24/06/10

TERMINUS 109: TALVEZ SEJA O FIM DO MUNDO


Começo a acreditar no Fim do Mundo, o Apocalipse como alguns lhe chamam. Não sou uma pessoa crente, longe disso, mas sei ver os sinais e estes são por demais evidentes. Decerto que muitos de vocês estão a par do que me inspirou tanto receio, embora nem todos devam partilhar do mesmo sentimento. É um bocado como um copo à beirinha da mesa. Uns olham para o copo e vêem um simples copo, outros, como eu, encaram-no como um possível catalisador de acidente e afastam-no da beira.

Neste caso, o que me alertou não teve nada a ver com um copo apesar de, confesso, me ter dado vontade de tomar qualquer coisa. Adiante. Tenho neste momento trinta anos e o meu último contacto com a escola oficial foi há mais de dez. Digo isto para que todos nós estejamos em sintonia. Pode ser que parte do que atemorizou seja pura e simples desactualização minha. Duvido.

Seja como for, o que eu li no jornal é inquietante e deixa-me preocupado com o que poderá vir aí. Segundo várias notícias que eu li em diversos jornais (para ter a certeza do que estava a ler) os exames de Matemática deste ano, tanto do 9º como do 12º foram fáceis. Alguns alunos dizem mesmo “facílimo”. Isto é uma clara manifestação de qualquer coisa que eu até temo pronunciar. Houve quem, numa tentativa de escamotear o que se estava a passar, dissesse que tinha sido tudo graças à professora que os preparou bem.

Será que podemos acreditar nestes depoimentos? Como eu disse antes, estou desactualizado do que se passa dentro duma sala de aula hoje em dia, mas tenho ouvido dizer com frequência que os professores passam mais tempo a avaliarem outros professores, a fazerem trabalho administrativo e a levarem com biqueiros em cima do que a tentar ensinar o que for aos alunos. Que lhes ensinem alguma coisa, admito. Que isto tivesse acontecido no exame de Educação Física ou de Informática, ainda vá. Não em Matemática. Houve até um aluno que reprovou, caso raro hoje em dia, e que se inscreveu no exame só para “saber como é que era”.

Pais de todo o País, tende cuidado! Essas criaturas que chegaram a casa todas contentes e sorridentes porque o exame de Matemática lhes correu muito bem podem não ser os vossos filhos. Se o seu filho foi um dos que disse esperar ter 100 por cento nesse exame, confirme se ele ainda tem aquela cicatriz na nuca de quando caiu ao andar de triciclo. Se o seu filho, ou filha, não possuem qualquer sinal cicatriz ou marca que o distingam dum possível sósia ou clone, leve-o a um exorcista. Não encare as minhas palavras com desdém, senão estaremos todos perdidos.

Tal como nos filmes do Kaufman e do Ferrara, as nossas crianças e adolescentes, com o mau aproveitamento escolar que tanto nos caracterizava, tornaram-se autênticos génios no espaço de um ano. De certeza que foram substituídas por arautos das forças do mal. Ou isso ou fizeram uns exames estupidamente fáceis para todos terem boas notas. Até mesmo quem tinha tido só negativas durante o ano. Hum... Confesso que estou indeciso.

23/06/10

TERMINUS 108: UMA AJUDA A QUEM MAIS PRECISA

Caro leitor, se for uma pessoa sensível, peço-lhe que considere bem se deseja continuar a ler este artigo. Faço-lhe esta advertência uma vez que se trata de um tema delicado, um tema que me leva sempre às lágrimas só de pensar nele. Pronto? Cá vai.

Há uns dias atrás, Pedro Duarte Nunes, o Vice-Governador do Banco de Portugal, afirmou que os nossos bancos irão passar por dificuldades a médio prazo. Eu sei que custa a ouvir, mas tem de ser. Diz ele que “não há grandes margens para crescimento interno” e “a introdução de novos serviços será difícil”. Eu também estou comovido. Acabou de me cair uma lágrima só de pensar no calvário que espera os nossos bancos. O que vai ser deles agora?

Infelizmente, é impossível encontrar uma solução milagrosa que resolva o problema todo de uma só vez. Os nosso bancos estão a entrar numa fase negra e entregar-lhes todo o nosso dinheiro ajuda tanto como dar peixe a um homem em vez de ensiná-lo a pescar. (Já passei por essa situação uma vez, embora o homem não se tivesse habituado à faina. Ele queixava-se que era por não ter braços. Para mim, era por ser mandrião.)

É preciso começar com calma. Retirar uma percentagenzinha dos nossos salários e doar o resto ao banco. A todos. Não podemos fazer descriminação entre bancos com três letras, bancos com anúncios de televisão giros e bancos que nos ligam para a casa . Todos precisam da nossa ajuda.

Esse grande senhor que é Victor Constâncio sabe do que eu estou a falar. Grande homem, sempre pronto a dar o melhor de si mesmo.

O senhor que lhe sucedeu é novo no cargo e vai precisar, não só da nossa ajuda, como também da nossa compreensão. É normal que ele cometa erros agora no início do seu mandato. Mais do que o repreender, temos de o apoiar, dizer-lhe que está no caminho certo.

Comecemos pela remodelação em curso do edifício do Banco de Portugal na Avenida do Ouro, em Lisboa. Desconheço o propósito da obra. A mim, que não sou engenheiro, parece-me desnecessária. Pode até ter sido o Victor a querer deixar uma prenda de boas vindas para o seu sucessor. Toda a gente sabe como é chato ocuparmos o escritório doutra pessoa e ter de andar a limpar o que ficou nas gavetas e nos armários. Ter tudo arrumado é uma grande ajuda. Além disso, não nos compete julgar, e sim ajudar.

Porque eles merecem. Tadinhos.

22/06/10

TERMINUS 107: PROVA SUPERADA

Em França, o canal de televisão W9 tornou-se o centro duma grande polémica. Tudo por causa dum reality show, de seu nome 'Dilemme'. Ainda não tive oportunidade de ver analisar o programa com o rigor que lhe é devido, mas do que vi arrisco dizer que é uma espécie de Big Brother um pouco mais promíscuo. Pelo menos, foi essa ideia com que eu fiquei. O meu francês, além de mau, é péssimo e aquilo que eu interpretei como cenas de malandrice podia não o ser de facto.

Pelo que percebi, existem provas que os participantes devem ultrapassar e o prémio final são 300 mil Euros. Não é mau de todo, apesar de haver pessoas capazes de participar no programa, mesmo que o prémio fosse um bilhete de autocarro usado, desde que passasse na televisão.

A polémica veio precisamente por causa de uma das provas, em que foi pedido a uma das participantes que se comportasse como um animal de estimação. E foi aí que a França – como é que hei de dizer? – estalou-lhe o verniz. Ophélie Kelly foi a protagonista do momento ao aceitar comer duma tigela de cão, ladrar e tomar banho de coleira ao pescoço. Os responsáveis pelos conteúdos dos programas de televisão em França dizem que “Um ser humano foi diminuído ao nível de um animal, recebendo um tratamento humilhante e degradante”. Eu discordo. Vejamos porquê.

Se a tigela estiver bem lavada, comer a partir duma tigela de cão não é assim tão diferente de comer duma tigela para humanos. A gama de variedades de comida de cão disponível no mercado é imensa. Além do mais, se faz bem aos cães, não há de fazer assim tão mal aos humanos.

A seguir, vem o ladrar. Foi assim tão degradante para a imagem desta mulher imitar um cão? Acho que não. O volume de dignidade que esta mulher tinha foi-se a partir do momento em que pensou em participar neste programa.

Por fim, tomar banho com uma coleira ao pescoço. Há duas alturas da nossa vida em que nos dão banho. Quando somos pequenos e quando estamos inválidos. Ter alguém que nos dê banho é um luxo. Admito que possa parecer constrangedor ao início, mas depois uma pessoa habitua-se. Além disso, aquela coleira até parecia ser bastante confortável.

O meu medo não é este programa ser adaptado para a televisão portuguesa. Isso de certeza que vai acontecer, mais dia menos dia. O meu medo tem a ver com outras figuras da nossa sociedade adoptarem esta ideias das provas para nós recebermos o que é devido. Estou a pensar em alguém que vai ao Centro de Emprego pedir o Subsídio de Desemprego e tem de andar de boxers e com manjerico na cabeça a fazer de arara.

Tem-se falado muito no congelamento de salários, do fim do décimo terceiro mês, redução de prémios e subsídios, etc. Agora, imaginem como será uma pessoa ter de fazer provas destas todos os meses?

Júlio, lamento imenso, mas este mês só lhe vou pagar metade do ordenado.”

Ó chefe, mas porquê?”

Porque a sua interpretação de dança sevilhana em camisa de forças ao som do “Eye of the Tiger” foi muito fraquinha. Vá mas é para casa treinar.”

21/06/10

TERMINUS 106: SE FOSSE EU, FAZIA ASSIM

Nos dias que correm, quando alguém tem a sorte de arranjar trabalho faz tudo o que for preciso para manter o seu cargo e, eventualmente, atingir um posto mais elevado. É nesta fase que se mostra trabalho, nomeadamente através de reparos. A ideia é convencer as pessoas que mandam que o tipo que está no cargo mais elevado, não tem a pinta que tem este novo empregado.

Eu penso nisto quando penso em Pedro Passos Coelho. O actual líder dos Laranjas não é apenas líder da Oposição, é candidato a um posto. É alguém que está na fase de dizer “Se fosse eu, fazia assim.” É verdade que tem apresentado boas propostas, só que isso até o Sócrates fazia. E antes do Sócrates, o Durão. Propostas boas fazem sempre quando não estão lá. Depois vem a metamorfose.

A mais recente proposta de Pedro Passos Coelho foi apresentada durante um almoço-convívio feito pela Comissão Concelhia do PSD de Leiria. Entre brindes e fanecas, o líder dos laranjas propôs que o próximo Orçamento de Estado seja feito com base zero para obrigar "toda a gente a explicar o que quer fazer com o dinheiro que propõe vir a receber". Diz ele que estamos numa crise muito má, com pouco dinheiro e que é preciso os de cima darem o exemplo. (Eles dão o exemplo, só que não é um bom exemplo.)

Analisemos a proposta.

Primeiro ponto, pedir a ministros, secretários-gerais, gestores, etc., que justifiquem o o dinheiro que querem gastar antes de o terem, apesar de parecer muito bonito a um leigo é um forte sinal de desconhecimento político. O Orçamento de Estado é como um prato com a nossa comida preferida. Enchemos o máximo que der, mesmo sabendo que há muito que vai ficar lá. É claro esses restos não vão fora. Há muito “amigo” que os aproveita. (Ainda bem. Não há nada que eu vilipendie mais senão o desperdício. Tirando as ervilhas com ovos. Aquilo é acompanhamento com quê?)

Depois, temos o timing. É já a segunda vez que eu escrevo um artigo sobre uma medida proposta pelo Pedro Passos Coelho durante um almoço. Sei de pessoas que não bebem entre refeições, mas é a primeira vez que oiço falar de alguém que não fala a não ser em refeições.

Dir-me-ão que ele já apareceu a discursar sem ser durante uma refeição. Que provas têm de que ele não tinha nada na boca? Imaginem que ele tinha tomado um daqueles mini-iogurtes que ajudam ao trânsito intestinal e tinha deixado ficar um restinho e andava a fazer chap-chap com a língua enquanto falava. Ou que tinha acabado de almoçar e não tinha tido oportunidade de escovar bem os dentes e tinha um pedaço de bacalhau entre o molar e o incisivo (a ortodoncia não é a minha especialidade, como podem ver). Tecnicamente, isto são mini-refeições.

Felizmente para ele, este pequeno deslize não será o seu fim. O povo ficará do seu lado, mas quem não é povo ficará de tocaia. Espera-se que o seu adversário directo não tarde muito a quinar. Até lá, Pedro Passos Coelho tem ainda muita proposta a fazer. Principalmente durante almoços.

20/06/10

TERMINUS 105: OS FERIADOS E A PRODUTIVIDADE

Duas deputadas do PS apresentaram uma proposta junto do seu partido para a eliminação de quatro feriados do calendário nacional, dois religiosos e dois civis. Ainda não é certo quais serão os feriados a eliminar, já que a proposta defende que o importante não são os dias, mas a efeméride. É certo que, no ano do Centenário da República, os republicanos não queiram mexidas no 5 de Outubro. Mas há quem pense de forma diferente. Sobre a mobilidade do 5 de Outubro, D. Duarte era capaz de sugerir que essa data fosse eliminada. Já o deputado Ricardo Rodrigues, se inquirido acerca de mexidas no 25 de Abril, Dia da Liberdade, o mais certo seria levar qualquer coisa ao bolso, dada a pertinência da pergunta.

É verdade que nós temos muitos feriados e isso prejudica a nossa economia. O problema, todavia, não tem a ver com o número de feriados, ou com o número de pontes, e sim com o que trabalhamos em dias normais. Nós somos calões. Não todos, reconheço.

Exemplo. Vamos a uma Repartição das Finanças e há uma pessoa para receber os papéis, outra para carimbar, outra para agrafar e outra para receber o dinheiro da recepção, carimbagem e agrafo. Não defendo a redução do número de funcionários públicos, mas é um facto que quando o senhor do carimbo falta, aquilo engripa tudo.

Não é difícil reduzir o número de feriados, mas é difícil as pessoas aceitarem isso. Eu tento ser uma pessoa moderada, mas agora vou optar pelo radicalismo.





RELIGIOSOS

A obediência a feriados religiosos – religiosos católicos, melhor dizendo – é um erro. Como país constitucionalmente laico que somos, a obediência a qualquer tipo de feriado religioso é uma violação da Constituição. Para impedir que pessoas como eu se pudessem valer deste argumento, foram celebradas duas Concordatas entre Portugal e o Vaticano. Uma em 1940, por Salazar, e a outra em 2004, por Durão Barroso. Sem grandes diferenças, devo dizer.

Insisto. Devem-se celebrar eventos que aconteceram mesmo e não eventos que se acredita terem acontecido. Há uma diferença entre aquilo que se sabe e aquilo em que se acredita.




CIVIS

Faz-me alguma confusão, num regime republicano e democrático, celebrarem-se feriados proclamados no tempo da Monarquia e do Estado Novo. Sendo certo que se referem a eventos que aconteceram, não deixa de ser verdade que a sua relevância pode estar a ser sobrevalorizada nos dias de hoje.

O 1 de Dezembro, por exemplo. Além de ser um feriado monárquico, estaremos nós assim tão independentes? Não sou anti-europeísta, mas pensem nos esforços que temos de fazer por causa dos senhores de Bruxelas.

O mesmo vale para o Dia da Proclamação da República. O 5 de Outubro assinala o início da 1ª República, assim como o 25 de Abril assinala o início da 3ª e actual República. Comemorar duas vezes a mesma coisa é uma redundância.




No fundo, toda a gente gosta do seu feriado. As únicas queixas que se ouvem, de católicos e ateus, é quando o feriado calha a um fim de semana e não se pode aproveitar a folga.

19/06/10

TERMINUS 104: ACIMA DE TUDO, O RIGOR

 O pessoal de Bruxelas diz que o nosso plano de austeridade é bom, mas não chega. Com toda a razão. Eu acho um escândalo ainda termos salários tão altos e impostos tão baixos e tão mal aproveitados. Assim nunca mais chegamos lá.
Como assim? Troquei-me no quê?
Ah! É verdade. Peço desculpa pela imprecisão. Vou rectificar.
O pessoal de Bruxelas diz que o nosso plano de austeridade é bom, mas não chega. Mais uma vez, os senhores que falam uma língua diferente da nossa e que enchem o bandulho à nossa conta, dizem que ainda não estamos magrinhos o suficiente. Segundo consta, ainda estamos 2,5 mil milhões de euros gordos.
Portugal tem “Uma dívida elevada e em rápido crescimento e um considerável défice da balança corrente.” diz Bruxelas. Quem é que disse que não sabemos ser bons e competitivos? Nós saber, sabemos, mas é só no que não interessa.
Quanto às indicações de Bruxelas, eu acredito que conseguimos atingi-las facilmente. Ou melhor, o Governo consegue. Isto é, acaba por não conseguir mas, consegue convencer o pessoal de Bruxelas que sim.
Por que razão eu digo isto? Eis por quê. Passámos de 72,8% de negativas a Matemática no 9º ano em 2007 para 44,9% em 2008 e 36% no ano passado. Tudo isto graças a orientações programáticas e políticas de avaliação de docentes e discentes que produziram resultados inquestionáveis que a todos orgulham.
Percebem o que eu quero dizer? Que eu saiba, ainda não houve ninguém em Bruxelas que tenha dito “Isto das notas boas em Portugal é tudo uma fantochada. Vamos abrir um inquérito para ver se isto é mesmo assim ou se eles nos estão a enfiar o barrete.” Nunca ouvi nada remotamente parecido com uma suspeita quanto a esta matéria. E para mim, quem acredita nisto, acredita em qualquer coisa.
O pessoal de Bruxelas quer que Portugal feche este ano com um défice de 7,3% e que o reduza, em 2011, para 4,6%. Isso, para nós, é coisa de miúdos. Nós podemos ser maus a Matemática, mas somos bons com os números. Embora o nosso saldo possa estar negativo, nós conseguimos convencer qualquer fiador de que temos condições de cobrir qualquer empréstimo.
E essa é a nossa grande safa. Senão isto já nem seria apertar o cinto. O cinto já foi vendido há muito tempo. Hoje em dia o que nós temos é um cordel feito a partir de atacadores velhos. Mas enfim. Isto sou só eu a falar mal sem razão. Apenas porque só vejo maus exemplos de quem governa e de que se opõe, não quer dizer que seja tudo mau. Se for, paciência.
(José M. Fernandes, eurodeputado do PSD, defendeu, esta semana, em Estrasburgo, o arroz da cabidela. Numa altura em que se atravessa uma forte crise financeira, é bom saber que algumas pessoas continuam a ter os grandes interesses do país em mente. Para quem diz que o partido dos laranjas anda só a tapar buracos ao Governo, este exemplo, infelizmente, não serve para sustentar essas afirmações. É apenas inusitada parvoíce.)

18/06/10

TERMINUS 103: ESTRANHAS LIGAÇÕES


A acreditar no que diz o jornal mais lido nos cafés portugueses, as supostas intenções do Governo adquirir uma estação televisiva para assim controlar o teor da informação capaz de prejudicar o Governo abrangiam outros meios de comunicação, incluindo esse tal jornal.

Para determinar se o Governo, na pessoa do seu representante máximo, sabia ou não deste negócio, foi formada uma Comissão. Esta Comissão iria discutir se o bacalhau é peixe ou não, mesmo quando toda a gente sabe que o bacalhau é apanhado no mar, logo é peixe. Havia o testemunho dum pescador que podia ajudar muito, mas houve um senhor, o presidente, que disse que não queria ouvir aquilo porque o outro senhor dizia palavras feias.
O representante do partido do Governo foi um senhor de risca branca no cabelo. O mesmo senhor que há umas semanas atrás agiu directamente sobre dois gravadores pertencentes a jornalistas duma revista com nome do dia da semana que vem entre sexta-feira e Domingo. Revista que é do mesmo dono do tal jornal que é muito lido nos cafés.
Diz o senhor da mecha branca:
“O Governo não interveio, nem directamente nem indirectamente na operação da [operadora telefónica portuguesa cujo nome é composto por duas consoantes com as quais escrevemos a palavra “pato”] conducente à compra da [segunda estação de televisão privada portuguesa].
O senhor que não queria ouvir o testemunho do pescador é também da mesma zona que o senhor da risca branca. Valha-nos isso. Por momentos temi que pudesse ocorrer algum desacordo. É melhor assim quando estão todos em sintonia.
Os senhores que se sentaram à volta duma mesa durante um ano, para discutir se o senhor primeiro-ministro sabia se o bacalhau é ou não peixe, apresentaram agora os resultados. No fim, até o senhor presidente disse que tinha gostado muito daquele convívio. É claro que houve alguns descontentamentos por parte de certas pessoas, mas isso é normal em Democracia.
“O senhor Primeiro-Ministro sabia ou não que o bacalhau é peixe?”
“Oficialmente não tinha qualquer conhecimento acerca dessa matéria.”
O mesmo argumento usou João Serrano – deputado do PS e presidente da Comissão de Ética encarregue de avaliar o levantamento da imunidade parlamentar ao vice-presidente da bancada socialista, Ricardo Rodrigues – ao dizer que aguardava a posição oficial do deputado, uma semana depois de este ter dito publicamente que estava disponível para prescindir da imunidade parlamentar. João Serrano não quer saber disso. “Não vou terminar o relatório sem o contributo do deputado.”
Eh pá! Eu com tanto cuidado a escrever isto só com subterfúgios, para ninguém conseguir provar que estava a falar deste ou daquele, e agora fui usar nomes. 'Tou lixado. A não ser que diga que esta não é a minha posição oficial. Com sorte, talvez pegue.

16/06/10

TERMINUS 102: TRIVIALIDADES DESCONEXAS



Sou leitor ocasional da revista NS – preferências aparte, preferia a Grande Reportagem – e, talvez por esse motivo, continuo sem perceber qual é a pancada da pessoa (ou pessoas) que elabora a secção de Passatempo que vem em todas as edições. (Por “pancada” entenda-se “qualquer distúrbio do foro psicológico cientificamente verificável e devidamente classificado na DSM-IV”. Ainda não tenho o V.)
Alguns leitores, como eu, já se terão questionado acerca deste assunto. Talvez não tanto quanto eu, o que é bom (já chega eu), contudo, seja ao de leve ou de forma mais persistente, a dúvida surge sempre. Disso tenho certeza. O que é que vai na cabeça daquela gente?
Para quem não sabe do que eu estou a falar, pode sempre levantar-se e ir a uma papelaria ou quiosque ver se ainda há um DN ou JN de Sábado disponível. Se essa opção não for viável – por já ser tarde, por não ser Sábado ou por estar sem roupa – eu explico.
O que temos é uma secção de Passatempo (um só chega muito bem, obrigado) que oferece aos leitores da revista a hipótese de ganharem prémios. Os prémios costumam ser livros, o que é de elogiar num país tão pouco dado à leitura. (Não a ter livros ou a comprá-los. Nós compramos muito, mas lemos pouco.) Até aqui nada de estranho. O problema está no enunciado.
Vou exemplificar com um problema matemático primeiro (só para ocupar algum espaço, assim como esta nota) e depois dar-vos-ei um exemplo (semi)real (para não ter chatices com os senhores da Controlinveste). Cá vai.
O Joãozinho foi às compras à mercearia do senhor Anacleto. Levava cinco euros. Comprou fruta e legumes no total de três euros e noventa e dois cêntimos.
Qual é o valor da percentagem do PIB referente às grandes obras públicas?
Tem tudo a ver, não é? Agora, o exemplo (semi)real.
Camões foi um dos maiores poetas portugueses de sempre. A NS tem para oferecer o livro «Quando eu fazia de porquinha», do comentador Carlos Castro, aos quatro primeiros leitores que responderem correctamente a cinco perguntas relacionadas com o poeta lusitano.
1 - Qual era a alcunha de Camões entre os amigos?
2 – Camões era vesgo de que olho?
3 – Se não tivesse ido para poeta, que outra profissão teria Camões escolhido?
4 – Os Lusíada teriam à uma sequela à altura nos dias de hoje?
5 – Quão feia era Dinamene para Camões preferir salvar um maço de folhas em vez de uma gaja?
Estou certo de que há uma razão lógica que justifica esta forma de elaborar o enunciado dos passatempos. Provavelmente é apenas por ignorância minha que não percebo o que é. Se me for permitido adivinhar, eu diria que as pessoas que actualmente elaboram os enunciados destes passatempos eram as mesmas que elaboravam os enunciados dos exames de Matemática quando as notas eram baixas.
Falo por experiência própria. Quando eu fazia exames, escrevia que nem um doido mas, quando os recebia, aquilo vinha cheio de notas da prof. “o aluno não entendeu a questão”, “não era essa a pergunta”, etc. (As minha professoras de Matemática hoje devem estar na política.) Não é que eu fosse mau aluno, o enunciado é que era difícil de perceber. Talvez por isso as notas fossem más. Agora que essas pessoas (supostamente) trabalham na NS, os resultados dos exames estão cada vez melhores. Qual notas inflacionadas, qual quê? Só é preciso ler com atenção para ganhar um livro. É quase tão fácil quanto passar de ano nos dias de hoje. Quase, mas não tanto.

