02/06/10

TERMINUS 88: AUSTERIDADE PARA QUE TE QUERO

Perante a actual conjuntura dos mercados internacionais e a presente crise financeira que a todos afecta, é chegado o momento de todos unirmos esforços para fazer face a estas circunstâncias.

Podia ter escrito isto há um ano atrás, ou há dez anos; ou daqui a quinze. Enquadrar-se-ia sempre. O mercado nunca está bom. A crise vai e vem numa semana. "O mundo mudou em três semanas." Não foi o que o Primeiro disse? Não, não foi "três semanas", foi "quinze dias", não, foi "uma semana". Nota: o mundo muito numa hora, desde que não se seja um peixe num aquário.
Adiante. As medidas de austeridade vão fazer-se notar no IVA e no IRS. Tudo isto já a partir de... Interessa assim tanto? O IVA aumenta um por cento, o café passa para sessenta cêntimos. Não é preciso grandes contas. Quando passámos do escudo para o euro, o que era cinquenta escudos, passou para cinquenta cêntimos. Vá lá que o euro só vale o dobro do escudo. Na altura éramos maus a matemática. Agora já não. A nossa média a matemática agora é de dez. Se não se lembrarem de voltar a dar notas a sério, podemos viver felizes na ignorância.
As restantes medidas notar-se-ão no fim do décimo terceiro mês, no cancelamento do alargamento do subsídio de desemprego por mais seis meses e o não-reforço da linha de crédito de apoio para criação de emprego por parte dos desempregados. Um dado curioso: estas medidas, exceptuando o décimo terceiro mês, vão poupar aos cofres do Estado 151 milhões de Euros. Os jogadores da Selecção ganham oitocentos euros por dia. Dinheiro esse que vem da Federação Portuguesa de Futebol; que, por sua vez, recebe-o do Estado. Não todo, apenas a maior parte. Só estou a pensar alto.
Nem a Assembleia da República escapa a isto. Os deputados deixam de transportar bagagem e passam a viajar COM a bagagem; em vez de receberem um prémio chorudo sempre que não se baldarem um mês seguido, recebem um email com um powerpoint fofinho que tem de ser reenviado a todos os deputados senão perdem o mandato. É peta minha, claro. Mas Jaime Gama anunciou que o Orçamento para 2010 da instituição a que preside baixou bastante comparativamente a 2009. O que não é nada mau.
Para garantir que não aconteçam muitas derrapagens, apelou à coerência dos políticos e... Agora perdi-me. Ele quer que os políticos – essa classe habituada a gastar à lá gardére (curso de francês técnico na UNI) – poupem e diz-lhes para serem coerentes? Sem desprimor para a classe, é o mesmo que dizerem a um ladrão para não tornar a roubar e, logo de seguida, piscarem-lhe o olho. O que Jaime Gama fez foi uma piscadela de olho verbal.
Tenho medo de que estas medidas possam resultar. Toda a minha vida profissional foi passada em tempos de crise e conjuntura complexa; não creio que nos habituássemos se entrássemos agora na fase da fartazana. Creio que se o país entrasse em inegável desenvolvimento económico e financeiro (aquele que se verifica no dia a dia) seria o fim da nossa sociedade. Onde é que iríamos parar? Talvez a um outro universo onde está tudo bem e, de repente, tudo muda. Em três semanas. Não! Quinze dias. Perdão, uma semana.

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