31/07/10

TERMINUS 131: QUERO SER ALUNO OUTRA VEZ

Eh pá! Se há coisa que eu gostava de ser de novo, se pudesse voltar atrás no tempo, era aluno. Não porque tenha particular saudade das aulas, mas porque agora quase que não precisaria de ir à escola para passar de ano.
Isabel Alçada, actual Ministra da Educação disse numa entrevista ao jornal Expresso que pretende acabar com os chumbos. Estou contigo, Isabel. Vamos acabar com os chumbos implementando uma série de medidas que não reduzam o grau de exigência dos professores, ao mesmo tempo que deixam os nossos alunos mais capazes para responder aos desafios que lhes serão propostos.
Não é assim? Então, como...
Ah! É vamos acabar com os chumbos, ponto. Tipo varrer para baixo do tapete ou enterrar numa vala comum. Assim não sei. Repara, continua a ser uma boa ideia, não digo que não, não tanto para um livro, não para uma medida do Ministério da Educação.
Eu sei que tu não gostas que alguns meninos fiquem tristes por chumbar, compreendo isso perfeitamente, mas tens de ver que, se acabas com os chumbos, há outros meninos que vão ficar tristes. Meninos que estudaram muito e que vão ser gozados por aqueles que não estudaram nada e que vão passar de ano também. Pois é. Não tinhas pensado nessa.
O teu problema não é falta de ideias boas. O teu problema é perderes a noção do que dizes. Exemplo: agora queres acabar com os chumbos. Vamos supor que essa medida vai em frente e passa na Assembleia (PSD e CDS-PP são contra, mas vamos supor que mudam de ideias até lá). Se não existirem chumbos, como é que julgas implementar aquela ideia do salto do 8º para o 10º ano?
Não estou a dizer que não devemos ser mais compreensivos para com aqueles alunos que, apesar de se esforçarem muito, não conseguem atingir os objectivos que lhes são propostos; só acho que, sem chumbos, a coisa é capaz de correr mal. Imagina que precisas de um advogado. A pergunta é muito simples: preferirias um advogado que tivesse chumbado um ano em toda a sua vida escolar ou um que só não chumbou porque houve alguém que acabou com os chumbos?
Precisas de ir ao médico. Tens dois à escolha: o que chumbou dois anos, estudou para melhorar o seu aproveitamento e continuou, e o que teria chumbado quatro anos seguidos se alguém não tivesse acabado com os chumbos.
Mais do que uma questão de escolha, é uma questão de segurança e coerência. Não sabe a tabuada, não passa. Não sabe fazer um Z maiúsculo? Não passa. Entrou há mais de vinte anos para o 1º Ciclo? Azar! Enquanto não souber cortar o desenho pelo picotado não passa.

TERMINUS 130: CASO FREEPORT - O EPISÓDIO FINAL

Há séries que só começo a seguir quando estão quase a chegar ao fim, outras que só as descubro depois de terem passado na televisão. O Caso Freeport quase que foi uma dessas, felizmente tive um amigo que me emprestou a primeira temporada e eu consegui ainda apanhar os últimos episódios.
Já aqui falei do Caso PT/TVI. Fazer uma comparação entre estas duas séries é algo inevitável. Há aspectos em comum e aspectos distintos.
A principal diferença entre as duas séries está na vertente internacional. Enquanto que o Caso Freeport envolvia empresários ingleses, o Caso PT/TVI envolvia empresários espanhóis. Outra diferença: personagens por identificar. No Caso PT/TVI soubemos quem eram os jogadores todos; já no Caso Freeport ficámos sem saber quem era o Pinochio ou o Bernardo. (Bernardo deve ser nome de código, só pode.)
Quanto aos aspectos em comum: ambas contam com a presença de José Sócrates e gira em torno de negócios obscuros entre responsáveis políticos e empresários.
Era capaz de falar aqui da série toda, mas vou limitar a minha apreciação ao último episódio. Aos que ainda não viram os últimos episódios, atenção que poderão haver aqui spoilers.
Foi bom? Foi. Mas podia ter sido melhor.
A minha primeira crítica vai para a celeridade do processo. Passámos dezenas de episódios a acompanhar o julgamento, não havia meio da coisa ir para a frente e de repente... caso julgado e a série acaba.
É verdade que existe a hipótese de uma spin-off ser lançada dentro em breve e isso pode ter influenciado os produtores a tentar despachar a história à pressa. A série já começava a perder o seu fôlego e fazer mais episódios ou mesmo uma nova temporada só para responder a meia dúzia de questões seria um erro. Por outro lado, o modo como aceleraram o julgamento também não foi a melhor opção.
No final do penúltimo episódio Mário Gomes Dias, magnífico no papel de Vice Procurador-Geral da República que está em situação ilegal, dá um prazo final aos investigadores do Caso Freeport para apresentarem as suas conclusões senão “vai tudo pró badagaio”. É assim lançado o último cliffhanger para uma das mais espectaculares séries portuguesas de sempre.
O último episódio acompanha os investigadores na sua derradeira tentativa de apanhar o grande peixe, o ex-Ministro do Ambiente que entretanto conseguira chegar a Primeiro-Ministro. Em momento algum lhes passa pela cabeça que o Vice Procurador esteja metido na confusão. Lá por o seu patrão ter sido escolhido pelo homem que eles agora perseguem, não é razão para desconfiar das pessoas. Também se perdeu muito tempo com a cena das 27 perguntas que não chegaram a ser feitas, tempo que podia ter e devia ter sido gasto de forma mais produtiva.
A melhor sequência: após saber que tinha sido absolvido, José Sócrates lança um vídeo a salientar a sua postura digna e a conservação do seu bom nome; por outras palavras, “Toma! Toma! Toma!” Memorável.

TERMINUS 129: EXPRESSÕES QUASE REGIONAIS

Existem algumas expressões que me fazem confusão, ditos populares cuja origem eu desconheço e cujo propósito eu não desvendo. Rosado sol posto, cariz bem disposto. Lua com circo, água traz no bico. Nunca faças nada sem consultares a almofada. Quem tem medo compra um cão. E por aí fora.
E depois existem aquelas expressões que, além de não terem uma origem ou um propósito popular associado, deixam-me extremamente irritado. Não é bem a expressão em si que me irrita, é mais a sua constante repetição. Assim que eu me explicar melhor, o leitor de certeza que entenderá ao que me refiro.
Sabe aquele amigo ou conhecido de longa data, ou colega de trabalho, aquela pessoa que, sempre que o vê, o recebe sempre com a mesma expressão? É disso que eu estou a falar. No meu caso, a frase em questão é: 'Tás fixe ou vais para Peniche?
Começo pela pergunta mais óbvia e que é: uma pessoa que não está fixe é porque vai, obrigatoriamente, para Peniche? Eu já tenho estado não fixe por ir para outros sítios que não Peniche. Sempre que tenho de acordar cedo para ir, seja para onde for, não vou fixe. Outra! As pessoas fixes são só aquelas que não vão para Peniche? De onde vem este rancor que rotula as gentes de Peniche de pessoas não fixes? Parem com isso.
Eu já fui a Peniche. Não posso falar da minha experiência nessa terra, porque era ainda criançola quando lá fui, mas duvido que os penicheiros apreciem ver a sua terra associado a um dito depreciativo.
Dizer 'Tás fixe ou vais para Peniche? faz tanto sentido como dizer 'Tás mouco ou vais para o Samouco?, 'Tás porreiro ou vais para Aveiro?, 'Tás afoita ou vais para a Moita?, 'Tás com medo [pronunciado mêde] ou vais para Cantanhede?. E ainda: Perdeste o balde ou vais para Mangualde?, Queres hortelã ou vais para a Sertã?.
Quem são os autores desta frase? Quem é que na sua inspiração, criou este dito que atravessa gerações e regiões? Essa pessoa estará ainda viva. Provavelmente não. E provavelmente terá morrido de demência a julgar pelo legado que deixou.
A quem me lê, a quem tenta criar ditos semelhantes, aqui fica um esclarecimento:
Não pretendo frases com sentido. Tendo em conta o que já existe, é impossível esperar por isso. O que eu desejo que houvesse são mais frases. Podem ser mais parvas e com menos sentido do que aquelas que são ditas de norte a sul do país, mas se forem simples o suficiente para alguns menos dotados conseguirem aprenderem mais duas ou três frases, talvez eu não hesitasse tanto em ir a determinados sítios, certo de que vou lá encontrar a mesma ave rara de sempre que me vai receber com o seu irritante 'Tás fixe ou vais para Peniche?