14/06/10

TERMINUS 101: AS CENAS CORTADAS DA TELENOVELA CASO PT/TVI


Sempre que uma grande série termina, eu fico logo à espera que saia o DVD. Essencialmente, porque sou um coleccionador. Adoro, além de poder rever os episódios, ver os extras que lá vêm. Esta semana acabou a mais espectacular telenovela portuguesa dos últimos tempos e, como é habitual na ficção de grande qualidade, há ainda muito material para ser desbravado.
O Caso PT/TVI cativou milhões de telespectadores com o seu enredo e os seus personagens. Agora é chegada a hora de nos deliciarmos com algumas das cenas cortadas. A produtora já assegurou que este material estará presente em ambos formatos. Por enquanto, aqui fica um pequeno resumo do que nos espera.

Alerta spoilers:
CENA CORTADA 1 – O SÓCRATES “NÃO SABE”
«A 28 de Maio, Paulo Penedos diz a Américo [Thomati] que está muito curioso com o que vai dar esta merda da TVI. Américo diz que também está curioso. Penedos diz que Zeinal já arranjou maneira de, não dizendo que não ao Sócrates, fazer a operação em termos que ele nunca aparece.»

CENA CORTADA 2 – UM DIA LINDO / O ANÚNCIO
«Penedos diz que tem um dia lindo. Começa às 08h45 com Zeinal Bava. Interlocutor pergunta se é sobre o assunto da TVI. Diz que na posse de informação privilegiada tem-se rido. Penedos diz que ela [Moura Gudes] vai ser anunciado já que vai sair.»

CENA CORTADA 3 – O AMIGO LUÍS
«A 17 de Junho, Penedos dá conhecimento a um tal Luís que vai haver uma alteração significativa na comunicação social. Dentro de dias, a TVI vai deixar de ser controlada pelo Moniz e pela Manuela.»

CENA CORTADA 4 – O BORREGO
«A 18 de Junho, João Carlos Silva, do Taguspark, diz que Moniz já não se candidata. “O cabrão borregou.”diz.»

Como podem ver, estamos perante um rol de extras realmente espectaculares. Apesar de lamentar que estas cenas não tenham sido utilizadas durante a telenovela, fico contente que tenhamos oportunidade de as apreciar. Só espero que, caso a spin-off avance (ainda não é certo que vá avançar), possamos ver mais de Rui Pedro Soares e Armando Vara.
Também não me desagradaria nada se os argumentistas, desta vez, pusessem o Sócrates a responder presencialmente aos deputados. Sinto que perdemos uma das melhores, se não a melhor, cenas de toda a telenovela Caso PT/TVI. Cena essa que, infelizmente, conforme divulgou a produtora, não sairá nem no DVD, nem no BlueRay. É pena.

13/06/10

TERMINUS 100: O FIM DA TELENOVELA


Ora, finalmente!, cá temos o final da telenovela que tanto nos tem entusiasmado durante os últimos meses. O Governo interveio ou não no negócio da compra da TVI pela PT? Rui Pedro Soares era amigo ou só conhecido? Se Henrique Granadeiro era a pílula do dia seguinte, quem era o contraceptivo original?
Estas e muitas outras perguntas prenderam o país à televisão durante meses a fio. A minha televisão estava sempre sintonizada no Canal Parlamento para não perder pitada. Desde a Comissão de Inquérito ao Caso BPN, com aquelas magníficas interpretações de Oliveira e Costa e Dias Loureiro, que temia ser impossível repetir-se algo tão espectacular. Estava enganado. Eu e muitos outros.
As evasões de Dias Loureiro, o seu recurso à falta de memória e à ambiguidade foram marcas de um grande intérprete, embora parecessem um pouco amadoras, quando comparadas com as declarações de Rui Pedro Soares. Para um estreante esteve muito bem. É, sem dúvida, um talento a ter em conta.
A condução dos trabalhos foi bem desempenhada. Os interrogadores jogaram bem com a técnica do “polícia bom / polícia mau”, ou seja, Mota Amaral e João Semedo (ou Pacheco Pereira). O enredo começou um tanto ou quanto tremido. (Confesso que não me atraiu logo de início.) O que tornou esta telenovela um must-see, foi quando Armando Vara entrou em cena.
Desde há muitos anos que aprecio bastante o trabalho de Armando Vara. Penso que é um dos nossos melhores actores. Sempre seguro nas suas declarações; dá gosto vê-lo trabalhar.
Voltando ao enredo, houve alguns momentos monótonos e previsíveis. Por exemplo, aqueles episódios sobre que perguntas colocar ao Primeiro-Ministro. Algo que se despachava bem numa cena de cinco minutos, foi esticado até vários episódios. O resultado, todavia, foi uma surpresa. José Sócrates decidiu não comparecer na Comissão de Inquérito (o que foi pena, já que teria sido, certamente, mais uma interpretação soberba) e enviar as suas respostas por escrito. Perdeu-se uma grande cena, mas essa escolha por parte dos autores, ajudou a que a história avançasse mais depressa.
Duas outras surpresas vieram dos personagens Zeinal Bava e Mota Amaral. Sobre o primeiro, penso que não ficou bem a Comissão de Inquérito ter de se reunir de propósito a um Domingo para questionar o CEO da PT sobre o negócio. Perdoa-se a liberdade criativa mas, se fosse a sério, isto nunca aconteceria. Quanto a Mota Amaral, foi com grande júbilo que assisti ao seu volte-face final. Não esperava que fosse o responsável máximo da Comissão de Inquérito a dificultar a resolução do caso. Isto é o que distingue as grandes histórias das demais: nunca antecipamos o que aí vem.
Tal como os Perdidos, foram muitas as perguntas que ficaram por responder; ao contrário dos Perdidos, creio que, em breve, assistiremos a uma possível sequela. Oiço rumores de uma spin-off com Pacheco Pereira e Passos Coelho. Só espero que faça justiça ao original.

TERMINUS 99: CÁ EM CASA 'TÁ TUDO BEM


Não há português que não goste de ser entrevistado; especialmente se for para a imprensa estrangeira. Nós temos uma relação estranha com os media. Adoramos aparecer e ser convidados a falar sobre coisas.
Alguns encaram com humildade a oportunidade que lhes é dada para falarem de si e do seu país a pessoas que, não raras vezes, ficam surpreendidos quando descobrem que somos um país. Outros, porém, agem com uma certa presunção.
Para esta espécie não há problemas em Portugal. Não há arrufos, não há contendas. Alguns mentem, outros limitam-se a não dizer a verdade. O problema, todavia, não está no que dizem ou que não dizem, mas quando conseguem uma segunda oportunidade para reforçar essas afirmações. Houve alguém que foi entrevistado para um jornal estrangeiro de grande importância e proferiu certas afirmações um pouco maldosas que nos deixaram mal vistos lá fora. Ontem, essa mesma pessoa foi convidada a dar uma segunda entrevista. Falo do nosso Ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, e da sua entrevista ao jornal Financial Times.
O Fernando, na outra entrevista, disse que (em léxico popular) nós éramos “mansos”. Perante os cenários de revolta popular que aconteciam na Grécia, perguntavam-lhe se não temia que situações assim pudessem ocorrer em Portugal. A resposta, apesar de rude, foi honesta. Ninguém gosta que lhe chamem manso.
Esta não deve ter sido a primeira entrevista que o Fernando deu ao Financial Times. Mas deve ter sido sido aquela em que ele saiu de lá todo lampeiro e os colegas do Governo vieram todos apertar-lhe a mão, e o Sócrates até lhe deu umas chapadinhas nas bochechas, como que dizendo,
Estivestes muito bem.”
No dia em que se comemorou o dia de Portugal, o Fernando deu mais uma entrevista ao Financial Times. Não para denegrir a auto-estima dos portugueses, mas para aumentar a nossa soberba perante a crise financeira que afecta o mundo inteiro. Excepto nós, claro. Para quem vive cá, as coisas não estão fáceis. Não há dinheiro para nada. Tudo tem de ser racionado. Não se pode contratar. Para quem dá entrevistas ao Financial Times, ainda “não estamos numa situação em que necessitemos de usar” o fundo de solidariedade europeu. É isso mesmo! Pedir ajuda é para os outros totós que não sabem o que estão a fazer!
Portugal é como aquelas pessoas que usam roupa de marca e têm um grande carrão, mas o saldo da conta bancária está negativo e vão comer à Sopa dos Pobres. Tentamos passar sempre a imagem de que está tudo bem. Foi isto que o Fernando fez nas duas entrevistas que deu, é isto que faz qualquer político português sempre que discursa para a imprensa estrangeira.
A ideia deve ser convencer os estrangeiros de que aqui é que se está bem. Depois, eles vêm para cá e ajudam a pôr isto bem; ou fazem nos seus países aquilo que fazemos no nosso. Acredito que, se a Europa e o resto do mundo nivelar com os nossos padrões de empenho e eficácia, ficaremos muito melhor, comparativamente falando.

