21/06/10

TERMINUS 106: SE FOSSE EU, FAZIA ASSIM

Nos dias que correm, quando alguém tem a sorte de arranjar trabalho faz tudo o que for preciso para manter o seu cargo e, eventualmente, atingir um posto mais elevado. É nesta fase que se mostra trabalho, nomeadamente através de reparos. A ideia é convencer as pessoas que mandam que o tipo que está no cargo mais elevado, não tem a pinta que tem este novo empregado.

Eu penso nisto quando penso em Pedro Passos Coelho. O actual líder dos Laranjas não é apenas líder da Oposição, é candidato a um posto. É alguém que está na fase de dizer “Se fosse eu, fazia assim.” É verdade que tem apresentado boas propostas, só que isso até o Sócrates fazia. E antes do Sócrates, o Durão. Propostas boas fazem sempre quando não estão lá. Depois vem a metamorfose.

A mais recente proposta de Pedro Passos Coelho foi apresentada durante um almoço-convívio feito pela Comissão Concelhia do PSD de Leiria. Entre brindes e fanecas, o líder dos laranjas propôs que o próximo Orçamento de Estado seja feito com base zero para obrigar "toda a gente a explicar o que quer fazer com o dinheiro que propõe vir a receber". Diz ele que estamos numa crise muito má, com pouco dinheiro e que é preciso os de cima darem o exemplo. (Eles dão o exemplo, só que não é um bom exemplo.)

Analisemos a proposta.

Primeiro ponto, pedir a ministros, secretários-gerais, gestores, etc., que justifiquem o o dinheiro que querem gastar antes de o terem, apesar de parecer muito bonito a um leigo é um forte sinal de desconhecimento político. O Orçamento de Estado é como um prato com a nossa comida preferida. Enchemos o máximo que der, mesmo sabendo que há muito que vai ficar lá. É claro esses restos não vão fora. Há muito “amigo” que os aproveita. (Ainda bem. Não há nada que eu vilipendie mais senão o desperdício. Tirando as ervilhas com ovos. Aquilo é acompanhamento com quê?)

Depois, temos o timing. É já a segunda vez que eu escrevo um artigo sobre uma medida proposta pelo Pedro Passos Coelho durante um almoço. Sei de pessoas que não bebem entre refeições, mas é a primeira vez que oiço falar de alguém que não fala a não ser em refeições.

Dir-me-ão que ele já apareceu a discursar sem ser durante uma refeição. Que provas têm de que ele não tinha nada na boca? Imaginem que ele tinha tomado um daqueles mini-iogurtes que ajudam ao trânsito intestinal e tinha deixado ficar um restinho e andava a fazer chap-chap com a língua enquanto falava. Ou que tinha acabado de almoçar e não tinha tido oportunidade de escovar bem os dentes e tinha um pedaço de bacalhau entre o molar e o incisivo (a ortodoncia não é a minha especialidade, como podem ver). Tecnicamente, isto são mini-refeições.

Felizmente para ele, este pequeno deslize não será o seu fim. O povo ficará do seu lado, mas quem não é povo ficará de tocaia. Espera-se que o seu adversário directo não tarde muito a quinar. Até lá, Pedro Passos Coelho tem ainda muita proposta a fazer. Principalmente durante almoços.

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