24/05/10

TERMINUS 82: COM QUATRO LETRINHAS APENAS SE ESCREVE ADN


Parece que nasceu finalmente a primeira forma de vida artificial. E como toda a forma de vida artificial que se preza, não se sabe ainda se é menino ou menina. O pai, Craig Venter, chama-lhe bactéria, mas diz que é só até a baptizar. Há quinze anos que Craig e a sua equipa andavam a tentar criar a sua própria bactéria. Não queriam ir a um Orfanato de Germes e adoptar uma bactéria ou um micróbio, nem mesmo um bacilo. Queriam a sua bactéria. Quinze anos e quarenta milhões de dólares depois nasceu a menina dos seus olhos. Ou menino.
Craig disse ao mundo, “Esta é a primeira célula sintética jamais fabricada e dizemos que é sintética porque a célula é totalmente derivada de um cromossoma sintético.” Foram muitas as pessoas que não conseguiam disfarçar a emoção causada pelo momento.
Em 2007, Craig provou que se podia transplantar o genoma de bactérias duma espécie para bactérias de outra espécie semelhante e fazer com que a segunda mudasse de espécie, trocando de identidade com a primeira. Em 2010, José Sócrates e Pedro Passos Coelho aprenderam a dançar o tango. Um ano depois conseguiram sintetizar na sua totalidade o genoma de uma bactéria. Para criar um ser vivo bastava fazer um mix. (Vou abreviar um pouco esta parte do processo. Podem estar menores a ler e não quero impressioná-los com descrições de cópula a nível microscópico.) ... e no fim o passarinho vai à flor e quarenta milhões de euros depois nasce uma linda bactéria.
Antes disso era preciso construir moléculas do tamanho do ADN e não havia tecnologia para isso. O ADN em questão tinha muitas pecinhas, muuuuitas!, e eles não conseguiam arranjar nada assim. Felizmente, graças a uma empresa especializada, lá arranjaram os pedacitos que queriam – mais uns quantos no caso de alguns se estragarem - e depois foram brincar. “Foi como ter uma caixa de peças de Lego e ter de as montar.” disse Venter.
Os problemas surgiram quando tentaram introduzir o genoma sintético nas células da bactéria. Quando a bactéria e o genoma foram para o quarto da primeira vez, não aconteceu nada. Era um genoma impotente. Foi uma desilusão para todos aqueles cientistas. Sem acesso a canais codificados, aquilo era o mais próximo de sexo que eles estariam.
A bactéria e o genoma continuaram a tentar até que houve alguém que descobriu que o problema era uma letra do código mal colocada. Quinze anos e quarenta milhões quase a ir para o badagaio por causa duma letrinha. Fico contente por estarmos a lidar com pessoas atentas e responsáveis.
Não se sabe ainda para que servirá esta nova forma de vida. O pai só quer que ela cresça forte e saudável, mas não-nociva para a humanidade. Não me surpreende, porém, que esta revolução na ciência tenha ficado para depois dos chouriços sobre a Selecção. Quando vierem cá extraterrestres, ou algum ser divino, talvez recebam honras de rodapé. Talvez.

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