TERMINUS 98: ADORO RETÓRICA POLÍTICA


Sempre que se aproxima uma data solene, daquelas que o Presidente da República e demais representantes da Nação dirigem-se ao país com uma mensagem adequada às circunstâncias que afectam a actualidade do momento, eu fico com pele de galinha. É tal a ansiedade que eu sinto de cada vez que dias assim se avizinham que quase pareço a minha prima quando comprava a revista Bravo e descobria que lá dentro vinha um poster dos Take That.
O 10 de Junho é das datas mais importantes para mim, não tanto pelo que assinala – numa altura em que aumentamos impostos e alteramos leis do trabalho, porque senhores na Europa dizem que é assim que tem de ser, não faz grande sentido comemorar a nossa independência – mas, acima de tudo, pelo que se diz. Tal como eu, há muita gente que fica na expectativa de ouvir estes discursos. Muitos querem apenas ouvir o seu nome dito por um alto dignitário da Nação. Não importa em que contexto. Seja assim,
Neste dia tão importante para Portugal e para os portugueses, não podia deixar de dar uma palavra de apreço a esse grande português que é Marcelino Carvalhal. Por todos os esforços que tem feito para contribuir para o bom nome de Portugal no mundo, sem dúvida que merece um grande aplauso.”
ou assim,
Sabem que mais? Se não fosse por esse bandalho do Marcelino Carvalhal, estávamos todos bem melhor! Só nos sabe é deixar mal vistos aqui e lá fora, o gajo!”
Falem bem ou falem mal, mas falem; há muita gente assim.
A mim não me interessa ouvir o meu nome dito pelo Presidente da República, ou por qualquer outro político. Se se referirem a mim no bom sentido, eu agradeço o gesto, só que não fico à espera de isso acontecer. O que eu gosto mesmo é de ouvir a retórica e compará-la com discursos anteriores. Seja com discursos do próprio, seja com discursos de antecessores.
São regulares o apelo ao esforço social, ao exemplo que os governantes têm de dar àqueles que são governados, aos sacrifícios que todos têm de fazer em prol da Nação, etc. Mesmo sabendo que aquilo que vou ouvir vai ser mais do mesmo, eu fico sempre na ânsia de ouvi-los.
Eu gosto de ouvir discursos políticos. Gosto do desafio aliciante que é ouvir um discurso desses e poder dizer para comigo,
Eh pá! Este senhor, apesar de ter a sua quota de culpa naquilo que está a dizer, até é capaz de ter alguma razão! Deixa-me lá fazer como ele diz e começar a tomar só uma refeição por dia para ajudar o meu país.”
Ainda não caiu na esparrela. Mas há-de vir o dia.
Durante muitos anos não tinha nada que pudesse comparar a esta minha ansiedade pré-discurso. Até que surgiram as vuvuzelas. Os último segundos que precedem o início dum discurso político são como aqueles instantes antes de ouvirmos o som duma vuvuzela pela primeira vez. Esperamos ouvir algo interessante, agradável, algo que nos toque na alma mas, tudo o que ouvimos é um ruído irritante.

TERMINUS 97: UMA HISTÓRIA MAL ENJORCADA


Quando era mais novo li quase todos os livros escritos pela actual Ministra da Educação, Isabel Alçada, e pela sua parceira, Ana Maria Magalhães. Actualmente, sinto-me como se estivesse a ler o início duma nova saga, esta escrita a solo, cujo título ainda não foi revelado. Embora tenha tido um início promissor, os últimos capítulos demonstram alguma inconsistência sobre o que a autora pretende.

O ENCERRAMENTO DE ESCOLAS
A ideia é fechar escolas com menos de vinte alunos, com mau aproveitamento, e escolas com menos de dez alunos, independentemente do aproveitamento. O que se pretende é combater a exclusão social, juntando várias escolas numa só. Recordo-me da bela ideia que foi fazerem turmas com alunos de vários anos do 1º Ciclo e estou certo de que esta será igualmente espectacular.
Esta é a Ministra boazinha, aquela que não gosta de ver pessoas sozinhas e quer juntá-las para fazerem novos amigos.
Deixo uma sugestão à sra. Ministra. Se o objectivo é, de facto, a inclusão, proponha que faça as Escolas-Tintim. Os alunos entram aos 7 e se, até aos 77, não aprenderem a tabuada, saem e vão para as Novas Oportunidades.

O SALTO DE ANO
Neste capítulo propõe-se que os alunos com mais de 15 anos, ao chumbarem no 8º, façam um exame e saltem logo para o 10º. O 8º, segundo o consenso geral, é o ano mais difícil. Com esta medida vai passar a ser o mais fácil. Quem é aprovado, passa para o 9º, quem reprova, passa para o 10º.
Esta é a Ministra Dra. Jeckyl e Miss Heyde, no sentido em que temos dois comportamentos distintos. A parte boazinha que diz,
Coitadinhos. Chumbaram, foi? Vá, façam lá este examezinho que eu deixo-vos saltar um ano.”
e a parte gozona que diz,
Eh! Eh! Olhem-me só práqueles totós a estudarem! Querem fazer a escola toda, os burros!”

A VIAGEM A TIMOR
Os alunos da Escola Portuguesa de Dili queixaram-se à Ministra da Educação por terem que fazer exames nacionais à noite, cansados, sem luz natural, sem transporte para casa e com maior dificuldade para se concentrarem. Porque razão tal sucede?
Por duas razões.
Primeiro porque a Escola de Dili está integrada no sistema de ensino português, o que obriga os alunos em Timor a fazerem os exames ao mesmo tempo que os alunos em Portugal. Mesmo que em Portugal sejam três da tarde e, em Dili, onze da noite.
Segundo, porque, segundo a Ministra,
Vocês estão numa idade cheia de energia, que devem canalizar para estes objectivos. Por isso pensem na melhor forma de naquele momento estarem no vosso máximo.”
Esta é a Ministra assim-assim. Enaltece as capacidades dos jovens, embora, por dentro, haja um risinho maroto. No fundo é um apelo à capacidade de desenrrascanço do tuga.

O que dizer de tudo isto? Em primeiro lugar, a personagem não está bem definida. Age e reage sem razão sustentável. O plot também não é claro. Qual é o seu objectivo? Quem são os inimigos e quem são os aliados? Se definir estes parâmetros, eu acredito que a história começará a entrar nos eixos.
Aguardo novos capítulos.

