24/05/10

TERMINUS 85: QUEM RI POR ÚLTIMO NEM SEMPRE RI MELHOR


No século XVIII, Lavoisier disse que “Na Natureza, nada se ganha, nada se perde, tudo se transforma.” Com esta frase definiu a lei da conservação da matéria. Quase 300 anos depois, os donos duma revista semanal acharam um novo aproveitamento para essa frase. E continua a ter a ver com a conservação da matéria. Quase.
O já famoso caso do furto dos gravadores tornou-se numa fonte de inspiração para um passatempo lançado pela Revista Sábado. Imitando as duas Comissões no Parlamento a quem o caso foi atribuído, os proprietários da revista decidiram, também eles, gozar com o assunto. Parecia mal, enquanto toda a gente gozava com o assunto, serem eles os únicos a tratá-lo de forma séria.
O furto de dois gravadores pelo deputado socialista Ricardo Rodrigues deu azo a uma providência cautelar colocada pelo próprio Ricardo Rodrigues. O que é um pouco como alguém ir à Polícia queixar-se de que não lhe aceitaram as notas falsas num Banco.
Os motivos invocados pelo deputado de que estava a ser vítima de “violência psicológica insuportável” por parte dos dois jornalistas chegaram para convencer os responsáveis do PS de que ele não fez nada de mal. Francisco Assis agiu como o pai que é chamado à escola por causa do mau comportamento do filho e não crê em nada do que os professores dizem. Para ele, o seu menino é o mais bonito de todos e não há nada que possam dizer que o convença do contrário.
A Comissão Parlamentar de Assuntos Constitucionais, a quem o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas entregou o caso, descartou-se do assunto e passou a batata quente para o pessoal da Comissão de Ética. Aparentemente, se for um cidadão comum a apropriar-se de propriedade alheia, trata-se dum caso de polícia. Se for um deputado envolvido em várias moscambilhas, trata-se dum acto irreflectido justificado por uma “violência psicológica insuportável”. Nesse caso, não é roubo, é apenas falta de educação.
A Comissão de Ética, por sua vez, devolveu a pasta para a Comissão de Assuntos Constitucionais. Perante tudo isto, os responsáveis da Revista Sábado tomaram a única atitude possível nestas circunstâncias: lançar um passatempo cujo prémio são cem gravadores Olympus. Afinal, em que é que ficamos?
Senhores da Sábado, que raio de jornalistas são esses que vêem uma cópia mal feita do Paulie dos Sopranos levantar-se, fanar os gravadores, e ficam impávidos? Vocês ficaram chateados ou não com o roubo dos gravadores? É que se ficaram expliquem que raio de estúpido plano de vingança vem a ser este?
Ai gamaram-nos dois gravadores? Então agora, só pra verem como elas são, vamos oferecer cem!”
Porque é que isto me faz pensar em birras? Talvez porque é disso que se trata. Parecem os miúdos a quem tiram um brinquedo e depois não querem brincar com mais nenhum. Esta postura infantil por parte de representantes da nação e da sociedade deixam-me inquieto. Se tivermos de tomá-los como padrão de referência daqui em diante, não sei o que vai ser de nós.

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