31/05/10

TERMINUS 87: ENSINO EM ACRÓSTICO


Eu não sou do tempo da palmatória – escapei a essa época. E, embora o meu tempo de escola primária tenha coincidido com a era da reguada, essas reguadas foram tão raras que não me causaram mossa. A minha professora dos meus quatro primeiros anos de ensino escolar nunca me chamou de burro, de inútil, estúpido ou badalhoco. Nunca me insultou gratuitamente.
Bastantes vezes chamou-me de “palhacito”; algo inteiramente justificado já que não passava um dia em que não fizesse uma palhaçada qualquer. Na altura ainda não sabia o que queria ser quando fosse grande. Talvez fosse uma forma de dizer que quando eu chegasse à idade adulta teria como ocupação fazer rir os outros. Não havia, nem há, qualquer problema em chamar “palhaço” a uma criança que queira mesmo ser palhaço quando chegar a altura de escolher uma profissão. Quanto a chamar burro, inútil, estúpido e badalhoco, isso já acredito que possa trazer alguns problemas de desenvolvimento cognitivo para a criança.
Uma professora como a minha era um emblema de disciplina. A sua autoridade provinha da sua postura, das suas acções e não das suas reacções. Nós não nos portávamos mal por causa de eventuais castigos, e sim porque não havia razão para tal. Ela sabia dar a volta e pôr-nos a trabalhar. Quando alguém fazia asneira era punido, sem que essa punição fosse algo degradante. Quando alguém não sabia certa parte da matéria, a sua ignorância não servia de motivo de chacota para todos os outros. Ninguém era humilhado por não saber tudo porque ninguém ali sabia tudo.
Muitas vezes portei-me mal, e de vez em quando levei um puxão de orelhas. Uma vez ou outra levei uma reguada. As minhas orelhas continuam boas e com as minhas mãos escrevo este texto e muitos outros antes e depois deste. Que me lembre nunca houve razão para chamar à escola nenhum encarregado de educação à escola porque a professora lhe batia e chamava nomes. Estávamos no fim daquele tempo em que os professores tinham mais autoridade do que os alunos, embora a minha professora não tivesse qualquer razão para temer isso.
A autoridade docente não desapareceu por completo desde então; embora os tempos tenham mudado um pouco. Porventura os métodos que a minha professora usava na época, se aplicados nos dias de hoje poderiam parecer um pouco antiquados. De modo algum quero iniciar aqui uma discussão sobre esse tema. Mesmo nas suas premissas mais básicas seria demasiado complexo para ser discutido em tão pouco espaço.
Recordo da minha mãe dizer que, no seu tempo, os professores tinham toda a autoridade; no meu tempo tinham alguma autoridade, nos dias de hoje não têm autoridade nenhuma. Assim transparece pela comunicação social.
Registamos com frequência notícias de alunos que desrespeitam professores, de pais que batem em professores. Não ouvi ainda notícias de auxiliares da acção educativa (as “continas” no meu tempo) a baterem em professores. Pelo menos não no exercício das suas funções. Talvez alguns dos pais que agrediram professores sejam auxiliares da acção educativa noutra escola.
O caso não tem um culpado óbvio. Infelizmente, aqui a culpa é como um peido dado em sessão solene. Todos olham para todos, mas ninguém admite nada. A culpa é dos pais, é das crianças, dos professores, da sociedade? A todos a sua quota, é o que eu defendo.
Tenho de regressar novamente ao passado. A minha professora castigou-me, mas nunca me humilhou; chamou-me nomes, mas nunca me insultou; puniu-me fisicamente, mas nunca me marcou. As marcas da régua foram sempre passageiras, no dia seguinte já não havia nada. A memória física daquele evento era como a ferroada duma abelha. Sabemos que dói, por isso não tornamos a ir lá – mas não sentimos medo só de pensar nisso.
Eu acredito que os quatro primeiros anos de ensino são os mais cruciais. É através das bases adquiridas nesta fase que o resto do percurso escolar será determinado. Se rebaixadas a menos de nada, se humilhadas e castigadas de forma gratuita, as crianças não terão razão para aprender.
Inevitavelmente, algumas poderão ser burras, inúteis, idiotas, estúpidas e badalhocas quando forem grandes, não por culpa ou decisão sua, apenas porque não tiveram o devido exemplo de quem deviam.
As que não tiverem certo tipo de professoras, poderão aprender a desenvolver uma mente atenta e criativa e serem vozes críticas da sua sociedade. E isto não é apenas uma questão de sorte, é uma questão de assumir responsabilidades e de não esconder a verdade.
Só assim, artigos como este não terão razão para serem escritos.

1 comentário:

anapaula disse...

mto bom
e eu inda sou do tempo das réguadas, uma por cada erro nos ditados. :)