhum contingente para o Líbano. Conclui-se facilmente que o Líbano não tem petróleo. Se não fosse a guerra quem é que sabia disto?
Resta o serviço público. Que, lamento dizer, não está a ser cumprido. Isto porque não temos ainda nenhuma conta da Caixa Geral de Depósitos para ajudar os refugiados libaneses. Ainda não houve manifestações públicas de figuras do jet-set que se dizem “ultrajadas pelo que está a acontecer àquela pobre gente” lá no Iraque, perdão, Libéria. Líbano. E pior que isso. Dos jornalistas enviados para o Líbano nenhum deles (julgo eu) esteve presente na Alemanha durante o Mundial de Futebol. Se a intenção é servir o público, a minha sugestão seria enviar para lá todos esses jornalistas (incluindo aquele que levou com um saco de mijo[1] em cima há uns anos atrás) e esperar que levassem todos com um míssil em cima enquanto fazem comentários como:
Estamos aqui em directo da capital do Líbano, onde a qualquer momento esperamos obter mais informações sobre o que se irá passar nos próximos momentos. Oiço algo a aproximar-se. Parece que é um –”
BUM!!!!
Isso sim, seria serviço público.