16/06/10

TERMINUS 102: TRIVIALIDADES DESCONEXAS



Sou leitor ocasional da revista NS – preferências aparte, preferia a Grande Reportagem – e, talvez por esse motivo, continuo sem perceber qual é a pancada da pessoa (ou pessoas) que elabora a secção de Passatempo que vem em todas as edições. (Por “pancada” entenda-se “qualquer distúrbio do foro psicológico cientificamente verificável e devidamente classificado na DSM-IV”. Ainda não tenho o V.)
Alguns leitores, como eu, já se terão questionado acerca deste assunto. Talvez não tanto quanto eu, o que é bom (já chega eu), contudo, seja ao de leve ou de forma mais persistente, a dúvida surge sempre. Disso tenho certeza. O que é que vai na cabeça daquela gente?
Para quem não sabe do que eu estou a falar, pode sempre levantar-se e ir a uma papelaria ou quiosque ver se ainda há um DN ou JN de Sábado disponível. Se essa opção não for viável – por já ser tarde, por não ser Sábado ou por estar sem roupa – eu explico.
O que temos é uma secção de Passatempo (um só chega muito bem, obrigado) que oferece aos leitores da revista a hipótese de ganharem prémios. Os prémios costumam ser livros, o que é de elogiar num país tão pouco dado à leitura. (Não a ter livros ou a comprá-los. Nós compramos muito, mas lemos pouco.) Até aqui nada de estranho. O problema está no enunciado.
Vou exemplificar com um problema matemático primeiro (só para ocupar algum espaço, assim como esta nota) e depois dar-vos-ei um exemplo (semi)real (para não ter chatices com os senhores da Controlinveste). Cá vai.
O Joãozinho foi às compras à mercearia do senhor Anacleto. Levava cinco euros. Comprou fruta e legumes no total de três euros e noventa e dois cêntimos.
Qual é o valor da percentagem do PIB referente às grandes obras públicas?
Tem tudo a ver, não é? Agora, o exemplo (semi)real.
Camões foi um dos maiores poetas portugueses de sempre. A NS tem para oferecer o livro «Quando eu fazia de porquinha», do comentador Carlos Castro, aos quatro primeiros leitores que responderem correctamente a cinco perguntas relacionadas com o poeta lusitano.
1 - Qual era a alcunha de Camões entre os amigos?
2 – Camões era vesgo de que olho?
3 – Se não tivesse ido para poeta, que outra profissão teria Camões escolhido?
4 – Os Lusíada teriam à uma sequela à altura nos dias de hoje?
5 – Quão feia era Dinamene para Camões preferir salvar um maço de folhas em vez de uma gaja?
Estou certo de que há uma razão lógica que justifica esta forma de elaborar o enunciado dos passatempos. Provavelmente é apenas por ignorância minha que não percebo o que é. Se me for permitido adivinhar, eu diria que as pessoas que actualmente elaboram os enunciados destes passatempos eram as mesmas que elaboravam os enunciados dos exames de Matemática quando as notas eram baixas.
Falo por experiência própria. Quando eu fazia exames, escrevia que nem um doido mas, quando os recebia, aquilo vinha cheio de notas da prof. “o aluno não entendeu a questão”, “não era essa a pergunta”, etc. (As minha professoras de Matemática hoje devem estar na política.) Não é que eu fosse mau aluno, o enunciado é que era difícil de perceber. Talvez por isso as notas fossem más. Agora que essas pessoas (supostamente) trabalham na NS, os resultados dos exames estão cada vez melhores. Qual notas inflacionadas, qual quê? Só é preciso ler com atenção para ganhar um livro. É quase tão fácil quanto passar de ano nos dias de hoje. Quase, mas não tanto.

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