TERMINUS 96: A ARRECADAÇÃO DA EUROPA


Portugal continua sem aprovar o seu Plano Estratégico Antiterrorista!
Não o surpreendi? Já calculava. Ah! Nem sabe do que eu estou a falar? Eu explico.
Segundo notícias lidas esta semana, em 2005, o Conselho Europeu aprovou a Estratégia Antiterrorista Europeia. Todos os países participantes definiram os seus protocolos sobre como enfrentar este perigo. Todos, excepto o nosso. E porquê? Vamos ver.
Em 2001 começou a era Alcaeda. O 11 de Setembro não foi a sua estreia nos atentados mas foi, sem dúvida, o mais mediático. A esse seguiram-se o ataque na estação de comboios de Atocha, em Madrid, e o atentado no metro de Londres. Ambos em datas aleatórias mas que, por virtudes da numerologia, tinham sempre algo a ver com o 11 de Setembro.
Se somarmos os algarismos todos, menos o 2 o 0, da data do atentado de Atocha, ficamos com o número 9 que foi o mês em que aconteceu o 11 de Setembro. Se juntarmos depois o 2 ficamos com o 11 que foi o dia.”
A partir daí, sempre que a Alcaeda perpetrava um atentado terrorista em território europeu muito português ficava a pensar, “Da próxima somos nós.” Quando o senhor José, então Durão, participou na Cimeira dos Açores e declarou o apoio de Portugal à intervenção americana no Iraque, ficaram todos em pânico porque iríamos ficar na mira dos terroristas.
Portugal continuou tranquilo, o que não escusou algumas pessoas de manifestarem as suas preocupações. Almeida Santos, por exemplo, lançou o seguinte aviso, acerca da construção do aeroporto na margem sul.
"Um aeroporto na margem sul tem um defeito: precisa de pontes. Suponham que uma ponte é dinamitada? Quem quiser criar um grande problema em Portugal, em termos de aviação internacional, desliga o norte do sul do país"
Outras vozes lançaram outros avisos, quase todos a roçarem o ridículo no sentido em que, se formos a ver bem, ainda há muita gente no mundo que pensa que Portugal foi atacado no dia em que Espanha foi atacada. Se pessoas com acesso à Internet e alta tecnologia julga que Portugal é uma província de Espanha, não há razão para duvidar que pessoas que vivem em cavernas, e que lançam ameaças ao mundo através de cassetes áudio BASF Ferro, acreditem no mesmo.
Por mais que a gente tente, a Alcaeda está-se nas tintas para a gente. Porque razão Portugal ainda não definiu a sua estratégia antiterrorista? Porque ninguém nos leva a sério. Eu sei o que está a pensar, caro leitor. “Então e a ETA? A ETA fica aqui mesmo ao lado e eles sabem que nós somos um país independente e podem-nos atacar. Até já encontraram uma base nas Caldas da Rainha.”
Como é que eu explico isto? Pois bem. Eu moro na minha casa, onde tenho os meus objectos pessoais todos. Nos tempos livres gosto de brincar com explosivos. Para isso não fazer bum e eu não ficar sem casa, arranjo um sítio para guardar isso. De preferência, longe da minha casa. Percebeu? O que encontraram nas Caldas da Rainha não foi uma base da ETA. Foi uma arrecadação.

TERMINUS 95: UMA QUESTÃO DE TAMANHO


Há um certo mito urbano que defende que os homens possuidores de grandes carrões usam isso para disfarçar as suas parcas dimensões em termos de genitália. Eu não tenho carro, não tenho carta de condução sequer, por isso sou a pessoa indicada para contestar a veracidade deste mito. Com isto não pretendo dizer que sou a única capaz de fazer isto, porém, sou a única disponível no momento para fazê-lo de forma incontestável. (O que, evidentemente, não significa que não possa ser contestado por alguém com uma teoria melhor fundamentada do que aquela que de seguida vos apresentarei. Apenas peço que não o façam. Se for para elogiar, tudo bem. Se não, contenham-se.)
A minha teoria de que este mito é falso verifica-se a partir do momento em que a sua autenticidade é comprovável. Parece contraditório. Não é. Conforme eu tentarei explicar.
Um homem que sofra de défice estrutural na sua anatomia não tem interesse em divulgar esse infortúnio ao mundo. Sendo o carrão um emblema de algo a menos, manda a lógica que nenhum homem escolherá um carrão de livre vontade. Por outras palavras, se as pessoas mais abastadas tivessem de usar um chapéu verde e as menos abastadas um chapéu encarnado, é certo que todos os homens usariam um chapéu verde.
É preciso também não esquecer o outro lado da questão, isto é, o inverso da teoria. Se todo o homem com um carrão está a tentar compensar algo, isso significa que, quanto mais pequeno for o carro, melhor servido o homem estará. Ora, isto também não se verifica. Se se verificasse, então todos os homens teriam carritos.
A desmistificação do mito não acaba aqui. É preciso considerar outras questões estruturais da pessoa, além das genitais, nomeadamente a altura.
Há diferenças óbvias entre gigantes e minorcas no que concerne a escolha de um veículo. (Talvez devesse ter escolhido um termo menos depreciativo do que gigante, mas não me lembrei de nenhum.) O gigante terá preferência por um carrão, dada a sua altura. É difícil para um gigante conduzir um carro pequeno, uma vez que tem de levar os joelhos encostados aos ombros.
O minorca, por outro lado, prefere um carrito. Apenas e só porque, se tiver um carrão, o mais certo é não chegar aos pedais. Uma vez passeei de carrão com um minorca e, apesar da experiência ter sido engraçada (toda a gente na rua pensava que o carro estava a andar sozinho), é fácil causar acidentes assim. Para os minorcas, carrões só com próteses.
Ora, a altura da pessoa não define o seu tamanho genital. Existem gigantes com genitálias menores do que a de alguns minorcas; e o contrário também sucede. Logo, a escolha do carro não tem a ver com compensar e sim ajustar. Gigante ou minorca, não interessa. A escolha entre carrinhos e carrões não tem nada a ver com genitália, apenas com saldo. Quem tem dinheiro para um carrão, compra um carrão; quem não tem, compra um carrito. Seja com os joelhos nos ombros ou a provocar sustos nos transeuntes.