28/10/08

TERMINUS 66: DISCURSO EM DIRECTO


Se há coisa que gosto de ver são pessoas entrevistadas em directo darem respostas parvas a perguntas concretas. Não gosto tanto como gosto, por exemplo, de ovos estrelados, mas gosto. E se é verdade que às vezes andamos tempos e tempos sem nenhum caso digno de referência (a não ser de futebolistas, só que isso é tão habitué que já chateia), quando menos esperamos aparece um caso como deve de ser.
O caso mais recente data de ontem (dia 27 de Outubro). Antes da pergunta e da resposta, uma pequena contextualização para que tudo faça sentido (ou não).
No dia em que se começou a administrar a vacina contra o cancro do colo do útero (Gardasil), vieram a público uma notícia via CNN que dava conta de cerca de dez mil jovens que sofreram "efeitos nefastos" (incluindo 21 mortes) após terem sido administradas com a tal vacina. (Sou só eu, ou esta frase 'tá assim um bocado mal escrita?)
Como nós em Portugal somos pessoas sensatas, fomos logo (quando fomos, refiro-me aos repórteres) pedir explicações à Direcção Geral de Saúde, que garantiu não haver razões para alarme.
E é lógico que não há. Se não, vejam.
REPÓRTER - Como comenta as notícias da CNN sobre jovens que morreram ou adoeceram após terem sido injectadas com Gardasil?
(Um aparte antes da resposta. Isto é uma pergunta que um repórter nunca faria em directo. Muito longa. Vêem como já estão a aprender?)
GRAÇA FREITAS (a respondona) diz, e cito, "em matéria de vacinas e medicamentos, a vigilância é apertada, realçando que ainda não está comprovada uma relação de causa efeito entre os problemas detectados nas jovens e a Gardasil".
Pronto. Se tivesse ficado por aqui, tudo bem. Era uma resposta um tanto quanto evasiva. Como o pessoal que fez a avaliação do acidente na linha do Tua dizer que aquilo estava tudo a cair de podre, agora daí a dizer que isso teve alguma coisa a ver com acidente, calma lá. O problema é que ela quis dar um exemplo.
Eu nem vou dizer nada. Leiam só.
«Posso ir a um centro de saúde apanhar uma vacina e nas horas a seguir por acaso parto uma perna, foi na sequência da vacina, mas não quer dizer que tenha sido causada pela vacina. Por isso é que os organismos que controlam os medicamentos, não emitiram nenhuma recomendação, no sentido de se estar atento»


Faz todo o sentido. Querem mais exemplos do género para ver como isto faz sentido? Cá vai.
«Posso ir a um matadoro matar um porco e nas horas a seguir por acaso dar corda ao relógio, foi na sequência da matança do porco, mas não quer dizer que tenha sido causada pela matança do porco. Por isso é que os senhores que controlam os porcos, não emitiram nenhuma recomendação, no sentido de se estar atento.»
«Posso ir a um parque de diversões comer algodão doce e nas horas a seguir por acaso elaborar um orçamento para reparação de uma persiana, foi na sequência do algodão doce, mas não quer dizer que tenha sido causado pelo algodão doce. Por isso é que os senhores que adoçam o algodão, não emitiram nenhuma recomendação, no sentido de se estar atento.»
«Posso ser informado que a vacina que a entidade pela qual eu sou responsável começou a administrar é capaz de não ser lá muito boa e nas horas a seguir dar um exemplo que faz de mim um atrasadinho, foi na sequência de não ter tomado a medicação, mas não quer dizer que tenha sido causada por isso. Por isso é que os senhores que mandam na clínica onde resido, não emitiram nenhuma recomendação, no sentido de se estar atento.»
Acho que já chega.
Bem esteve o W. que quando um repórter o questionou sobre um assunto pertinente, respondeu "Gostava que me tivesse enviado essa questão previamente por email." (Corri o Youtube e o Google à procura da expressão correcta, mas não consegui. As minhas desculpas.)


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