TERMINUS 128: O REAL PROPÓSITO

Soube há dias que o ADN do Ozzy vai ser sequenciado. De imediato liguei para o meu amigo David a dar-lhe os parabéns. Após uma amena troca de palavras, ele perguntou-me como é que eu soube que ele conseguira fazer cem por cento numa música do Guitar Hero no modo Professional. Perplexo, falei-lhe das notícias que tinham vindo a público sobre o ADN do Ozzy vir a ser sequenciado.
Foi aí que descobri que o Ozzy em questão não era um dos cães do meu amigo David, mas sim Ozzy Osborne, o ex-vocalista dos Black Sabbath. Julguei que pudesse mesmo ser o cão do meu amigo, já que é o único cão que eu conheço que ladra quando vê cães na televisão.
O protagonista do “hit” da MTV, Os Osbornes, foi escolhido pela empresa norte-americana Knome para fazer parte deste projecto. Para estes cientistas que tocaram numa mulher tantas vezes como num copo de cerveja, faz confusão como é que alguém pode beber, fumar, inalar, chutar e snifar tanto durante tanto tempo e ainda continuar vivo.
Para ser sincero consigo, caro leitor, eu desconfio que o objectivo destes cientistas não é bem aquilo que eles estão a dizer. Tudo bem que sequenciar o ADN do Ozzy até pode servir para o que eles dizem. Pode ter um “imenso potencial científico”, pode ser tudo tudo isso. Mas o que é de facto, é uma promoção moral.
Não é qualquer um que tem o seu ADN sequenciado. Por norma, esta honra só é atribuída a personalidades que contribuíram para o avanço da humanidade. Pessoas como James Watson, Nobel da Ciência, e Craig Venter, geneticista. Pessoas importantes, sem dúvida, mas totós. No caso de Ozzy, ele, não só não fez avançar, como também não avançou; é possível até que tenha havido uma regressão.
Na galeria onde estão expostas as fotografias de todos aqueles que tiveram os seus ADNs sequenciados, existem dois tipos de expressão: os muito totós que estão contentes de estar ali e têm um sorriso entre o parvo e o solene, e os menos totós que, apesar de contentes pela honra que lhes é atribuída, lamentam estar na companhia de indivíduos daquela estirpe em vez de uma qualquer modelo sueca e têm um sorriso algures entre o “bolas! que cambada de totós!” e o “matem-me, por favor”. Independentemente das reacções que possam haver, é inegável o ar cool que a presença de Ozzy Osborne neste “panteão” vai dar a todos os presentes.
Agora que sabemos o que eles querem, é bom ter em conta que esta brincadeira vai ficar em 35 mil euros. Gastavam menos a encomendar duas ou três grades de minis, alguma erva, duas ou três “peças de fruta” e pronto. Não ficavam a perceber como é que alguém que bebia até quatro garrafas de conhaque por dia, e que partiu o pescoço uma vez, ainda está vivo, mas sempre passavam melhor o tempo.
Quatro garrafas de conhaque parece muito; para alguns portugueses é só um pequeno-almoço. Daí que eu continue desconfiado quanto aos derradeiros objectivos destes cientistas. Podiam obter resultados mais conclusivos sequenciando o ADN de qualquer bêbado da minha rua. Embora nenhum deles possua o carisma e o talento de Ozzy Osborne, quando estão no pico da bebedeira conseguem ser bastante divertidos.

