13/12/08

TERMINUS 68: MANOEL DE OLIVEIRA E JOÃO CÉSAR MONTEIRO (TUDO NO MESMO SACO E ATIRADO AO RIO)

Manoel de Oliveira, o mais velho realizador em actividade do mundo comemorou cem anos. E disse que não se vai reformar. Ainda.
Às vezes perguntam-me, “ó Joel, se tu não gostas do senhor, porque é que te dás ao trabalho de escrever sobre ele?” Bom, a verdade é que nunca me senti atraído pela sua obra cinematográfica. Pode ser muito boa, bla bla, mas a mim “não puxa”. A título profissional, é mais ou menos isto. Quanto à parte pessoal, não o conheço, não posso comentar.
Não podia, melhor dizendo.
Há dias li declarações do senhor Manoel de Oliveira, a queixar-se de que se tivesse de depender do Estado português para fazer filmes, teria ficado por um ou dois.
Ora bem, eu entendo que o senhor esteja a ficar senil. É a única desculpa possível e aceitável para tais declarações. Se não é senilidade, é arrogância.
Não tenho por hábito responder a comentários feitos a posts anteriores, mas acho que é importante abrir aqui uma excepção apenas para consolidar o que estou a dizer.
O comentário foi a propósito do meu post “TERMINUS 21: MANOEL DE OLIVEIRA A 48 VELOCIDADES” e dizia:
Leiam muito, vejam muito cinema, mesmo que vos dê seca no inicio, e depois hão de ver que não querem outra coisa. Ou então, senao gostarem paciencia. Considero Manoel de Oliveira e João Cesar Monteiro os maiores clássicos do cinema português, e lamento os comentários que se escrevem acerca deles.Quem não estuda matemática também a detesta. Mas se esforçar e aprender ficará a gostar.Pela ordem de ideias dos detractores, também os clássicos da cultura humanistica seriam para deitar fora , no entanto são a maior riqueza espiritual da Humanidade.
Subscrevo que devemos valorizar os clássicos. Quanto a valorizar Manoel de Oliveira e José César Monteiro, nem pensar. Quem quiser gostar, é livre de gostar, mas eu não consigo gostar, ou sequer respeitar chulos (sim, foi mesmo chulos que escrevi) que sempre receberam dinheiro dos contribuintes para fazer filmes que não deram lucro nenhum, só despesa e vêm dizer que “o Estado não nos dá apoio” ou “Eu quero é que o público português se foda.”
Eu digo-vos o que é que queria.
É melhor não.
O Paulo Branco, ex-produtor do Manoel de Oliveira, disse na RTP que o Estado português não investe no cinema português. Se ele com isto queria dizer ‘bom cinema português’, é verdade; investe só nos dele.
Manoel de Oliveira largou o senhor Paulo Branco e passou a trabalhar com o menino Gonçalo Cadilhe, filho do ex-Ministro das Finanças do Governo de Cavaco Silva. Será assim tão difícil para um realizador obter fundos para fazer um filme, quando o seu produtor é filho de um ex-Ministro das Finanças do actual Presidente da Republica?
Eu não digo que haja favoritismos (todos sabemos que nestas coisas somos modelos a seguir), mas dá que pensar.
Também já disse que não sou apologista do filme feito às três pancadas. Sexo, gaja boa e tiros e explosões; só, não chega. Gosto de bons filmes. Com ou sem efeitos especiais. Não é negar a expressão artística do velhinho e amigos e idolatrizar o comercialismo.
É ter um meio termo.
Que o Estado dê dinheiro a um realizador ou outro, cujo filme faça um mau resultado junto do publico mas um sucesso com os críticos, de vez em quando… eu aceito. O que eu não aceito é que isso seja feito (felizmente a lei já mudou) apenas porque a pessoa tem nome e já é velhinha e não se pode dizer não ao velhinho senão dá-lhe o badagaio.
O que se deve fazer é incentivar a indústria, fazer filmes que façam dinheiro, mas que não deixem de poder ser considerados obras de arte. Filmes bons, filmes maus, mas que despertem o interesse das pessoas, que espevitem alguns, que digam “eu consigo fazer melhor”. Força. Façam. Tentem.
É assim tão difícil combinar as duas coisas? ‘A Lista de Schindler’, ‘Titanic’, ‘O Padrinho’; há infinitos exemplos de filmes que são considerados obras clássicas do cinema e que, por incrível que pareça, não foram fracassos de bilheteira.
A frase Yes, we can! está muito na moda entre os nossos políticos. Que tal começarmos a aplicá-la no cinema também?
(Uma última curiosidade sobre o Manoel de Oliveira: em França, há uma especialização numa licenciatura de cinema sobre o senhor. Exactamente. Há pessoas que são especializadas em Manoel de Oliveira. É fácil identificá-los. Olhem para uma pessoa; se ela estiver sem se mexer durante dez minutos seguidos, é bem provável que seja um especialista em Manoel de Oliveira.)

03/12/08

TERMINUS 67: SOU EU QUE SOU ESTÚPIDO OU?

