31/05/10

TERMINUS 87: ENSINO EM ACRÓSTICO


Eu não sou do tempo da palmatória – escapei a essa época. E, embora o meu tempo de escola primária tenha coincidido com a era da reguada, essas reguadas foram tão raras que não me causaram mossa. A minha professora dos meus quatro primeiros anos de ensino escolar nunca me chamou de burro, de inútil, estúpido ou badalhoco. Nunca me insultou gratuitamente.
Bastantes vezes chamou-me de “palhacito”; algo inteiramente justificado já que não passava um dia em que não fizesse uma palhaçada qualquer. Na altura ainda não sabia o que queria ser quando fosse grande. Talvez fosse uma forma de dizer que quando eu chegasse à idade adulta teria como ocupação fazer rir os outros. Não havia, nem há, qualquer problema em chamar “palhaço” a uma criança que queira mesmo ser palhaço quando chegar a altura de escolher uma profissão. Quanto a chamar burro, inútil, estúpido e badalhoco, isso já acredito que possa trazer alguns problemas de desenvolvimento cognitivo para a criança.
Uma professora como a minha era um emblema de disciplina. A sua autoridade provinha da sua postura, das suas acções e não das suas reacções. Nós não nos portávamos mal por causa de eventuais castigos, e sim porque não havia razão para tal. Ela sabia dar a volta e pôr-nos a trabalhar. Quando alguém fazia asneira era punido, sem que essa punição fosse algo degradante. Quando alguém não sabia certa parte da matéria, a sua ignorância não servia de motivo de chacota para todos os outros. Ninguém era humilhado por não saber tudo porque ninguém ali sabia tudo.
Muitas vezes portei-me mal, e de vez em quando levei um puxão de orelhas. Uma vez ou outra levei uma reguada. As minhas orelhas continuam boas e com as minhas mãos escrevo este texto e muitos outros antes e depois deste. Que me lembre nunca houve razão para chamar à escola nenhum encarregado de educação à escola porque a professora lhe batia e chamava nomes. Estávamos no fim daquele tempo em que os professores tinham mais autoridade do que os alunos, embora a minha professora não tivesse qualquer razão para temer isso.
A autoridade docente não desapareceu por completo desde então; embora os tempos tenham mudado um pouco. Porventura os métodos que a minha professora usava na época, se aplicados nos dias de hoje poderiam parecer um pouco antiquados. De modo algum quero iniciar aqui uma discussão sobre esse tema. Mesmo nas suas premissas mais básicas seria demasiado complexo para ser discutido em tão pouco espaço.
Recordo da minha mãe dizer que, no seu tempo, os professores tinham toda a autoridade; no meu tempo tinham alguma autoridade, nos dias de hoje não têm autoridade nenhuma. Assim transparece pela comunicação social.
Registamos com frequência notícias de alunos que desrespeitam professores, de pais que batem em professores. Não ouvi ainda notícias de auxiliares da acção educativa (as “continas” no meu tempo) a baterem em professores. Pelo menos não no exercício das suas funções. Talvez alguns dos pais que agrediram professores sejam auxiliares da acção educativa noutra escola.
O caso não tem um culpado óbvio. Infelizmente, aqui a culpa é como um peido dado em sessão solene. Todos olham para todos, mas ninguém admite nada. A culpa é dos pais, é das crianças, dos professores, da sociedade? A todos a sua quota, é o que eu defendo.
Tenho de regressar novamente ao passado. A minha professora castigou-me, mas nunca me humilhou; chamou-me nomes, mas nunca me insultou; puniu-me fisicamente, mas nunca me marcou. As marcas da régua foram sempre passageiras, no dia seguinte já não havia nada. A memória física daquele evento era como a ferroada duma abelha. Sabemos que dói, por isso não tornamos a ir lá – mas não sentimos medo só de pensar nisso.
Eu acredito que os quatro primeiros anos de ensino são os mais cruciais. É através das bases adquiridas nesta fase que o resto do percurso escolar será determinado. Se rebaixadas a menos de nada, se humilhadas e castigadas de forma gratuita, as crianças não terão razão para aprender.
Inevitavelmente, algumas poderão ser burras, inúteis, idiotas, estúpidas e badalhocas quando forem grandes, não por culpa ou decisão sua, apenas porque não tiveram o devido exemplo de quem deviam.
As que não tiverem certo tipo de professoras, poderão aprender a desenvolver uma mente atenta e criativa e serem vozes críticas da sua sociedade. E isto não é apenas uma questão de sorte, é uma questão de assumir responsabilidades e de não esconder a verdade.
Só assim, artigos como este não terão razão para serem escritos.

27/05/10

TERMINUS 86: A PLATAFORMA CONTINENTAL E OS RECIBOS VERDES


Cá está! Andamos nós a falar mal deste Governo e do outro antes (que só por acaso era o mesmo) e do outro antes desse (que não era o mesmo mas, se formos a ver bem, não se nota assim tanto a diferença) e cá está uma informação que diz muito daquilo que o Governo anda a fazer por nós. Qualquer outro Estado preocupar-se-ia em resolver os problemas do país. Este preocupa-se em arranjar mais país.
Mas que levanta algumas dúvidas. Para que querem um terreno maior se não conseguem dar conta das ervas daninhas neste quintalinho? Há também aquela questão, um pouco pertinente, desse prolongamento de terreno estar situado debaixo de água. Notem: eu não estou contra a medida; apenas tento percebê-la. Agradeço o gesto e espero que a proposta seja aceite. Sempre é mais um bocadinho que podemos nadar.
É verdade que um prolongamento no sentido oposto, em direcção a Espanha, traria mais benefícios mas isso seria um erro. Não apenas um erro, seria também uma violação de algumas leis internacionais às quais Portugal aderiu. Deve ter aderido. Provavelmente. (Espero não estar a colocar o meu país numa situação complicada ao dizer isto.) Além disso, não temos necessidade de incorrer nessa medida, uma vez que os recursos naturais a que Portugal terá acesso vão ser imensos. Nuno Lourenço, coordenador do Gabinete de Investigação, Desenvolvimento e Inovação, disse que lá em baixo “existe aquilo a que se chama os 'oásis de vida', em zonas hiper-báricas, onde os seres vivos se adaptaram a condições extremas de vida.”
E é aqui que eu começo a pensar no que de facto se pretende. Se calhar não querem mais país para ficarmos todos mais à larga. (Embora em certos espaços públicos essa medida fosse muito apreciada.) O que eles devem querer é enfiar um bom magote numa dessas zonas hiper-báricas para reduzir o número de portugueses cujos problemas eles têm de fingir que tentam resolver.
Se for essa a sua intenção, proponho que sejam os trabalhadores a recibos verdes. Já que não são um problema aos olhos do Estado não há razão para continuarem a ocupar espaço em território nacional. E atenção que eu incluo-me nesse grupo. Eu sei do que estou a falar. Querem mais país para menos pessoas. Tudo bem. Eu vou para um desses 'oásis da vida'. Tenho quase a certeza de que, assim que desenvolver guelras, as minhas condições de vida vão melhorar substancialmente.

24/05/10

TERMINUS 85: QUEM RI POR ÚLTIMO NEM SEMPRE RI MELHOR


No século XVIII, Lavoisier disse que “Na Natureza, nada se ganha, nada se perde, tudo se transforma.” Com esta frase definiu a lei da conservação da matéria. Quase 300 anos depois, os donos duma revista semanal acharam um novo aproveitamento para essa frase. E continua a ter a ver com a conservação da matéria. Quase.
O já famoso caso do furto dos gravadores tornou-se numa fonte de inspiração para um passatempo lançado pela Revista Sábado. Imitando as duas Comissões no Parlamento a quem o caso foi atribuído, os proprietários da revista decidiram, também eles, gozar com o assunto. Parecia mal, enquanto toda a gente gozava com o assunto, serem eles os únicos a tratá-lo de forma séria.
O furto de dois gravadores pelo deputado socialista Ricardo Rodrigues deu azo a uma providência cautelar colocada pelo próprio Ricardo Rodrigues. O que é um pouco como alguém ir à Polícia queixar-se de que não lhe aceitaram as notas falsas num Banco.
Os motivos invocados pelo deputado de que estava a ser vítima de “violência psicológica insuportável” por parte dos dois jornalistas chegaram para convencer os responsáveis do PS de que ele não fez nada de mal. Francisco Assis agiu como o pai que é chamado à escola por causa do mau comportamento do filho e não crê em nada do que os professores dizem. Para ele, o seu menino é o mais bonito de todos e não há nada que possam dizer que o convença do contrário.
A Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais, a quem o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas entregou o caso, descartou-se do assunto e passou a batata quente para o pessoal da Comissão de Ética. Aparentemente, se for um cidadão comum a apropriar-se de propriedade alheia, trata-se dum caso de polícia. Se for um deputado envolvido em várias moscambilhas, trata-se dum acto irreflectido justificado por uma “violência psicológica insuportável”. Nesse caso, não é roubo, é apenas falta de educação.
A Comissão de Ética, por sua vez, devolveu a pasta para a Comissão de Assuntos Constitucionais. Perante tudo isto, os responsáveis da Revista Sábado tomaram a única atitude possível nestas circunstâncias: lançar um passatempo cujo prémio são cem gravadores Olympus. Afinal, em que é que ficamos?
Senhores da Sábado, que raio de jornalistas são esses que vêem uma cópia mal feita do Paulie dos Sopranos levantar-se, fanar os gravadores, e ficam impávidos? Vocês ficaram chateados ou não com o roubo dos gravadores? É que se ficaram expliquem que raio de estúpido plano de vingança vem a ser este?
Ai gamaram-nos dois gravadores? Então agora, só pra verem como elas são, vamos oferecer cem!”
Porque é que isto me faz pensar em birras? Talvez porque é disso que se trata. Parecem os miúdos a quem tiram um brinquedo e depois não querem brincar com mais nenhum. Esta postura infantil por parte de representantes da nação e da sociedade deixam-me inquieto. Se tivermos de tomá-los como padrão de referência daqui em diante, não sei o que vai ser de nós.

TERMINUS 84: DOIS INCENTIVOS PARA A EDUCAÇÃO E CULTURA NO NOSSO PAÍS


Gosto de estar actualizado acerca dos assuntos que marcam o nosso Portugal. Como tal, sentia vergonha de admitir a minha ignorância em relação a certa matéria. O tópico era matéria de conversa em todo o lado e suscitava as mais variadas reacções. Alguns demonstravam desconfiança, outros acreditavam com convicção no que as imagens exibiam. A notícia chegou aos meus ouvidos, assim que ocorreu, mas só ontem, graças a um amigo que me fez chegar as imagens via email, é que eu pude avaliar a matéria propriamente dita.
Desculpe? Se me refiro ao roubo dos gravadores dos jornalistas da Revista Sábado pelo deputado Ricardo Rodrigues?
Claro que não. Seria completamente despropositado, face a matérias de maior importância para o país, eu perder tempo a falar desse assunto, apenas porque algo como a liberdade de expressão foi violado. Nada disso. A razão deste meu artigo tem apenas a ver com algo que interessa mais ao português comum: a stora Bruna.
Sim senhor! Até eu tinha tido boa nota a Educação Musical com uma professora daquelas! Infelizmente, as duas professoras que tive não eram assim. A primeira queria ensinar sempre a mesma música – aquela que ninguém gostava – e a outra tinha por hábito esconder a letra L sempre que faúava.
A professora decidiu expor-se e não vejo nada de mal nisso. A Playboy não é uma simples revista de gajas. Tem seios e rabos em abundância sim, mas, não é um nu vulgar. É claro que para os homens (e mulheres) que não são esquisitos, serve perfeitamente. Contudo, se formos a ver bem, a nossa Playboy não é uma Playboy qualquer. Aliás, a nossa Playboy é a única no mundo que teve um gajo na capa. Apesar de ser uma figura cujo trabalho eu até aprecio, esperava reacções mais acesas por parte dos portugueses quando, em vez de uma menina de seios jeitosos e rabinho ao léu, apareceu um gajo na capa. Não se percebe.
Voltando à minha professora de Educação Musical, a tal que escondia os Ls, não posso deixar de fazer uma comparação entre Ricardo Rodrigues e Bruna Real. O primeiro escondeu algo, a segunda expôs algo. São formas diferentes de estar na vida. Como não tenho por hábito esperar grandes exemplos, a nível de postura e integridade, por parte da classe política, não vou tecer mais comentários sobre o caso dos gravadores. (A não ser que me peçam por favor.)
Considero a atitude da professora mais responsável. O Governo tenta melhorar as estatísticas do Ensino em Portugal reduzindo o grau de exigência aos alunos. Se mais professoras seguirem o exemplo da professora Bruna, creio que iremos assistir a um verdadeiro despertar de mentes.
Ao que consta, a professora já não é professora, é funcionária no Arquivo Municipal de Mirandela. Pode já não melhorar as notas dos seus alunos mas, para compensar, o número de visitas ao Arquivo Municipal de Mirandela vai aumentar em larga escala.

TERMINUS 83: UMA PEQUENA AJUDA AO PLANETA


Por ser um apreciador de cinema, faço por estar atento aos avanços da tecnologia que vão surgindo para tornar a experiência de ver um filme algo cada vez mais especial. Ainda não era vivo quando inventaram o cinema sonoro ou o cinema a cores, mas já estava cá quando apareceram os formatos de alta definição e, mais recentemente, o cinema 3D.
Antes de Avatar estrear nas salas já a expectativa em relação a este filme era grande. Para outras pessoas, o seu período de incerteza e de espera angustiante iniciou há poucos dias quando foi anunciado que a indústria de cinema para adultos – um nome mais meiguinho para cinema porno – vai também começar a produzir filmes em 3D.
Esta nova invenção foi apresentada na mais recente edição do Festival de Cinema de Cannes pelo produtor Marc Dorcel. Durante dois minutos os espectadores daquele Festival de Cinema, dos mais reputados do mundo da sétima arte, puderam apreciar um pequeno espectáculo de striptease a três dimensões. Dois minutos não parecem muito. Só que, aos dois minutos de striptease, têm de se lhe juntar os outros quinze ou vinte que vêm a seguir.
É urgente que se faça um estudo cuidado sobre os perigos da exposição prolongada ao 3D. Eu lembro-me quando apareceram os primeiros canais de regabofe codificados. A quantidade de pessoas que foram parar ao hospital com um deslocamento de retina foi abismal. Com o número de hospitais no nosso país a diminuir de dia para dia, teme-se que não hajam meios para auxiliar a tanta gente. Vai ser uma pandemia e desta vez não vai haver vacina que a cure.
Algumas pessoas cresceram com a ideia de que certas actividades de lazer podem provocar cegueira. Eu cresci com a ideia que muito dessa actividade faz músculo. Ninguém sabe o que a exposição prolongada à terceira dimensão pode causar. Eu fiz maratonas a ver a Quinta Dimensão, ainda com o Rod Serling, e não me aconteceu nada. Só que a Quinta Dimensão era a duas dimensões, a preto e branco e sem imagem aos saltinhos.
Sabe-se que aqueles óculos que uma pessoa tem de usar para ver um filme a três dimensões, reduzem muito as poucas chances que alguns homens têm de conseguir qualquer coisa com uma mulher. No caso do Avatar, mesmo que o filme fosse a duas dimensões, não me surpreenderia encontrar a sala cheia de pessoas com óculos. No caso dum filme porno, também não me surpreenderia encontrar essas mesmas pessoas na sala. Agora vai ser a vez do 3D e quer me parecer que vai ser pior. Ainda por cima dizem que, num futuro próximo, o espectador poderá escolher o local e a actriz para uma cena ao seu gosto.
Fala-se muito da escassez de recursos e do excesso de população no planeta. Ao nosso planeta já só restam mais meia dúzia de milhões de anos (dois anos e picos para alguns). Se nada melhor surgir entretanto, a pornografia a três dimensões tem o potencial de reduzir a taxa de natalidade mundial. Vai estar tudo ocupado a experimentar o brinquedo e ninguém vai ter tempo para o produto a sério.

TERMINUS 82: COM QUATRO LETRINHAS APENAS SE ESCREVE ADN


Parece que nasceu finalmente a primeira forma de vida artificial. E como toda a forma de vida artificial que se preza, não se sabe ainda se é menino ou menina. O pai, Craig Venter, chama-lhe bactéria, mas diz que é só até a baptizar. Há quinze anos que Craig e a sua equipa andavam a tentar criar a sua própria bactéria. Não queriam ir a um Orfanato de Germes e adoptar uma bactéria ou um micróbio, nem mesmo um bacilo. Queriam a sua bactéria. Quinze anos e quarenta milhões de dólares depois nasceu a menina dos seus olhos. Ou menino.
Craig disse ao mundo, “Esta é a primeira célula sintética jamais fabricada e dizemos que é sintética porque a célula é totalmente derivada de um cromossoma sintético.” Foram muitas as pessoas que não conseguiam disfarçar a emoção causada pelo momento.
Em 2007, Craig provou que se podia transplantar o genoma de bactérias duma espécie para bactérias de outra espécie semelhante e fazer com que a segunda mudasse de espécie, trocando de identidade com a primeira. Em 2010, José Sócrates e Pedro Passos Coelho aprenderam a dançar o tango. Um ano depois conseguiram sintetizar na sua totalidade o genoma de uma bactéria. Para criar um ser vivo bastava fazer um mix. (Vou abreviar um pouco esta parte do processo. Podem estar menores a ler e não quero impressioná-los com descrições de cópula a nível microscópico.) ... e no fim o passarinho vai à flor e quarenta milhões de euros depois nasce uma linda bactéria.
Antes disso era preciso construir moléculas do tamanho do ADN e não havia tecnologia para isso. O ADN em questão tinha muitas pecinhas, muuuuitas!, e eles não conseguiam arranjar nada assim. Felizmente, graças a uma empresa especializada, lá arranjaram os pedacitos que queriam – mais uns quantos no caso de alguns se estragarem - e depois foram brincar. “Foi como ter uma caixa de peças de Lego e ter de as montar.” disse Venter.
Os problemas surgiram quando tentaram introduzir o genoma sintético nas células da bactéria. Quando a bactéria e o genoma foram para o quarto da primeira vez, não aconteceu nada. Era um genoma impotente. Foi uma desilusão para todos aqueles cientistas. Sem acesso a canais codificados, aquilo era o mais próximo de sexo que eles estariam.
A bactéria e o genoma continuaram a tentar até que houve alguém que descobriu que o problema era uma letra do código mal colocada. Quinze anos e quarenta milhões quase a ir para o badagaio por causa duma letrinha. Fico contente por estarmos a lidar com pessoas atentas e responsáveis.
Não se sabe ainda para que servirá esta nova forma de vida. O pai só quer que ela cresça forte e saudável, mas não-nociva para a humanidade. Não me surpreende, porém, que esta revolução na ciência tenha ficado para depois dos chouriços sobre a Selecção. Quando vierem cá extraterrestres, ou algum ser divino, talvez recebam honras de rodapé. Talvez.

SOBRE O ÚLTIMO ARTIGO

O meu último artigo foi publicado por um jornal a sério.
O jornal continua em actividade.

20/05/10

TERMINUS 81: PORTUGAL NUCLEAR


No dia 26 de Abril de 1986, um reactor da central nuclear de Chernobyl explodiu, libertando uma enorme nuvem radioactiva por toda a Europa. Para quem não sabe, isto não é bem a mesma coisa que uma nuvem de cinzas. É pior.
A Europa ficou toda aflita com uma nuvem de cinzas que não deixava os aviões voarem por causa da falta de visibilidade. No caso da nuvem radioactiva, esse problema não se colocava. A visibilidade era total e, em certos casos, as mutações causadas pela radiação até fizeram surgir mais um ou dois olhos em algumas pessoas.
Em Portugal temos um histórico longo de derrapagens orçamentais e acidentes de trabalho. Seja por falta de supervisão, ou por aquilo que eu chamo o princípio de "um-pouco-de-corda-e-fita-cola-e-tá-bom", somos prolíficos nessas matérias. Só para vocês verem, só entrei no Estação de Metro do Terreiro do Paço algumas semanas depois de ela estar em funcionamento. Depois da derrocada que houve durante a fase de construção, quis ter a certeza que era seguro utilizar aquele espaço antes de aventurar lá dentro.
Os dois parágrafos anteriores, aparentemente sem relação, servem para contextualizar o tema deste artigo: a energia nuclear. Melhor dizendo, a instalação de uma central nuclear em Portugal. Trata-se dum tema recorrente, invocado à vez, ora pelo PS, ora pelo PSD. É quase sempre o que está na Oposição. Ou o que está no Governo. É um deles. Um deles quer, o outro não. Basicamente é isto. Agora quero eu, agora queres tu.
Desta vez, a ideia partiu do líder do PSD, José Sócra-, perdão, Pedro Passos Coelho. O Pedrito dos Laranjas disse, num almoço promovido pelo Forum para a Competitividade, que se devia lançar um "debate sério" acerca da opção pela energia nuclear em Portugal, de forma a reduzir "a dívida e a dependência energética nacional".
São vários os pontos de análise destas declarações que convêm, passe a redundância, analisar.
Primeiro que tudo, o timing. Porque é que, praticamente, todos os políticos escolhem almoços ou jantares para anunciar medidas capazes de melhorar o estado do País? Quando não é o próprio que está com os copos, são os convivas. Mesmo que alguém oiça a proposta, ninguém liga. Principalmente se estiver a acontecer um show de strip.
"Precisamos de aumentar a receita pública."
"Topa-me só a prateleira daquela! Aquilo é que não precisa de aumento! Eh eh!"
De seguida vem a expressão "debate sério". Debate sério parece solene, parece eminente, e seria, noutro local, dito por outra pessoa. Num almoço promovido pelo Forum para a Competitividade, "debate sério" soa-me àquilo que se diz após uma longa competição de shots - lá está a competitividade - quando os valores da amizade são expressos por língua entaramelada.
"Vocês são uns porreiros! Vocês TODOS são uns porreiros! Aguiar! Aguiar! Anda cá! TU és um por-"
"Anda lá, Pedro. Vamos."
"Vamos nada! Eu 'tou bem! Eu 'tou bem! Ó Frasquilho! Vai ali e traz-me um frasquilho de pimenta. Eh! Eh! Eh pá! Deslarga-me!"
"Pronto, pronto! Já larguei."
"Agora a sério... É preciso fazermos um debate sério sobre a energia nuclear. CABUM! Mas primeiro tenho de ir mudar a água às azeitonas."
Eu já fui a vários jantares onde fiz várias propostas capazes de melhorar o País. Sabia que eram todas boas e exequíveis só que, no dia seguinte, não me lembrava de nada.
No fim de contas, um jantar ou um almoço são como uma legislatura (ou como uma oposição): come-se e bebe-se à grande e quem paga é quem vem a seguir. Infelizmente, quem vem a seguir é sempre o mesmo.
Redução da dívida e da despesa energética? Pois sim.
Tenho medo da energia nuclear em Portugal. A sério que tenho. Dizem-me que hoje em dia é uma energia limpa, segura. O que aconteceu em tempos não tornará a acontecer tão facilmente. Sim, tudo isso é verdade. Só que é lá fora, onde eles já fazem isso bem. Cá dentro, não é bem assim. Nós temos o talento de remendar furos em camiões cisterna com chapa de alumínio e fita adesiva.
Se todas as pessoas do mundo trabalhassem numa central nuclear, os portugueses seriam o Homer Simpson. E os alemães seriam o Burns. É uma visão que não gostaria nada de ver concretizada.

19/05/10

TERMINUS 80: JESUSES E O IVA






De todos os aspectos, da chamada "identidade nacional", comuns a todos os portugueses, o meu preferido é o sentido de prioridade.
O Benfica ganhou o campeonato e os adeptos benfiquistas tiveram como prioridade a celebração do título. O Papa Bento XVI visitou o nosso país e os funcionários públicos que receberam dispensa tiveram como prioridade aproveitar o dia para ir passear. 
Parece que houve também alguns católicos (alguns deles, por coincidência, também eram funcionários públicos) que assistiram às missas dadas pelo senhor. Desta multidão é preciso descontar ainda aqueles que foram contratados por uma empresa de trabalho temporário para fazer número.
Eu não estive presente em nenhuma destas celebrações. Não acredito em fenómenos de massas (tirando a Milanesa) e a religião parece-me cada vez mais datada. Cada vez mais "uuuuh vem ai o papão!". Agora, a ideia dos fiéis temporários parece-me algo de louvar. Gostava de ter sido informado acerca disso mais cedo. Talvez me tivesse inscrito. Imagino o tipo de entrevista a que os candidatos se tiveram de submeter.
"Boa tarde a todos! Ena que tantos! Obrigado por terem vindo. Antes de começar, vamos fazer aqui uma pequena triagem.
"Quem acha que o verdadeiro Jesus é o Jorge, pode sair. Quem tem sapatos italianos de marca, pode ir. Só o chefe é que os pode usar. Aqueles que vão ficar contentes quando o Presidente da República promulgar o casamento entre pessoas do mesmo sexo daqui a uma semana, façam favor. Falta-me alguém? Parece que não. Muito bem. Já só cá está quem interessa.
"Desculpe, disse alguma coisa? Sim, nós prometemos a salvação eterna a todos. Mas só aos que aceitarmos.
"Continuando, vocês estão aqui para promover a salvação eterna. Sim? Quanto tempo é que durar o contrato? Com o Salvador será pela Eternidade, connosco é até o Papa se ir embora."
Foi durante este período de distracção das massas que o Governo decidiu passar o IVA de 20% para 22%. Depois houve alguém que mudou de canal e reparou no que se estava a passar e eles voltaram atrás. Já não ia aumentar para 22%, ia só aumentar para 21%. Neste momento não sei qual é o valor do IVA. Antigamente tentava adivinhar o preço do barril de petróleo; agora dou por mim a tentar adivinhar o valor do IVA.
De imediato surgiram os habituais protestos. Temendo uma revolta popular, o Governo anunciou que os bens essenciais (a água, o pão e a Coca-Cola(?!)) não iriam aumentar o preço. No mesmo dia, mas a uma hora a que ninguém estava a ver, especificou melhor o anúncio anterior.
"O preço do pão não vai aumentar, mas o seu tamanho vai reduzir um quinto. A água vai continuar ao mesmo preço, mas vai passar a circular apenas entre as 9 e as 12 da parte da manhã e entre as 19 e as 22 da parte da noite. De segunda a sexta. As garrafas de água manterão o seu preço, mas terão os seus tamanhos reduzidos 10 cl. Quanto à Coca-Cola, vai ficar como está. Não queremos impor aos portugueses medidas demasiado austeras."
Fico contente por isso. Moderadamente austero, sim. Demasiado, não. (Parece que austeridade é a nova palavra desculpa do dia. Antigamente era "conjuntura". Aguentou-se bem, mas... um dia chegou a sua hora. Agora é a vez da austeridade. Desejo-lhe boa sorte.) 
Ficaria ainda mais contente se depois do Futebol e de Fátima viesse agora o Fado. Alguém, por favor, peça àquela senhora que trabalha com a Júlio Pinheiro para contactar a Amália, o Alfredo Marceneiro e demais fadistas quinados e convencê-los a fazer um concerto no Pavilhão Atlântico.
Dava jeito à manutenção da austeridade que os três Fs voltassem em força. Não conseguindo um concerto com a Amália, façam com o Carlos do Carmo, com o Camané, com quem quiserem. O Benfica não pode ganhar o campeonato todos os dias? Paciência. Tragam o Papa cá mais vezes. Aluguem-no. Façam o que tiverem de fazer. Se o Papa não puder ou não quiser, falem com o Chefe Silva. Eu acho-os parecidos. É preciso é manter o Povo distraído.
Uma última mensagem, para o senhor Josef Ratzinger:
"Zézito, da próxima vez que visitares um país em que as pessoas não andam exactamente a viver desafogadamente, não uses sapatos italianos dos mais caros do mundo, não uses roupas de seda debruadas a ouro, não uses uma cruz de ouro maior que a do 50 Cent, nem um ceptro de ouro. Não tragas nada disso. Vem casual. Como se fosses sair à noite.
"Acima de tudo, não apareças com toda essa pompa para dizer que os católicos têm de abraçar o voto de pobreza. Para muitos, esse abraço não se faz por crença e sim por inevitabilidade. Qualquer um consegue ser pobre. Ter sapatos Prada e ceptros de ouro é que já não é para todos. O que tu estás a fazer é pirraça e isso é muito feio. Continua assim e vais ver onde vais parar. 'Tás aqui de novo não tarda."

18/05/10

TERMINUS 79: CINEMA PONTO PÊTÊ


São poucos os filmes portugueses que me conseguem levar ao cinema. A falta de originalidade, a previsibilidade, a teatralidade, etc. são alguns dos ponto mais apontados. Os últimos três que vi no cinema fugiram um pouco a este espectro. Embora não fossem perfeitos, não foram enfadonhos. Os diálogos não eram maus, o ritmo não era estanque. Não eram totalmente originais; em certos aspectos, eram algo previsíveis mas, se formos por aí, há muito filme americano com essas mesmas características e não é por isso que os deixamos de ver.
O problema, na minha opinião, é o cunho excessivamente artístico que alguns realizadores tentam dar às suas obras. Não tenho nada contra isso. Antes pelo contrário. Como escritor e guionista, defendo que a primeira pessoa a quem se deve agradar é ao próprio. Contudo, quando a produção do filme parte do bolso dos contribuintes, como acontece na maioria dos casos, creio que a postura deve ser diferente.
Durante anos assistiu-se a um desbaratar de dinheiro a fundo perdido para fazer filmes que eram muito bonitos, muito giros. Lá fora. Nos Festivais Internacionais, em que a coisa funciona muito à base de amizade, fartavam-se de ganhar prémios. Cá havia salas às moscas.
As alterações ao financiamento de cinema em Portugal feitas em 2007 tentaram acabar com esse cenário, introduzindo entidades privadas no grupo de investidores. Como é hábito nosso, o Estado Português foi o primeiro a faltar ao compromisso.
Esta intromissão de investidores privados suscitou reacções de medo e indignação por parte de quem estava habituado a não ter de justificar o dinheiro que recebia. Temia-se que a filmografia portuguesa resvalasse da utopia artística para as histórias de tiros e maminhas. Em vários casos, o temor foi justificado.
Em Portugal há bons profissionais. Há bons guionistas com histórias para contar. Não estamos fechados ao mundo, assim como o mundo não está fechado a nós. Ser-se artístico ou ser-se comercial é uma visão maniqueísta que ainda prevalece. Citando um amigo meu, "O cinema é um negócio em que por vezes se produzem obras de arte." Não podia estar mais certo.