04/04/10

TERMINUS 74: OS "MURMURINHOS" DO MOMENTO


Perante a polémica recente em torno dos casos de pedofilia que fervilham na praça pública - alguns recentes, outros rebuscados no passado, mas sempre em quantidade generosa - certa figura da Igreja Católica (as minhas desculpas por não conseguir citar a fonte exacta) considerou isto como "o murmurinho do momento".
Quando se começou a falar do Caso Freepor(t), da licenciatura em Engenharia na Universidade Independente, do Caso Face Oculta, etc., qual foi o termo que o Primeiro-Ministro utilizou para se referir a estes casos?
Cabala.
Ora, eu comprei um dicionário de 18 volumes, não para encher a estante, mas para o consultar sempre que necessário. E assim sendo:
cabala (...) 3 (1525) exegese, interpretação ou método interpretativo das escrituras bíblicas (Antigo Testamento), ger. com base em alegorias e outras operações e recursos simbólicos, envolvendo esp. anagramas, transposições de letras, etc., atribuição de valores numéricos às letras do alfabeto hebraico e de significado aos números, e que é característico da cabala (acp. 1) judaica 6 1989) fig. elucubração ou cálculo feito em segredo, esp. negócio ou combinação secreta, entre indivíduos ou grupos que têm um objectivo comum; intriga, conluio, maquinação 6.1 acção combinada, ou outra manobra ou arranjo pelo qual, nos círculos editoriais ou teatrais, se consegue determinar o sucesso ou fracasso imerecido de alguma obra ou de algum artista(...)
Não transcrevi todas as definições existentes do termo, escolhi apenas aquelas que se relacionam com o assunto em questão. E, embora cabala não seja, propriamente, um sinónimo de murmurinho, anda lá perto. Quer isto dizer que, na opinião do tal senhor, quando alguém chama a atenção para um caso de pedofilia cometido por uma figura da Igreja, não está a atentar contra a instituição, e sim contra a sua figura máxima.
"Este é um ataque à minha pessoa!"
Quem foi que disse isso? Antigamente era fácil de dizer, agora já não se percebe.
Houve também quem afirmasse, e depois pedisse desculpa por isso, que a polémica em torno da pedofilia é a mesma coisa que os movimentos anti-semitas que houve em tempos. E eu concordo com isso. Concordo com o pedido de desculpa porque, de facto, não são. Na verdade, não há rigorosamente nada que ligue estas duas situações.
Uma é algo cometido por um nicho de renegados que envergonha a Igreja e os seus representantes; uma mancha na instituição que a Igreja procura limpar, não pela via do esquecimento e do suborno, mas da redenção. A outra é algo a que alguns membros da Igreja se dedicam e até parece mal mas, enfim, quando não há nada para fazer, é o que se tem.
O difícil é saber qual é qual.
Um assunto ao qual irei voltar com mais detalhe.

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