27/07/10

TERMINUS 127: AS RAZÕES INVOCADAS

O Bispo auxiliar de Lisboa e presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social, D. Carlos Azevedo, apelou aos políticos cristãos para que doassem vinte por cento do salário para um fundo social destinado aos pobres. Num bonito gesto de solidariedade, políticos da esquerda à direita foram solidários na recusa do apelo. E ainda dizem que a classe política não é capaz de se unir por valores mais altos!
A deputada Teresa Venda justificou a sua posição com argumentos um bocado forçados
Não posso doar uma parte do meu ordenado como deputada porque já dou parte para ajudar uma família em concreto.”
Dum ponto de vista superficial, quase que dá vontade de rir; do meu ponto de vista dá mesmo vontade de rir. Que se recusem a doar vinte por cento do seu salário é algo a que só aos próprios diz respeito. Não querem dar, não dão e ponto final. O problema começa quando se tentam justificar.
A senhora deputada não quer doar parte do seu ordenado como deputada porque já dá uma parte para ajudar uma família em concreto. Qual família? Provavelmente a sua. O exemplo começa sempre em casa e se Teresa Venda não for boa para os seus, não será para os outros. Aliás, é por ser boa para os seus que se recusa a ser boa para os outros.
A proposta de alteração de feriados apresentada pela deputada, que iria criar mais quatro dias de trabalho por ano e aumentar o Salário Mínimo Nacional, pretendia combater esse problema. De fora só ficariam aqueles pobres que nem têm dinheiro para trabalhar. (É bem feito! Não trabalham, também não recebem.)
A Igreja quer mais um subsídio, mas a pobreza resolve-se com o atender às condições específicas de cada família, porque cada família é um caso.” Acho bem. Lá porque são pobres, isso não quer dizer que devam ser todos tratados da mesma maneira. Alguns pobres precisam de 109 euros por mês, outros de 111. São valores totalmente díspares que obrigam cada caso a ser devidamente analisado.
Maria José Nogueira Pinto não recusou o apelo; entendeu-o como um estímulo à consciência social. Em termos práticos isso quer dizer o quê? “Eu não doo, mas estou consciente de que há pobrezinhos”?
Restam aqueles que não se esquivam, mas atiram parte da batata quente para outros. CDS-PP e BE partilham da opinião que o apelo é feito, não só aos políticos, mas a todos os que têm dinheiro. Esta consonância de opiniões não significa, necessariamente, uma consonância de razões. É como uma conta de matemática. 3+1 pode dar 4, mas 2+2 também produz o mesmo resultado.
Manuel Alegre disse que já desconta muito nos impostos e que “pagar impostos é necessário porque esse é o primeiro dever dos cidadãos”. Já que em Portugal quase que não há fuga aos impostos, nem desvio de fundos, nem branqueamento de capitais, fico mais descansado. Se em vez de usarem argumentos da treta tivessem dito logo isto, a coisa teria ficado resolvida. Deixava de haver matéria para este artigo, mas pronto. Eu fazia o sacrifício.

25/07/10

TERMINUS 126: É BONITO O ALTRUÍSMO

Como sabem, eu não ligo ao futebol. Mas não é por isso que deixo de estar atento ao que se passa nesse universo; principalmente o que transcende para a vida do dia a dia de nós, comuns mortais. Sei que estamos na pré-época, sei que é nesta altura que os clubes apresentam e procuram novas aquisições. É uma época de oferta e procura; de negócios, em suma.
O tema deste meu artigo – lamento a desilusão, mas vocês já deviam saber – não tem a ver com futebol, e sim negócios. Em particular, um que foi sugerido esta semana. Apesar dos eventos que antecederam esta proposta serem difíceis de equacionar, vou tentar fazer um pequeno resumo para que estejamos todos na mesma onda.
Ora bem, primeiro havia um sucateiro que oferecia prendas, depois havia um gestor de um banco, que era amigo dum primeiro-ministro, que por sua vez talvez conhecesse um certo administrador. Água vai, água vem, essas pessoas, que falavam muito ao telemóvel, a tratarem dos seus negócios e tal, deram por si envolvidas num caso de polícia.
Veio então alguém que pôs tudo em segredo de justiça; depois veio alguém que disse “Não senhor!” e atirou o segredo de justiça pela janela e ninguém sabia o que é que se podia dizer. Surgiu então um jornal que disse que ia publicar algumas das conversas que o tal administrador teve com certas pessoas. E ele, envergonhado, disse, “Não façam isso que eu tenho uma voz muito nhonhó ao telefone. Olhem que eu vos processo.”
No dia seguinte, ao raiar do Sol, lá vinham as conversas publicadas. E o administrador pôs um processo ao jornal, dizendo que o jornal era mau, era feio. E depois veio um Tribunal que disse “Tadinho do administrador. Só porque ele está envolvido em moscambilhas não é razão para o aborrecerem. Agora, para castigo, vão-lhe pagar 750 mil euros.”
Entretanto, num bonito gesto de altruísmo, o administrador disse que que está disposto a perdoar o jornal pela maldade que fez. Numa atitude digna de lhe conceder uma canonização, se o jornal não tiver dinheiro para lhe pagar, ele aceita ficar dono do jornal.
Estava convencido de que estas histórias só aconteciam no Natal ou nos filmes. O Darth Vader, por exemplo, é mau o tempo todo, mas no fim fica bom. Neste caso, o administrador só não perdoa a dívida. Devo dizer que o compreendo perfeitamente. As chamadas telefónicas estão cada vez mais caras.

TERMINUS 125: QUEM É FELIZ, QUEM É?

Um estudo publicado recentemente pela Forbes e pela Gallup concluiu que o índice de felicidade dos portugueses é inferior ao dos paquistaneses. Numa altura em que o mundo atravessa uma profunda crise financeira é refrescante existir quem se preocupe em medir a felicidade. Diz o ditado que o dinheiro não traz a felicidade; estranhamente, a falta dele também não.

Não contesto os resultados do estudo. Quer dizer, não por completo. Portugal está na 70ª posição; no fundo da tabela estão o Ruanda (148ª) e o Haiti (144ª), países cujos habitantes não têm assim muitas razões para estarem felizes.

Digo eu. Antes, ainda se podia contar esta piada:

Um ruandês cruza-se com um haitiano e diz o ruandês:

“Então e aquele terramoto, pá?”

“Nem me digas nada! Fiquei sem casa, sem trabalho. Enfim...E tu, como é que vais?”

“Cá vou andando. A minha família foi toda chacinada esta semana. O costume.”

E diz o haitiano:

“Ao menos não estamos em Portugal.”

Agora já não.

Como eu dizia, não contesto a segunda metade da tabela, mas faz-me alguma confusão que a Dinamarca e a Suécia tenham ficado nos primeiros lugares. A Dinamarca e a Suécia podem ser muito boas na Educação, nas Finanças, na Economia, no desenvolvimento; por outro lado, são também os países europeus com a mais elevada taxa de suicídio.

Assim é fácil ficar em primeiro! Os macambúzios matam-se todos e só ficam os felizes! Lá está porque é que alguns países não querem trabalhadores emigrantes, principalmente portugueses – a saudade deixa-nos tristes e eles não querem isso. Querem trabalhadores felizes.

Como os paquistaneses, por exemplo.

Mas que raio é que os paquistaneses têm para serem mais felizes do que nós? Na prática temos a mesma coisa: um país vizinho com o qual se disputa uma terrazinha e habitantes que se queixam dos trabalhadores estrangeiros fazerem os trabalhos que os locais não querem fazer. Porquê tanta felicidade? Não se percebe.

