31/01/08

TERMINUS 52: DAQUI P'RA TRÁS


Numa altura em que o cinema português se afasta dos parâmetros elitistas e cinzentos que o caracterizaram durante anos e anos, parece que ainda há tempo e lugar para quem teima em não desistir de fazer o tipo de cinema que não atrai nem surpreende.
Segundo a ‘Visão’ nº 777 de 24 de Janeiro de 2008, a realizadora Catarina Ruivo conta, a propósito do seu novo filme “Daqui pra frente”, o que gosta no processo de criação de um filme. Eis o que ela diz:
De pensar a estrutura do filme, de encontrar-lhe a respiração, os planos de união, de optar pelos takes, de descobrir o fotograma certo(…)”
Até aqui, tudo muito bem. O pior vem a seguir.
Coragem não é deitar fora os planos que ficaram mal, mas «ter a humildade de os manter» porque fazem falta ao filme.”
Eu não sou editor, muito menos realizador, para opinar sobre essa ideia de aproveitar o que ficou mal como sinal de humildade – com bases técnicas. Não considero que o vídeo que coloquei neste blogue e o vídeo que coloque n’O OVO REDONDO sejam exemplos de uma grande destreza técnica. Por outras palavras, não me posso valer deles para comentar profissionais da área. Contudo, tive oportunidade de perguntar a amigos meus, esses sim, profissionais da área o que achavam disto, e a reacção deles foi de total incredulidade.
Poderá ter sido uma expressão descontextualizada. Poderá ter sido equívoco da Visão e não da entrevista e isso seria um grande alívio. O problema é que a Visão não se costuma enganar muito. Pode ser que para a semana saia o desmentido e eu publique um artigo de desculpa. Mas duvido que tenha sido engano. (Entretanto, já hoje é quinta-feira, já li a nova edição da revista e não vem lá nada. O Manuel Alegre ficou a 29 mil votos da Presidência, em vez dos 200 mil referidos. Fora isso, não vem lá mais nada.)
Como telespectador e, principalmente, como guionista, acredito que é preciso saber deitar ideias fora sem ter medo.
Aprendi com o Possidónio Cachapa qualquer coisa como “uma cena são apenas palavras num papel”. É mais que certo não estar a citá-lo ipsis verbis, mas isto já foi há uns bons anos e foi uma frase que ficou apenas na memória e não em papel. No fundo, resume-se a isto: podemos sempre fazer melhor, mas para isso precisamos de apagar o que fizemos e começarmos de novo. Isso vale para a escrita, para a montagem, para a realização, para tudo.


Eis o que é humildade no meu manual:
  • Deitar fora uma cena – a melhor que eu escrevi e que serviu como base ao guião – porque não se enquadra com o resto do guião. Deu origem a uma história diferente da que estava planeada; mantê-la é estupidez.
  • Prescindir duma personagem, aquela com as melhores falas, porque a produção assim o define, ou porque não é imprescindível para que a história faça sentido.
Manter isso, conservar o que ficou mal, o que não funciona é apenas arrogância e preguiça.
Façamos uma comparação. Ainda que subjectiva, ajuda a ter uma ideia.
Por motivos pessoais e profissionais, fui convidado para a antestreia do filme “Call Girl” do António-Pedro Vasconcelos. Uma surpresa agradável e um filme que entreteve.
Tem falhas, como todos os filmes têm, sejam portugueses ou estrangeiros, mas é um filme feito pelo autor para si e para o público; não se limita a satisfazer o ego de quem o faz. Tem a Soraia Chaves e isso atrai muita gente, mas o resto também não está nada mal.
Não fui o ver o “Corrupção”, nem vi outros “blockbusters”. Por opção, mas acima de tudo porque eram prova de uma ideia que eu já expressei neste blogue: o oito ou oitenta, isto é, o filme muito inteligente cinzento e o filme feito de idiotas e violência desmensurada.
Não querendo parecer demasiado elogiativo, “Call Girl” combina bem o melhor das duas vertentes; tem equilíbrio.
E se falo do que fui ver e do que não vi, também tenho de falar do que não quero ver. “Daqui p’ra frente’ surge no topo da lista. O filme pode ser bom, mas o teaser não me seduziu nada e aquela entrevista de Catarina Ruivo na Visão tratou de afastar qualquer curiosidade que eu pudesse ter.

Notas finais sobre esse filme (e facto assumido com orgulho): a melhor cena do filme é copiada. Não preciso dizer mais nada. Por fim, sei agradecer quando é preciso e tenho que agradecer muito a Catarino Ruivo. Tenho estado ausente estes meses todos, muito por preguiça e falta de tempo mas também, essencialmente, por falta de tema onde me pudesse concentrar. Eram muitos e eu não conseguia escolher.
Catarino Ruivo fez essa escolha por mim. Obrigado a ela, e obrigado também à ‘Visão’.

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