03/12/06

TERMINUS 22: TUDO MENOS CINEMA


Dois artigos seguidos sobre o Manoel de Oliveira pode parecer implicância da minha parte – e se calhar até é – mas julgo que não. É apenas uma precaução. Como sabem, o senhor já passou dos noventa e tal anos e, por isso, como eu acredito que ele fez tanto pelo cinema português como o talhante da minha rua, resolvi escrever isto antes que ele fosse desta para outra (decerto, bem mais movimentada comparativamente). Tudo para que esta não seja uma crítica póstuma.
Passando ao assunto em concreto, há cerca de dois, três meses li uma crónica no jornal 'Público' escrita por, lá está, Manoel de Oliveira. Na altura pensei em escrever um artigo sobre certas ideias que ele havia exposto nessa crónica. Felizmente para mim o meu gosto pela vida ainda não havia esmorecido.
Passado todo este tempo, apercebo-me que o meu gosto pela vida ainda continua por esmorecer mas, ao mesmo tempo, apercebo-me e assumo que às vezes é preciso fazer sacrifícios por um bem maior.
Comecemos pelo título. 'Cinema de ontem, cinema de amanhã'. Eis algo que me assusta. Manoel de Oliveira é tido como o grande patrono do cinema português e fez tão bem as suas jogadas que o cinema de amanhã, mesmo já sem ele, seguirá o mesmo rumo.
Como sabem, o nosso cinema é rico em variedade. Desde filmes sobre toxicodependentes, a pessoas com depressão, a padres que caem na tentação, a padres toxicodependentes com depressão que caem na tentação. E no meio podem pôr uma prostituta arrependida. Ou então fazem um filme de época. Assim, estilo 'Branca de Neve'. Não se nota, mas é. Dizem.
Gosto de uma coisa nele (Manoel de Oliveira) – precisamente também o que mais odeio – aos noventa e tal anos ainda filma. Por esta altura, já perdi a esperança de que venha a ter acção nos seus filmes. Se não teve nas últimas décadas, não era agora que ia começar a ter.
Entristece-me é a nova vaga de realizadores – os apadrinhados – que ainda tem forças para se mexerem e mudarem o rumo que seguimos desde há muito tempo e, em vez disso, cedem à inércia para não perderem o apoio que tanto lubrificante lhes custou.
Outra coisa que admiro em Manoel de Oliveira é a honestidade. Eu desconfiava e ele, sincero e justo como poucos, confirmou-o na tal crónica. No último parágrafo, Manoel de Oliveira escreve: “Curiosamente, da minha parte, faço sempre um grande esforço para que não aconteça durante a fabricação de qualquer um dos meus filmes que eu nunca caia nesse estado de um abstracto, de um pressuposto que frequentemente leva as pessoas a acreditarem que estão a fazer cinema. O que, sempre que começo uma nova filmagem, me leva a dizer para comigo mesmo, e até, por vezes, a prevenir o chefe operador: vamos fazer tudo o que for preciso, tudo menos cinema.” É bonito e confirma as minhas suspeitas. Só precisa é de ter mais divulgação.
Quanto à escrita em si.... bom, os que compreenderam e apreciaram a crónica são aqueles doutorados ou pseudo-intelectuais que apreciam e julgam compreender os filmes dos grandes realizadores portugueses. A eles, peço desculpa pelos termos usados neste meu modesto artigo. Só espero que a simplicidade não vos tenha ofendido.

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