Todavia, é bom não esquecer que o Paquistão tem um programa nuclear. Portanto, se calhar a questão não é porque é que o Paquistão é mais feliz que Portugal, e sim porque é tão pouco mais feliz. De 70 para 58 a distância não é muita e nós não temos propriamente a melhor imagem para quererem ser nossos vizinhos a não ser que sejam obrigados a isso. Estar próximo de nós pode contaminar os paquistaneses com saudade e tristeza e pessoas tristes com bombas nucleares são uma péssima combinação.

TERMINUS 124: A TERCEIRA CATEGORIA

É verdade que muitas pessoas entram na política para se orientarem, mas também é verdade que há outras que se debatem por causas nobres. Pessoalmente, prefiro as da segunda categoria; já em termos de espectáculo as da primeira são incomparáveis. Gosto de ver o Canal Parlamento e quando há debate, há peixarada quase garantida. Já quando se trata de uma Comissão, em que é tudo muito “Com certeza, senhor doutor.”, a coisa torna-se demasiado chata. A não ser que seja uma Comissão de Inquérito (tipo BPN ou PT). Aí sim, há galhofa. Só é pena é estarem a gozar connosco.
No nosso Parlamento só vejo isto, mas parece que lá fora é diferente. Eu julgava que os deputados do Parlamento Europeu quisessem ir para a Europa pelos mesmos motivos por que vão para os Parlamentos dos seus países; porém, numa escala mais ampla. Acontece que isso não acontece. (A frase não deixa de estar certa, apesar de ser foleira.) No Parlamento Europeu há lugar para uma terceira categoria, perceptível a partir do seguinte exemplo:
Mario Borghezio, eurodeputado italiano eleito pela Liga Norte, propôs a criação de um Centro Europeu de Estudo de OVNIs.
Antes de mais, eu acredito que o nosso planeta não seja o único com vida inteligente no Universo. Digo isto pelo facto da Terra nunca ter sido visitada – para alguns isso é sinal de que não existem visitantes, para mim isso é sinal de inteligência. (Também pode ser falta de oferta. Proponho uma campanha turística à escala mundial. Deixamos de fora os países mais feios. Ou não. Talvez eles gostem de coisas feias. Não estamos lá para julgar.)
Perdi-me um pouco. Desculpem-me. O que dizer desta terceira categoria? O Centro Europeu de Estudo de OVNIs parece-me uma boa ideia para um filme, não para algo financiado pelo nosso dinheiro. Por outro lado, imagino que os institutos e centros de pesquisa e outras coisitas com fins credíveis já tenham sido todos usados. Isso obriga os proponentes a serem um pouco mais rebuscados.
Cá, pode-se criar, o CADESNAPAFA (Centro de Apoio aos Deputados Europeus Sem Nada Para Fazer), ou o IPFAPETEF (Instituto dos Passageiros que Ficaram Apeados Porque uma Empresa Turística Espanhola Fechou). É só uma ideia. Não é muito boa, eu sei, mas se comparada com algumas ideias oficiais, não é tão má quanto isso.

