07/08/06

TERMINUS 10: PRIORIDADES

Agora cada português tem a sua caixa de correio electrónico. Depois de cada português ter o seu telemóvel (e na perspectiva do choque tecnológico) este era o passo natural a ser tomado pelos responsáveis que governam o nosso país. De futuro – quem sabe? – talvez vejamos cada família portuguesa a viver numa casa sem buracos no tecto, com paredes, com água, luz e gás. Talvez. Mas é melhor vermos pastores a fazer anúncios para a Netcabo.
Já não sou o primeiro a dizê-lo, mas não custa repetir para ver se entra nas vossas cabecinhas: quem dorme na rua numa caixa de papelão precisa da merda duma caixa de correio electrónico para quê? Ele não tem computador! E mesmo que tivesse, ia visitar o quê? http://www.sem-abrigos.pt/? Eu passo horas na Internet. Nunca encontrei fóruns ou salas de chats para os sem-abrigo. Quantas vezes foram a um Espaço Internet e viram um sem-abrigo a falar no Messenger ou a fazer uma busca no Google a “tipos de caixas de papelão” ou “sítios bons para dormir na rua”? Não se vê.
Outra coisa que também quero falar: a publicação das listas de devedores ao fisco. Acho suspeito – para usar um eufemismo – terem passado de 4000 para 290. Dizem que certas situações foram regularizadas. Pensem comigo um pouco. Mas só os que conseguirem. Acredito em algumas, mas não em todas. 3110 contribuintes resolveram pôr as contas em dia porque o Governo lhes disse “Se não pagas, vou dizer a todos que és feio?” Não creio.
E vejam lá se descobrem nessas listas um daqueles nomes, mesmo que remotamente, ligados a grandes grupos económicos ou a figuras do jet-set. Eu não vi nada. E duvido que alguém veja. Lembrem-se do seguinte: há uns meses foi o notícia o facto do fisco ter deixado prescrever uma dívida de 512 mil euros (mais coisa, menos coisa) do presidente da Vodafone Portugal. Ao que parece “esqueceram-se”. Agora “corrigiram” um erro.
Mas tudo bem. Todos nós temos uma caixa de correio electrónico e os que não são analfabetos podem enviar as suas queixas para a conta do Primeira-Ministro (e esperar que ele não tenha o filtro anti-spam ligado). Todos nós esperamos manter ou encontrar trabalho. Esperamos equilíbrio e alguma segurança futura. Mas a balança internacional oscila. É o aumento dos combustíveis, é o aumento disto, é o aumento daquilo; é a crise daqui, é a crise de acolá. Fábricas encerram e deslocam-se para países onde a mão-de-obra é mais barata. É a lei natural das coisas. Como portugueses, resignamo-nos indignados. “A minha vontade era ir lá pra eles verem como é que é!” Só que nunca vamos. A vontade não passa disso mesmo. “É melhor não. Parece mal.”
Para reflexão, deixo-vos com o seguinte: houve uma concentração de Ferraris cá em Portugal. O objectivo do organizador era reunir no mesmo local o maior número de Ferraris possível. Tanto quanto sei, qualquer pessoa podia ir, desde que tivesse Ferrari próprio (alugados ou a leasing não dava).
O que é curioso nisto é que muitos dos presentes eram na sua maioria empresários da indústria têxtil. Não duvido que desses vários tivessem encerrado fábricas por “questões de ordem económica”. Engraçado.
Calma! Não se ponham já com ideias! Parecendo que não, o Ferrari é um carro dispendioso e um homem tem todo o direito (para não dizer dever) de tomar opções. Quem gasta dinheiro num Ferrari topo de gama (incluindo combustível e manutenção) se calhar não pode continuar com a fábrica de atacadores aberta. 300 Euros para trinta trabalhadores que trabalham 12 horas durante toda a semana todos os meses é muito.
Carro ou fábrica? O que é que faz mais falta?
O empresário só com fábrica não pode ir de carro às compras, ao passo que o empresário só com carro não precisa de levar a fábrica atrás para ir onde quiser.
É tudo uma questão de prioridades, meus caros. Mandem-me um mail e depois conversamos.

Sem comentários: