19/05/10

TERMINUS 80: JESUSES E O IVA






De todos os aspectos, da chamada "identidade nacional", comuns a todos os portugueses, o meu preferido é o sentido de prioridade.
O Benfica ganhou o campeonato e os adeptos benfiquistas tiveram como prioridade a celebração do título. O Papa Bento XVI visitou o nosso país e os funcionários públicos que receberam dispensa tiveram como prioridade aproveitar o dia para ir passear. 
Parece que houve também alguns católicos (alguns deles, por coincidência, também eram funcionários públicos) que assistiram às missas dadas pelo senhor. Desta multidão é preciso descontar ainda aqueles que foram contratados por uma empresa de trabalho temporário para fazer número.
Eu não estive presente em nenhuma destas celebrações. Não acredito em fenómenos de massas (tirando a Milanesa) e a religião parece-me cada vez mais datada. Cada vez mais "uuuuh vem ai o papão!". Agora, a ideia dos fiéis temporários parece-me algo de louvar. Gostava de ter sido informado acerca disso mais cedo. Talvez me tivesse inscrito. Imagino o tipo de entrevista a que os candidatos se tiveram de submeter.
"Boa tarde a todos! Ena que tantos! Obrigado por terem vindo. Antes de começar, vamos fazer aqui uma pequena triagem.
"Quem acha que o verdadeiro Jesus é o Jorge, pode sair. Quem tem sapatos italianos de marca, pode ir. Só o chefe é que os pode usar. Aqueles que vão ficar contentes quando o Presidente da República promulgar o casamento entre pessoas do mesmo sexo daqui a uma semana, façam favor. Falta-me alguém? Parece que não. Muito bem. Já só cá está quem interessa.
"Desculpe, disse alguma coisa? Sim, nós prometemos a salvação eterna a todos. Mas só aos que aceitarmos.
"Continuando, vocês estão aqui para promover a salvação eterna. Sim? Quanto tempo é que durar o contrato? Com o Salvador será pela Eternidade, connosco é até o Papa se ir embora."
Foi durante este período de distracção das massas que o Governo decidiu passar o IVA de 20% para 22%. Depois houve alguém que mudou de canal e reparou no que se estava a passar e eles voltaram atrás. Já não ia aumentar para 22%, ia só aumentar para 21%. Neste momento não sei qual é o valor do IVA. Antigamente tentava adivinhar o preço do barril de petróleo; agora dou por mim a tentar adivinhar o valor do IVA.
De imediato surgiram os habituais protestos. Temendo uma revolta popular, o Governo anunciou que os bens essenciais (a água, o pão e a Coca-Cola(?!)) não iriam aumentar o preço. No mesmo dia, mas a uma hora a que ninguém estava a ver, especificou melhor o anúncio anterior.
"O preço do pão não vai aumentar, mas o seu tamanho vai reduzir um quinto. A água vai continuar ao mesmo preço, mas vai passar a circular apenas entre as 9 e as 12 da parte da manhã e entre as 19 e as 22 da parte da noite. De segunda a sexta. As garrafas de água manterão o seu preço, mas terão os seus tamanhos reduzidos 10 cl. Quanto à Coca-Cola, vai ficar como está. Não queremos impor aos portugueses medidas demasiado austeras."
Fico contente por isso. Moderadamente austero, sim. Demasiado, não. (Parece que austeridade é a nova palavra desculpa do dia. Antigamente era "conjuntura". Aguentou-se bem, mas... um dia chegou a sua hora. Agora é a vez da austeridade. Desejo-lhe boa sorte.) 
Ficaria ainda mais contente se depois do Futebol e de Fátima viesse agora o Fado. Alguém, por favor, peça àquela senhora que trabalha com a Júlio Pinheiro para contactar a Amália, o Alfredo Marceneiro e demais fadistas quinados e convencê-los a fazer um concerto no Pavilhão Atlântico.
Dava jeito à manutenção da austeridade que os três Fs voltassem em força. Não conseguindo um concerto com a Amália, façam com o Carlos do Carmo, com o Camané, com quem quiserem. O Benfica não pode ganhar o campeonato todos os dias? Paciência. Tragam o Papa cá mais vezes. Aluguem-no. Façam o que tiverem de fazer. Se o Papa não puder ou não quiser, falem com o Chefe Silva. Eu acho-os parecidos. É preciso é manter o Povo distraído.
Uma última mensagem, para o senhor Josef Ratzinger:
"Zézito, da próxima vez que visitares um país em que as pessoas não andam exactamente a viver desafogadamente, não uses sapatos italianos dos mais caros do mundo, não uses roupas de seda debruadas a ouro, não uses uma cruz de ouro maior que a do 50 Cent, nem um ceptro de ouro. Não tragas nada disso. Vem casual. Como se fosses sair à noite.
"Acima de tudo, não apareças com toda essa pompa para dizer que os católicos têm de abraçar o voto de pobreza. Para muitos, esse abraço não se faz por crença e sim por inevitabilidade. Qualquer um consegue ser pobre. Ter sapatos Prada e ceptros de ouro é que já não é para todos. O que tu estás a fazer é pirraça e isso é muito feio. Continua assim e vais ver onde vais parar. 'Tás aqui de novo não tarda."

Sem comentários: