22/06/10

TERMINUS 107: PROVA SUPERADA

Em França, o canal de televisão W9 tornou-se o centro duma grande polémica. Tudo por causa dum reality show, de seu nome 'Dilemme'. Ainda não tive oportunidade de ver analisar o programa com o rigor que lhe é devido, mas do que vi arrisco dizer que é uma espécie de Big Brother um pouco mais promíscuo. Pelo menos, foi essa ideia com que eu fiquei. O meu francês, além de mau, é péssimo e aquilo que eu interpretei como cenas de malandrice podia não o ser de facto.

Pelo que percebi, existem provas que os participantes devem ultrapassar e o prémio final são 300 mil Euros. Não é mau de todo, apesar de haver pessoas capazes de participar no programa, mesmo que o prémio fosse um bilhete de autocarro usado, desde que passasse na televisão.

A polémica veio precisamente por causa de uma das provas, em que foi pedido a uma das participantes que se comportasse como um animal de estimação. E foi aí que a França – como é que hei de dizer? – estalou-lhe o verniz. Ophélie Kelly foi a protagonista do momento ao aceitar comer duma tigela de cão, ladrar e tomar banho de coleira ao pescoço. Os responsáveis pelos conteúdos dos programas de televisão em França dizem que “Um ser humano foi diminuído ao nível de um animal, recebendo um tratamento humilhante e degradante”. Eu discordo. Vejamos porquê.

Se a tigela estiver bem lavada, comer a partir duma tigela de cão não é assim tão diferente de comer duma tigela para humanos. A gama de variedades de comida de cão disponível no mercado é imensa. Além do mais, se faz bem aos cães, não há de fazer assim tão mal aos humanos.

A seguir, vem o ladrar. Foi assim tão degradante para a imagem desta mulher imitar um cão? Acho que não. O volume de dignidade que esta mulher tinha foi-se a partir do momento em que pensou em participar neste programa.

Por fim, tomar banho com uma coleira ao pescoço. Há duas alturas da nossa vida em que nos dão banho. Quando somos pequenos e quando estamos inválidos. Ter alguém que nos dê banho é um luxo. Admito que possa parecer constrangedor ao início, mas depois uma pessoa habitua-se. Além disso, aquela coleira até parecia ser bastante confortável.

O meu medo não é este programa ser adaptado para a televisão portuguesa. Isso de certeza que vai acontecer, mais dia menos dia. O meu medo tem a ver com outras figuras da nossa sociedade adoptarem esta ideias das provas para nós recebermos o que é devido. Estou a pensar em alguém que vai ao Centro de Emprego pedir o Subsídio de Desemprego e tem de andar de boxers e com manjerico na cabeça a fazer de arara.

Tem-se falado muito no congelamento de salários, do fim do décimo terceiro mês, redução de prémios e subsídios, etc. Agora, imaginem como será uma pessoa ter de fazer provas destas todos os meses?

Júlio, lamento imenso, mas este mês só lhe vou pagar metade do ordenado.”

Ó chefe, mas porquê?”

Porque a sua interpretação de dança sevilhana em camisa de forças ao som do “Eye of the Tiger” foi muito fraquinha. Vá mas é para casa treinar.”

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