31/01/08

TERMINUS 54: QUERIDOS, MUDEI OS MINISTROS

ARTIGO QUE SEGUE DA CONCLUSÃO DO ANTERIOR E QUE NÃO FARIA MUITO SENTIDO SE O OUTRO NÃO TIVESSE SIDO PUBLICADO
E porque é que não faria sentido? Basicamente, porque vou explicar porque é que escrevi o artigo anterior. Ora, se eu não tivesse escrito o artigo anterior, agora ia estar a explicar porque escrevi o artigo sobre o filme da Catarina Ruivo e, se isto já faz pouco sentido, assim ainda faria menos. Segundo, vou ter de começar a usar menos vírgulas, estou a parecer o Saramago, e não quero que isso aconteça,

A verdade é que além de preguiçoso, sou teimoso. Anteontem de manhã não tinha muita vontade de escrever, mas tinha de escrever qualquer coisa sobre aquele tal comentário de Correia de Campos e algo me disse que não podia passar dali. E quando eu digo que não tinha vontade, não tinha mesmo. Era mesmo daqueles dias que não dava. Mas escrevi.
Chego a casa, ligo a televisão na SIC Notícias. Remodelação no Governo. Mau, pensei logo. Tu queres ver que...? Bem pensado, bem acontecido.
E eu sabia que já não ia a tempo de publicar o último artigo antes da saída de Correia de Campos. Uma porque tinha de passar o texto no computador e só viria a acontecer por volta das onze da noite do dia seguinte. Podia ter feito isso de manhã e publicado antes da tomada de posse da nova ministra, mas optei por continuar a ler o livro que me tem entretido desde Sábado passado ('Dirty Job', de Christopher Moore, se vos interessar).
Sabia também que um artigo possivelmente ofensivo publicado numa altura em que a pessoa visada já não estaria a desempenhar o cargo em questão, além de me conotar como calão, preguiçoso, mal informado, poupar-me-ia de eventuais represálias jurídicas.
Posso dizer que o Presidente da República Mário Soares é gordo e não sabe falar francês. E reforçar o “é”, uma vez que Mário Soares já não é Presidente da República.
Ou assim o espero...
E sobre a saída da Ministra da Cultura, acho bem. Aprovou a nova lei de financiamento do cinema e isso fica-lhe bem e tal, mas não foi nada planeado de início por ela. Opiniões sobre o novo homem da Cultura só quando for caso disso.

TERMINUS 53: A SAÚDE PÕE-ME DOENTE

ARTIGO QUE JÁ SAI TARDE, MAS COMO JÁ ESTAVA ESCRITO, TEM DE SER




O tema corrente da sociedade portuguesa é o das urgências. Como hoje não me apetece escrever muito vou apontar o dedo sem pensar muito se faz sentido ou não.
Primeiro, as pessoas vão para os SAP (ou iam quando haviam) às 6, 5 e 4 da manhã para conseguirem uma consulta para as 11. E nem todos conseguem vaga. E os que conseguem, às vezes não são atendidos. Porquê?
Porque há uns senhores das agências de viagem que, volta não volta, vão ao gabinete do senhor doutor mostrar-lhes umas brochuras e-
Disseram-me agora que esses senhores não são das agências de viagem, são da propaganda. É bom. Da próxima vez que apanhar um deles, tenho de perguntar porque é que deixei de receber a Dica.
Outro ponto. As pessoas morrem nas ambulâncias a caminho das urgências.
De quem é a culpa?
Mas como é que querem que o país vá para a frente se, a qualquer merdinha que aconteça, temos, forçosamente, de apontar o dedo e dizer 'foi este' ou 'foi aquele'?
Se uma pessoa é atropelada ou baleada ou esfaqueada e o serviço de urgência mais próximo fica a não sei quantos quilómetros, qual é o espanto se morrer? Morrer em ambulâncias a caminho de serviços de urgência não é mais notícia do que alguém cair dum prédio de sete andares e morrer.
Pelo menos assim parece ser o entendimento do ministro Correia de Campos, quando teceu aquele comentário em relação à morte de um idoso (penso que foi no hospital de Aveiro, mas de momento não tenho como ver e é da maneira que me corrigem). “Se as suas avozinhas ou bisavós não tivessem morrido ainda hoje seriam vivas.”
Como eu compreendo que as pessoas no calor do momento digam coisas parvas sem pensar (eu sou exemplo disso), aqui vao mais algumas frases para Correia de Campos (e mais quiser).

Se ontem era amanhã, amanhã hoje será ontem.”
(Esta para diálogos com o professor Manuel Maria Carrilho)

Caso possuísse o Anacleto um designador de personalidade civil baseado em Honório, assumir-se-ia que esse designador não poderia ser baseado em Inácio.”
(Não faço ideia do que escrevi, nem se está bem ou não, mas deve estar de acordo com a nova terminologia linguística; indicado para conversas com Maria de Lurdes Rodrigues)

Finalmente,
Se a minha mãe tivesse pila, seria o meu pai.”
(Frase de trolha que não tem qualquer relevância na defesa de uma medida governamental; funciona bem naquelas festas em que está toda a gente a falar alto e de repente cala-se tudo quando estamos a dizer uma barbaridade destas.)