As pessoas lêem cada vez menos. As estatísticas até são capazes de dizer que não – não tenho nenhuma à mão neste momento para confirmar ou desconfirmar – e ao vermos a parafernália de livros que enchem as estante e expositores das livrarias e supermercados e os novos autores que brotam como cogumelos em terreno próprio para cogumelos, quase que acreditamos que é verdade.
Só que não é.
A verdade – ainda que esta possa ser subjectiva, mas o blogue é meu e eu é que sei – é que as pessoas lêem menos. E lêem menos, decerto não em quantidade, porque a oferta é cada vez mais vasta, mas em qualidade, uma vez que não houve (nem creio que vá haver) alguém que separe o lixo efémero do que é realmente literatura. Bem sei que não se deve comentar o gosto dos outros. E os críticos fazem o quê? Não comentam, fazem pior, impõem-nos o seu gosto. Criticar é feio, mas se for pago está tudo bem. É isso?
Para mim, as pessoas lêem mais coisas más agora do que em qualquer outra altura do passado recente e menos recente. Não porque queiram – certo e sabido que há os que querem ou não se importam – mas porque existe uma estupidificação maciça da sociedade. O tempo é cada vez menos, o dinheiro escasseia. Quem quer ler bons livros, ou tem tempo e dinheiro para investir, ou vê-se obrigado a comprar o que está em promoção nas prateleiras do Modelo. E quando falo em tempo, não é só do tempo que falo, é de cabeça também. Alguém disse-me uma vez “É preferível lerem porcaria (literatura light no caso em particular) do que não lerem nada.” Não, não é. Porque quem vai para a literatura light como primeira opção já dali não sai.
Começa logo na escola com a leitura de histórias mutiladas. Crianças que mal sabem limpar o rabo a analisar morfologicamente os textos. Bons textos na sua versão original são reduzidos a excertos. E a acompanhar esses textos vêm exercícios. Chama-se a isto “leitura orientada”.
Sou o trigésimo sétimo (ou oitavo, não sei bem agora) a dizer que saber analisar um texto é importante, mas não como vi em certos livros. Num livro do 4º ano do Primeiro Ciclo encontrei um poema de Eugénio de Andrade. Introduzir poesia às crianças é nobre, é de saudar, mas há um meio correcto de se fazer as coisas que não foi o utilizado neste caso.
Depois do poema, na página seguinte, vinha... uma ficha de leitura. A ideia subjacente aqui é: não basta ler e sentir a poesia, é preciso esmifrá-la bem esmifrada. As palavras do poeta podem carregar tantos significados, mas o que é passado é a interpretação de meia dúzia de iluminados que decifraram o que o poema quer realmente dizer e impõem essa sua visão.
Primeiro exercício:
Assinala com V para Verdadeiro, F para Falso e T para Talvez as seguintes frases.
Talvez”? Pergunto eu, em vez de “talvez”, que dá uma certa ideia de insegurança, porque não “Pode ser”, “É possível que sim”, “Se calhar”, ou (a minha preferida) “Vai na volta...”
E já agora, Verdadeiro e Falso já está muito visto. Porque não “Com certeza” e “Hmmm... duvido”? Ou “É pois!” e “Népias, não dá!”? Há tanto por onde escolher. Inovem, meus caros.
Segundo exercício:
Dos seguintes desenhos, identifica o que NÃO está relacionado com o Inverno
E tínhamos um boneco de neve, um velho de ar rezingão e um camelo.
Se os camelos soubessem escrever, diria que um deles foi quem elaborou aquele exercício.
Por fim, o terceiro exercício
Descreve em três linhas “o que é para mim o Inverno...”
Ah! Dar liberdade de expressão às crianças! Tão querido! Depois de um exercício que restringe a interpretação de um poema a critérios objectivos e outra que cultiva a imbecilidade, não há nada melhor do que um exercício que promova a veia criativa. Mas só em três linhas. Criatividade sim, mas com moderação. A nível pedagógico isto é bestial, perdão, de besta.
Notem bem, sou a favor das crianças lerem textos e depois analisarem esses textos. Em certos casos, até concordo com as fichas de leitura. Mas! (friso a exclamação) só se se estiverem relacionadas com o poema em si e não com a generalidade do tema que o poema aborda. Há uma diferença.
Por outro lado, sou contra a leitura recreativa que é passada através da escola. Porque não é de leitura recreativa que se trata na maior parte das vezes. Recreativo é sinónimo de lazer e lazer exclui fichas de leitura.
Parece que os professores agora não podem passar trabalho para férias, então sugerem “leitura de Verão”. No meu tempo havia trabalho para férias, não era segredo, e ninguém morria por isso. Hoje em dia está tudo escamoteado. Gozávamos o Verão todo e deixávamos aquilo para a véspera e ninguém morria. No caso da leitura recreativa, como é para entreter, os próprios pais impõem nos filhos a obrigação de passarem parte das férias de volta desses textos.
Mais uma vez digo: a leitura deve ser estimulada, não imposta.
Há dias conversava com alguém sobre isto e essa pessoa deu-me o melhor exemplo possível para este caso:
Pedir às crianças que preencham fichas de leitura acerca de textos que leram nos seus tempos livres, é o mesmo que trancar as portas do cinema e só deixar o pessoal saair depois de cada pessoa preencher uma ficha para ver se perceberam o filme ou não.
A leitura deveria ser estimulada, não imposta. O que se faz é sobrecarregar alunos e professores com cargas horárias violentas e matérias com poucas ou nenhuma utilidade prática. Era assim no meu tempo (em parte), mas agora está pior. É o caso do Inglês no 4º ano. Quando surgiu, fui favor, agora oiço dizer que no 5º ano começam tudo de novo. Não fui confirmar isto mas, a ser verdade, porra! Os putos andam lá a aprender o quê?
É desmotivante. Os alunos que querem (ou melhor, têm de) ser cumpridores e estudiosos não têm tempo para serem crianças. Os professores que escolheram essa profissão por razões nobres não têm como fugir ao que o Ministério da Educação define como “conteúdos programáticos obrigatórios”. Uns não podem sair para lá da caixa, outros não querem, outros não deixam. E a criatividade lá vai desaparecendo.
(Atenção que nem tudo o que o Ministério da Educação faz é mau. Aspectos positivos: a minha professora de Matemática do 8º ano, a minha professora de Geografia do 11º, e mais uma ou outra mula que andavam por lá. Eram visualmente agradáveis e até sabiam ensinar. O problema era nós prestarmos atenção ao que elas diziam. É difícil aprender equações quando a professora tem um decote até ao pescoço. Mas que é estimulante, não há dúvidas.)
Isto não vem de agora, mas agora está pior do que nunca. E parte da culpa é deste Governo de imagem. (O jornal espanhol El Mundo elaborou uma lista dos vinte homens mais elegantes de 2008. E José Sócrates ficou em sexto lugar. Querem melhor exemplo?) Como o são todos em Portugal. É preferível parecer bonito do que funcionar. Só que nem funciona, nem quando visto de perto parece bonito.
É a televisão, poderão dizer. Não deixa de ter a sua quota parte de culpa, mas não é a principal responsável. É o “Big Brother”, é os “Morangos com Açúcar”, é o “Olha quem dança”. É o que for, não importa. Eu olho para esses e outros exemplos como se fossem balas. A cada tiro é uma mini-lobotomia involuntária que foremos. Só que não são eles que disparam. Os Directores dos canais dizem que só que mostram o que o público quer ver. E eu sei que há gente estúpida neste país, mas tanta assim?
Não gosto de usar expressões como “sistema”; parece paranóia. Só que não consigo deixar de ver uma certa organização macabra nesta situação toda.
O Governo promove a estupidificação desde os tempos de escola até à entrada no mercado de trabalho. Começa por ser muito fácil, depois vai ficando difícil sem rumo certo, até que a certo ponto a espiral inverte e os critérios deixam de ser os mesmos. Hoje em dia termos anormalidades como turmas de 1º e 2º ano misturados, ou 2º e 3º ou 1º e 4º, ou os quatro anos numa única sala. Porque no entender da senhora Ministra da Educação, “chumbar uma criança é anti-pedagógico”. Além de dar muito mais trabalho a justificar. Por isso, o nível aumenta e aumenta a um extremo em que poucos alunos conseguem acompanhar e assimilar, mas ninguém chumba. Todos passam, todos sem excepção. E quando chega a hora de ir para a Faculdade, a única coisa que precisam é pagar a matrícula e a inscrição. Podem ter média de sete ou oito, interessa é pagar.
Quem não tem dinheiro e não vai para a faculdade, trabalha e o ritmo é tão intenso, a cabeça é tão bombardeada com o estado do país, com a economia, o desemprego, que quando chegam a casa não querem ver nada. Talvez um filmezinho. Mas uma coisa que não puxe muito pela cabeça. Infelizmente muitos vão para as telenovelas, para os reality-shows, os talk-shows, aquelas coisas que existem para se ver sem olhar, para encher o tempo. E a estupidificação continua.
Incapazes de pensar por nós próprios, assistimos a notícias sobre o aumento da criminalidade. Carjacking, homejacking, tráfico de armas, lenocínio, tráfico de pessoas e bens, TVI. Será assim tão estranho num sistema que protege os direitos dos criminosos em relação às vítimas, haverem assim tantos crimes? Não me parece.
E mesmo que isto seja sensacionalismo da minha parte, mesmo que haja um exagero dos casos aqui apresentados, não creio que isto seja feito por acaso. A intenção é assustar e manter as pessoas assustadas. Pessoas estupidificadas desde crianças, a viverem com medo de serem assaltadas, de serem despedidas; todas com deveres, poucas com direitos reais.
Na manhã em que comecei a escrever este artigo (demorou mais tempo do que esperava) anunciaram na TSF a publicação da lista de credores do Estado. Ouvi isso e pensei logo 'Ninguém vai lá pôr o nome'. Passado este tempo, vejo que não me enganei. Seria como o caixa de óculos no 1º C ir cobrar os dez cêntimos que emprestou ao folião do 4º E para este comprar gomas. Ele até lhe pode pagar, só na brincadeira, mas quando o outro menos esperar...