13/06/10

TERMINUS 98: ADORO RETÓRICA POLÍTICA


Sempre que se aproxima uma data solene, daquelas que o Presidente da República e demais representantes da Nação dirigem-se ao país com uma mensagem adequada às circunstâncias que afectam a actualidade do momento, eu fico com pele de galinha. É tal a ansiedade que eu sinto de cada vez que dias assim se avizinham que quase pareço a minha prima quando comprava a revista Bravo e descobria que lá dentro vinha um poster dos Take That.
O 10 de Junho é das datas mais importantes para mim, não tanto pelo que assinala – numa altura em que aumentamos impostos e alteramos leis do trabalho, porque senhores na Europa dizem que é assim que tem de ser, não faz grande sentido comemorar a nossa independência – mas, acima de tudo, pelo que se diz. Tal como eu, há muita gente que fica na expectativa de ouvir estes discursos. Muitos querem apenas ouvir o seu nome dito por um alto dignitário da Nação. Não importa em que contexto. Seja assim,
Neste dia tão importante para Portugal e para os portugueses, não podia deixar de dar uma palavra de apreço a esse grande português que é Marcelino Carvalhal. Por todos os esforços que tem feito para contribuir para o bom nome de Portugal no mundo, sem dúvida que merece um grande aplauso.”
ou assim,
Sabem que mais? Se não fosse por esse bandalho do Marcelino Carvalhal, estávamos todos bem melhor! Só nos sabe é deixar mal vistos aqui e lá fora, o gajo!”
Falem bem ou falem mal, mas falem; há muita gente assim.
A mim não me interessa ouvir o meu nome dito pelo Presidente da República, ou por qualquer outro político. Se se referirem a mim no bom sentido, eu agradeço o gesto, só que não fico à espera de isso acontecer. O que eu gosto mesmo é de ouvir a retórica e compará-la com discursos anteriores. Seja com discursos do próprio, seja com discursos de antecessores.
São regulares o apelo ao esforço social, ao exemplo que os governantes têm de dar àqueles que são governados, aos sacrifícios que todos têm de fazer em prol da Nação, etc. Mesmo sabendo que aquilo que vou ouvir vai ser mais do mesmo, eu fico sempre na ânsia de ouvi-los.
Eu gosto de ouvir discursos políticos. Gosto do desafio aliciante que é ouvir um discurso desses e poder dizer para comigo,
Eh pá! Este senhor, apesar de ter a sua quota de culpa naquilo que está a dizer, até é capaz de ter alguma razão! Deixa-me lá fazer como ele diz e começar a tomar só uma refeição por dia para ajudar o meu país.”
Ainda não caiu na esparrela. Mas há-de vir o dia.
Durante muitos anos não tinha nada que pudesse comparar a esta minha ansiedade pré-discurso. Até que surgiram as vuvuzelas. Os último segundos que precedem o início dum discurso político são como aqueles instantes antes de ouvirmos o som duma vuvuzela pela primeira vez. Esperamos ouvir algo interessante, agradável, algo que nos toque na alma mas, tudo o que ouvimos é um ruído irritante.

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