13/06/10

TERMINUS 99: CÁ EM CASA 'TÁ TUDO BEM


Não há português que não goste de ser entrevistado; especialmente se for para a imprensa estrangeira. Nós temos uma relação estranha com os media. Adoramos aparecer e ser convidados a falar sobre coisas.
Alguns encaram com humildade a oportunidade que lhes é dada para falarem de si e do seu país a pessoas que, não raras vezes, ficam surpreendidos quando descobrem que somos um país. Outros, porém, agem com uma certa presunção.
Para esta espécie não há problemas em Portugal. Não há arrufos, não há contendas. Alguns mentem, outros limitam-se a não dizer a verdade. O problema, todavia, não está no que dizem ou que não dizem, mas quando conseguem uma segunda oportunidade para reforçar essas afirmações. Houve alguém que foi entrevistado para um jornal estrangeiro de grande importância e proferiu certas afirmações um pouco maldosas que nos deixaram mal vistos lá fora. Ontem, essa mesma pessoa foi convidada a dar uma segunda entrevista. Falo do nosso Ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, e da sua entrevista ao jornal Financial Times.
O Fernando, na outra entrevista, disse que (em léxico popular) nós éramos “mansos”. Perante os cenários de revolta popular que aconteciam na Grécia, perguntavam-lhe se não temia que situações assim pudessem ocorrer em Portugal. A resposta, apesar de rude, foi honesta. Ninguém gosta que lhe chamem manso.
Esta não deve ter sido a primeira entrevista que o Fernando deu ao Financial Times. Mas deve ter sido sido aquela em que ele saiu de lá todo lampeiro e os colegas do Governo vieram todos apertar-lhe a mão, e o Sócrates até lhe deu umas chapadinhas nas bochechas, como que dizendo,
Estivestes muito bem.”
No dia em que se comemorou o dia de Portugal, o Fernando deu mais uma entrevista ao Financial Times. Não para denegrir a auto-estima dos portugueses, mas para aumentar a nossa soberba perante a crise financeira que afecta o mundo inteiro. Excepto nós, claro. Para quem vive cá, as coisas não estão fáceis. Não há dinheiro para nada. Tudo tem de ser racionado. Não se pode contratar. Para quem dá entrevistas ao Financial Times, ainda “não estamos numa situação em que necessitemos de usar” o fundo de solidariedade europeu. É isso mesmo! Pedir ajuda é para os outros totós que não sabem o que estão a fazer!
Portugal é como aquelas pessoas que usam roupa de marca e têm um grande carrão, mas o saldo da conta bancária está negativo e vão comer à Sopa dos Pobres. Tentamos passar sempre a imagem de que está tudo bem. Foi isto que o Fernando fez nas duas entrevistas que deu, é isto que faz qualquer político português sempre que discursa para a imprensa estrangeira.
A ideia deve ser convencer os estrangeiros de que aqui é que se está bem. Depois, eles vêm para cá e ajudam a pôr isto bem; ou fazem nos seus países aquilo que fazemos no nosso. Acredito que, se a Europa e o resto do mundo nivelar com os nossos padrões de empenho e eficácia, ficaremos muito melhor, comparativamente falando.

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