20/05/10

TERMINUS 81: PORTUGAL NUCLEAR


No dia 26 de Abril de 1986, um reactor da central nuclear de Chernobyl explodiu, libertando uma enorme nuvem radioactiva por toda a Europa. Para quem não sabe, isto não é bem a mesma coisa que uma nuvem de cinzas. É pior.
A Europa ficou toda aflita com uma nuvem de cinzas que não deixava os aviões voarem por causa da falta de visibilidade. No caso da nuvem radioactiva, esse problema não se colocava. A visibilidade era total e, em certos casos, as mutações causadas pela radiação até fizeram surgir mais um ou dois olhos em algumas pessoas.
Em Portugal temos um histórico longo de derrapagens orçamentais e acidentes de trabalho. Seja por falta de supervisão, ou por aquilo que eu chamo o princípio de "um-pouco-de-corda-e-fita-cola-e-tá-bom", somos prolíficos nessas matérias. Só para vocês verem, só entrei no Estação de Metro do Terreiro do Paço algumas semanas depois de ela estar em funcionamento. Depois da derrocada que houve durante a fase de construção, quis ter a certeza que era seguro utilizar aquele espaço antes de aventurar lá dentro.
Os dois parágrafos anteriores, aparentemente sem relação, servem para contextualizar o tema deste artigo: a energia nuclear. Melhor dizendo, a instalação de uma central nuclear em Portugal. Trata-se dum tema recorrente, invocado à vez, ora pelo PS, ora pelo PSD. É quase sempre o que está na Oposição. Ou o que está no Governo. É um deles. Um deles quer, o outro não. Basicamente é isto. Agora quero eu, agora queres tu.
Desta vez, a ideia partiu do líder do PSD, José Sócra-, perdão, Pedro Passos Coelho. O Pedrito dos Laranjas disse, num almoço promovido pelo Forum para a Competitividade, que se devia lançar um "debate sério" acerca da opção pela energia nuclear em Portugal, de forma a reduzir "a dívida e a dependência energética nacional".
São vários os pontos de análise destas declarações que convêm, passe a redundância, analisar.
Primeiro que tudo, o timing. Porque é que, praticamente, todos os políticos escolhem almoços ou jantares para anunciar medidas capazes de melhorar o estado do País? Quando não é o próprio que está com os copos, são os convivas. Mesmo que alguém oiça a proposta, ninguém liga. Principalmente se estiver a acontecer um show de strip.
"Precisamos de aumentar a receita pública."
"Topa-me só a prateleira daquela! Aquilo é que não precisa de aumento! Eh eh!"
De seguida vem a expressão "debate sério". Debate sério parece solene, parece eminente, e seria, noutro local, dito por outra pessoa. Num almoço promovido pelo Forum para a Competitividade, "debate sério" soa-me àquilo que se diz após uma longa competição de shots - lá está a competitividade - quando os valores da amizade são expressos por língua entaramelada.
"Vocês são uns porreiros! Vocês TODOS são uns porreiros! Aguiar! Aguiar! Anda cá! TU és um por-"
"Anda lá, Pedro. Vamos."
"Vamos nada! Eu 'tou bem! Eu 'tou bem! Ó Frasquilho! Vai ali e traz-me um frasquilho de pimenta. Eh! Eh! Eh pá! Deslarga-me!"
"Pronto, pronto! Já larguei."
"Agora a sério... É preciso fazermos um debate sério sobre a energia nuclear. CABUM! Mas primeiro tenho de ir mudar a água às azeitonas."
Eu já fui a vários jantares onde fiz várias propostas capazes de melhorar o País. Sabia que eram todas boas e exequíveis só que, no dia seguinte, não me lembrava de nada.
No fim de contas, um jantar ou um almoço são como uma legislatura (ou como uma oposição): come-se e bebe-se à grande e quem paga é quem vem a seguir. Infelizmente, quem vem a seguir é sempre o mesmo.
Redução da dívida e da despesa energética? Pois sim.
Tenho medo da energia nuclear em Portugal. A sério que tenho. Dizem-me que hoje em dia é uma energia limpa, segura. O que aconteceu em tempos não tornará a acontecer tão facilmente. Sim, tudo isso é verdade. Só que é lá fora, onde eles já fazem isso bem. Cá dentro, não é bem assim. Nós temos o talento de remendar furos em camiões cisterna com chapa de alumínio e fita adesiva.
Se todas as pessoas do mundo trabalhassem numa central nuclear, os portugueses seriam o Homer Simpson. E os alemães seriam o Burns. É uma visão que não gostaria nada de ver concretizada.

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