11/09/07

TERMINUS 42: INDECISÃO


O homem sorriu, um sorriso franco e simples, daqueles que se vêem muito nos filmes, séries de televisão, outdoors, todo o local onde a imagem é o que vende, e levantou os olhos para encarar o espectáculo (o termo aplicado tem as suas reservas) perante si. Haviam sido muitas as vezes que ali estivera, mas hoje, entendia assim, seria diferente.
Hoje iria cumprir a sua missão. Enfrentaria o desconhecido no seu próprio terreno e aí decidiria qual o caminho a seguir. A decisão era difícil e dividia-se em quatro pontos opostos. Informação relativa a cada uma das opções disponíveis era escassa, em alguns casos nula, e sujeita a erro.
Estava no centro da decisão. O que fazer?
Tinha de encontrar um caminho depressa. De preferência, um que o obrigasse a prosseguir; não adiantava voltar atrás.
Pensando nisto, olhou para trás. O caminho atrás de si alterava-se a cada instante. Se dúvidas haviam, esta espreitadela esclarecera tudo. O realizador deste filme pensara em tudo. As marcas do seu passado estavam bem presentes atrás de si, quase como se o perseguissem, mas isso não o assustava. Não tinha medo do que fizera. Cedo aprendera uma lição que dizia mais ou menos “o tempo a seu tempo” ou, por outras palavras não tão sucintas, “o passado é passado, o presente é presente e o futuro será apenas e só o futuro”. Cada um pertence a si mesmo e é a sua evolução contínua que constitui o ponto de interesse da vida. A vida continua e as decisões têm que ser tomadas.
Já não podia ficar ali muito mais tempo. Era tanta a pressão que gritou para dentro. O homem do sorriso simples que só aparecia nos filmes e afins estava furioso com a sua inércia, o seu temor. A sua mente era como um disco de vinil riscado. Mesmo tendo em conta que a maioria das pessoas da sua idade já não sabiam o que era um disco de vinil. Só os mais aficionados. Não era o caso dele. Ele, sobre o vinil, ouvira uma expressão e fixou-a. Hoje em dia era tudo digital. Ou quase tudo. As pessoas não sabem nem querem saber das suas origens.
Vistas as coisas, ele não era mais do que os outros. Os outros, porém, haviam chegado ao mesmo impasse no qual ele se encontrava agora e haviam escolhido o caminho a seguir. Para o melhor ou para o pior, eles tomaram uma decisão.
Inspeccionou o passado mais uma vez. Atrás de si estavam figuras de outras eras navegando no oceano da sua visão; manifestações físicas de pessoas que poderiam ter sido ele. Contudo, a semelhança não é tudo como se sabe e o tempo de acção era cada vez menos.
Qualquer um dos caminhos estava livre e era isso que alimentava a sua indecisão. Não havia qualquer informação acerca do que poderia ou não encontrar.
A sua cabeça andava às voltas dentro daquele enorme e intenso turbilhão. O espaço curvava-se sobre si mesmo. O ponto de partida repetia-se e tornava-se também ponto de chegada.
Espreitou através do espelho do passado e viu então que as pessoas que o seguiam eram outras. Em breve, também estas iriam deixar uma vaga para as seguintes. Os outros sucediam-se sem parar. Apenas ele permanecia naquele local; não sucedia, nem era sucedido.
A raiva começava a dar lugar ao desespero e a este sucedia o gozo. Começava a achar piada àquilo e viu a luz que o levou a tomar a decisão definitiva. Aumentou a velocidade, ligou o pisca e, após tanto tempo, saiu da rotunda e seguiu em direcção à auto-estrada.

Nota do autor: Esta e outras histórias, espero eu, estarão um dia presentes num livro de contos. É só eu acabar de os escrever e procurar quem os edite.

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