21/11/07

TERMINUS 49: SACRIFÍCIOS PELA FOME NO MUNDO


Certas pessoas têm a ilusão de que não comer tudo o que se tem no prato, mesmo que ainda esteja vivo ou fora do prazo de validade, é crime de extrema gravidade. Eu ouvi várias vezes essas expressões de reparo sócio-familiares que todos nós conhecemos desde pequenos. ‘Tanta gente a passar fome e tu é o que se vê’, ‘O que tu tens é fartura’ ou ‘Umas semaninhas no Biafra e logo vias o que era fome’, só para citar alguns exemplos. Ouvia-as muitas vezes; não ligava e continuo a não ligar.
A minha ideia é simples e, no meu entender, honesta. Ponto um: há pessoas com fome e isso é chato e tal e quem nos dera que não fosse sempre assim. (Faço esta ressalva porque se deixar de haver fome no mundo os alimentos passam a ser supérfluos, o que vai acabar com o ganha-pão de muita gente.) O que eu não percebo e contesto é porquê espetarem-me no prato comida para duas pessoas como se eu fosse um alarve e eu, por não comer tudo, passo a ser um gajo cruel e insensível?
Eu ficava bem só com metade e a outra metade oferecida a alguém que precisasse. Não me importaria nada se assim fosse. E seria um gesto bonito de se ver.
Só que não. É doses individuais para duas pessoas, meias doses para uma pessoa e não há volta a dar.
Ponto dois. O tamanho das doses não é tão significativo quanto a qualidade. O que quer isto dizer? Quer dizer que se a comida estiver bem saborosa, sou gajo para enfardar uma dose sozinho. Caso contrário, é meia dose e vá lá vá lá.
E mesmo que eu comesse tudo – intragável ou não – mesmo que eu ingerisse doses de comida para duas, três ou mais pessoas, e toda a gente visse que eu comia bem e não deixava comida no prato, em que é isso ajudaria as pessoas que passam fome? (Respondam a esta pergunta imaginando-me como o Mr. Creosote do ‘Meaning of Life’ dos Monty Python.)
(Outro aparte: a diferença entre ‘passar fome’ e ‘passar férias’ não está apenas nas duas letras extras, há mais qualquer coisinha a distinguir.)
O argumento de alguns para esta questão diz que se não comermos porque não nos apetece estamos a ser injustos e hipócritas perante aqueles que gostariam de comer, mas não podem. É uma ideia errada e passo a exemplificar porquê.

Situação #1
Na Somália, uma família de turistas holandeses faz um piquenique. Os miúdos são arrogantes e meio parvos e não querem comer as iscas. O pai ralha com os miúdos e invoca o argumento da hipocrisia. São ouvidas expressões como ‘têm mais olhos que barriga’ (mas em holandês).
A mãe defende os filhos dizendo que iscas não é comer de piquenique, ainda para mais de piquenique holandês e aquilo descamba numa discussão que termina com o evento.
A família abandona o local e fica lá o tupperware com as iscas. Duas crianças escondidas atrás dum arbusto aproximam-se do local do piquenique e enchem o bandulho à conta das iscas.

Situação #2
Outra família, daquelas que comem tudo (inclusive os pratos e os talheres, mesmo que estes não sejam comestíveis) vai fazer um piquenique, também na Somália. Os pais comem tudo, os filhos comem tudo. Não fica nada e partem para casa, sentindo-se todos bem.
Enquanto isso, escondidas atrás dum arbusto, duas crianças passam fome.

Agora tirem as vossas conclusões.
(Desde que uma delas não seja: Isso só resulta se for em piqueniques na Somália.)

09/11/07

TERMINUS 48: A INSTAURAÇÃO DO ELÁDIO

Portugal tem os ‘Globos de Ouro’ da SIC, tem (ou tinha) a Gala Nova Gente, tem pompons e serpentinas, mas não tem uma cerimónia especial – há cerimónias banais? – SÓ para a indústria do cinema português.
Dirão alguns que isso é por não termos uma indústria de cinema em Portugal. Dirão com relativa razão. Não temos material suficiente para escolher o que de melhor se faz no cinema português. Pelo menos, não anualmente. Para a coisa durar mais que dez, quinze minutos teríamos de realizar a cerimónia de dez em dez anos ou, se ainda acharmos que é pouco, de vinte em vinte.
Ou então, mudamos radicalmente de estratégia e comemoramos – podia ter escolhido outro termo, eu sei – o que de pior se faz. E aí, meus caros, há muito por escolher.
Comecemos pelo boneco, ou mascote se preferirem. Já tenho o nome: Eládio.
Segui o exemplo americano e fui buscar o nome a uma figura televisiva bem conhecida do público. Só que, em vez de usar o nome de um personagem da ‘Rua Sésamo’, inspirei-me em alguém cujas referências são, tanto quanto sei, imaculadas: Eládio Clímaco. É verdade que há muito tempo não o vemos na televisão como gostaríamos de ver, mas as suas prestações nos ‘Jogos sem fronteiras’ ainda perduram na nossa memória.
Não sei bem, mas talvez seja mesmo esta a forma certa de agir. Os americanos escolheram uma figura socialmente incómoda (o sem-abrigo) para representar um prémio bom. É lógico que eu fosse escolher alguém como deve ser para representar um prémio mau. Uma coisa equilibra outra. E tem de ser alguém como o Eládio ou, pelo menos, alguém com um nome invulgar. A coisa não teria o mesmo impacto se tivesse escolhido um Jorge Gabriel ou um Mário Crespo. A entrega dos Jorges ou a entrega dos Mários seriam cerimónias pobres se comparadas com a entrega dos Eládios ou a entrega dos Isidros. Imaginem o que seria a cerimónia dos Oscares, se o boneco em vez de Oscar se chamasse Richard. Todos falariam dos DICK AWARDS e isso seria bom para prémios de cinema porno, mas fora isso... não ficaria bem.
Não vou propor candidatos, deixo isso a vosso cargo. Quando tiver material suficiente fazemos uma cerimónia com Trinaranjus e tortas Dancake. Vai ser à fartazana.