15/10/06

TERMINUS 15: CONTRA A VIOLÊNCIA CONTRA


Não há muito tempo testemunhei um caso óbvio de violência perpetrada sobre uma criança. (Optei por escrever ‘criança’ em vez de ‘menor’ como é hábito, não fossem vocês pensar que eu me estava a referir a um anão.) Para os que não ficaram em choque por eu saber conjugar e aplicar correctamente o verbo ‘perpetrar’, eu continuo.
A violência sobre crianças é um assunto sobre o qual eu não me costumo debruçar muito, mas a situação foi de tal modo horrenda que achei obrigatório relatá-la.
Tudo aconteceu num autocarro – por razões de ética e consciência, não divulgarei o nome da empresa – onde viajavam uma criança (a vítima), os pais (agressores), uma amiga dos pais (cúmplice) e uma vintena de passageiros (testemunhas). A criança não devia ter mais dum ano, se tanto, e os pais, insensíveis ou irresponsáveis ou imaturos, submetiam a criança a ritmos alienistas: kizomba. Os pais eram jovens, mas isso não era desculpa. Que tenham mau gosto para gostar de kizomba é uma coisa. Obrigar o filho a ouvir é outra completamente diferente.
Se tivesse bateria no telemóvel tinha ligado para a TVI. Infelizmente, tal não era o caso e vi-me obrigado a suportar aquela música própria de ante-câmara de tortura. Com uma diferença relevante: eu possuo filtros, ou seja consigo pensar noutras coisas e abstrair-me; a criança não. Os pais não a deixavam. Tanto não que tinham o telemóvel donde ouviam a, passo a expressão, música praticamente colado à orelha da criança. Capaz de ela ficar lesada irreversivelmente como os pais. Isto é ainda mais grave se considerarmos que os genes são hereditários, ou seja, mesmo sem kizomba, não se avizinha um futuro risonho, academicamente falando, para esta criança. E daí, posso estar enganado. Pode sempre vir a ser artista de kizomba ou autor de textos como este que estão a ler (Eu gosto de me auto-criticar de forma negativa e ofensiva; assim os outros não o fazem porque, e cito, “já não tem tanta piada”.)
E não é que não goste de kizomba, nada disso. Não é não gostar, é detestar mesmo.
Já me têm perguntado porque é que não gosto de música africana. E eu não sei o que responder. Porque é que eu não gosto de música africana? Vamos por partes.
Primeiro que tudo, kizomba e kuduro estão para África, como o pimba está para Portugal.
Segundo, o que é música africana? África não é um país, são vários. Não existe música africana, existem músicas de países africanos. Não dizemos música europeia. Não existe música europeia, logo não existe música africana.
Peço desculpa se no parágrafo anterior fui demasiado repetitivo. Por instantes temi que pudesse estar a ser lido por alguém que goste de música africana. Um recado se tiver sido esse o caso:

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