Artigo incompleto, insubstancial, mal estruturado, mas eu disse que não me apetecia escrever.

TERMINUS 52: DAQUI P'RA TRÁS


Numa altura em que o cinema português se afasta dos parâmetros elitistas e cinzentos que o caracterizaram durante anos e anos, parece que ainda há tempo e lugar para quem teima em não desistir de fazer o tipo de cinema que não atrai nem surpreende.
Segundo a ‘Visão’ nº 777 de 24 de Janeiro de 2008, a realizadora Catarina Ruivo conta, a propósito do seu novo filme “Daqui pra frente”, o que gosta no processo de criação de um filme. Eis o que ela diz:
De pensar a estrutura do filme, de encontrar-lhe a respiração, os planos de união, de optar pelos takes, de descobrir o fotograma certo(…)”
Até aqui, tudo muito bem. O pior vem a seguir.
Coragem não é deitar fora os planos que ficaram mal, mas «ter a humildade de os manter» porque fazem falta ao filme.”
Eu não sou editor, muito menos realizador, para opinar sobre essa ideia de aproveitar o que ficou mal como sinal de humildade – com bases técnicas. Não considero que o vídeo que coloquei neste blogue e o vídeo que coloque n’O OVO REDONDO sejam exemplos de uma grande destreza técnica. Por outras palavras, não me posso valer deles para comentar profissionais da área. Contudo, tive oportunidade de perguntar a amigos meus, esses sim, profissionais da área o que achavam disto, e a reacção deles foi de total incredulidade.
Poderá ter sido uma expressão descontextualizada. Poderá ter sido equívoco da Visão e não da entrevista e isso seria um grande alívio. O problema é que a Visão não se costuma enganar muito. Pode ser que para a semana saia o desmentido e eu publique um artigo de desculpa. Mas duvido que tenha sido engano. (Entretanto, já hoje é quinta-feira, já li a nova edição da revista e não vem lá nada. O Manuel Alegre ficou a 29 mil votos da Presidência, em vez dos 200 mil referidos. Fora isso, não vem lá mais nada.)
Como telespectador e, principalmente, como guionista, acredito que é preciso saber deitar ideias fora sem ter medo.
Aprendi com o Possidónio Cachapa qualquer coisa como “uma cena são apenas palavras num papel”. É mais que certo não estar a citá-lo ipsis verbis, mas isto já foi há uns bons anos e foi uma frase que ficou apenas na memória e não em papel. No fundo, resume-se a isto: podemos sempre fazer melhor, mas para isso precisamos de apagar o que fizemos e começarmos de novo. Isso vale para a escrita, para a montagem, para a realização, para tudo.


Eis o que é humildade no meu manual:
  • Deitar fora uma cena – a melhor que eu escrevi e que serviu como base ao guião – porque não se enquadra com o resto do guião. Deu origem a uma história diferente da que estava planeada; mantê-la é estupidez.
  • Prescindir duma personagem, aquela com as melhores falas, porque a produção assim o define, ou porque não é imprescindível para que a história faça sentido.
Manter isso, conservar o que ficou mal, o que não funciona é apenas arrogância e preguiça.
Façamos uma comparação. Ainda que subjectiva, ajuda a ter uma ideia.
Por motivos pessoais e profissionais, fui convidado para a antestreia do filme “Call Girl” do António-Pedro Vasconcelos. Uma surpresa agradável e um filme que entreteve.
Tem falhas, como todos os filmes têm, sejam portugueses ou estrangeiros, mas é um filme feito pelo autor para si e para o público; não se limita a satisfazer o ego de quem o faz. Tem a Soraia Chaves e isso atrai muita gente, mas o resto também não está nada mal.
Não fui o ver o “Corrupção”, nem vi outros “blockbusters”. Por opção, mas acima de tudo porque eram prova de uma ideia que eu já expressei neste blogue: o oito ou oitenta, isto é, o filme muito inteligente cinzento e o filme feito de idiotas e violência desmensurada.
Não querendo parecer demasiado elogiativo, “Call Girl” combina bem o melhor das duas vertentes; tem equilíbrio.
E se falo do que fui ver e do que não vi, também tenho de falar do que não quero ver. “Daqui p’ra frente’ surge no topo da lista. O filme pode ser bom, mas o teaser não me seduziu nada e aquela entrevista de Catarina Ruivo na Visão tratou de afastar qualquer curiosidade que eu pudesse ter.

Notas finais sobre esse filme (e facto assumido com orgulho): a melhor cena do filme é copiada. Não preciso dizer mais nada. Por fim, sei agradecer quando é preciso e tenho que agradecer muito a Catarino Ruivo. Tenho estado ausente estes meses todos, muito por preguiça e falta de tempo mas também, essencialmente, por falta de tema onde me pudesse concentrar. Eram muitos e eu não conseguia escolher.
Catarino Ruivo fez essa escolha por mim. Obrigado a ela, e obrigado também à ‘Visão’.