19/07/10

TERMINUS 123: OIÇA, OU SAIA OU ARRANJE-ME UM LUGAR

Costuma-se dizer que quem não chora, não mama. Perdoem-me os mais sensíveis pela linguagem, mas os ditados populares são como são.
Tentei ouvir o debate sobre o Estado da Nação enquanto este decorria. Infelizmente, a essa hora eu estava a trabalhar – ao contrário de muitos dos presentes no Parlamento; excepção feita ao pessoal do Bar e outros serviços – e só consegui escutar o rescaldo quando cheguei a casa.
Já se sabe que nestas coisas de debates nunca se chega a um consenso. O Governo diz que está tudo bem, a Oposição diz que está tudo mal. Com mais ou menos surpresa, cada facção defende o seu ponto de vista. Não se espera nada de novo vindo daqui.
Porém, como eu costumo dizer, a política é como a vida: quando menos esperamos, somos surpreendidos. E de que maneira!
O que o Paulinho fez parece próprio de um bipolar, mas tem muito que se lhe diga. Por um lado, manda o chefe do Governo sair; por outro, pede a esse mesmo chefe que lhe arranje uma cunhazinha no executivo. Aliás, não pede só para ele. Pede para o amigo também. Ou conhecido. Ou pessoa de outra força política muito semelhante à sua. E à do Governo também. Isto não é para qualquer um.
Imaginem isto acontecer noutros cenários sem ser na política. Numa reunião de accionistas, por exemplo. O CEO está reunido com os accionistas a apresentar os resultados do período anterior e o modo como as suas decisões levaram a empresa até àquele ponto. Tudo muito calmo, muito solene. Algumas perguntas de vez em quando, nada de mais.
De repente, entra o Paulinho por ali adentro e diz: “Não oiçam o que este senhor diz que é mentira! Devia ter era vergonha na cada! A mentir aos senhores accionistas desta maneira!”
E depois aproxima-se do CEO e diz-lhe, “Oiça lá, não me arranja aqui um lugarzinho? A tirar cópias ou assim? Ah! E já agora, se pudesse ser, veja lá aí qualquer coisa para o meu vizinho. Você sabe quem ele é. Costuma ter aulas de tango consigo.”
Fico contente por isto não acontecer no mundo empresarial, embora não deixe de lamentar por acontecer no mundo da política. Paulo Portas tem um sonho e por isso arriscou a sua sorte. Ele quer que o Primeiro-Ministro abandone o cargo e, ao mesmo tempo, lhe arranje um lugar no Governo. Um sonho estranho, é certo, mas não estamos aqui para julgar. Talvez o seu desejo se concretize. Coisas mais inesperadas já aconteceram.

TERMINUS 122: O DESPRIMOR DA CORRUPÇÃO

Aprecio deveras a existência daquela barreira entre a realidade e a ficção. Detesto quando essa barreira é desrespeitada e certos assuntos, que mais parecem retirados duma telenovela, saltam para a ribalta.
Uma magistrada dos submarinos tem relação com líder de entidade que fez peritagem de processo. E depois? Acham que é por aí que a coisa vai descambar? Querem ver que é que agora que vamos descobrir que a corrupção não teve nada a ver com o caso? Que tudo não passou duma história de amor?
Para alguns isto deve parecer muito bonito – e aposto que vão passar a acompanhar o caso com mais atenção – mas esquecem-se do descrédito que isto causa às nossas instituições. A corrupção atravessa uma bela fase no nosso país, tem feito muito pela nossa imagem lá fora e não merecia ser tratada desta forma.
A corrupção é boa para a economia. A pessoa corrompida recebe dinheiro para fazer algo pelo corruptor. Com o dinheiro que recebe pode ir às compras e isso ajuda ao desenvolvimento do comércio. Às vezes, a pessoa é corrompida para permitir que o corruptor faça algo. Nesta situação, além do corrompido continua a ter dinheiro para investir, aplica-se uma particular forma de acordo laboral que muitos patrões não desdenhariam: pagar para trabalhar. Imagino alguns patrões a lerem estas palavras e a pensarem, Ahhh, se fosse possível...
É desmotivante o Caso dos Submarinos, depois de tanta polémica, de tanta notícia, de tanto relatório, acusação, etc., estar em risco de ser anulado devido a uma relação amorosa. Não apenas pelas razões que já adiantei, mas por todas as mudanças que daqui virão.
A comunicação social em Portugal divide-se em três focos: a que investiga e publica notícias relevantes, a que tenta fazer isso e não consegue e a que relata cenas da vida privada. Eu esperava que este caso tivesse o percurso habitual que todos os casos polémicos costumam ter. Manchetes em jornais de grande tiragem, artigos em revistas semanais de renome e, por fim, um decrescer do interesse jornalístico na matéria até esta não ser mais do que informação consultável via Internet. Aconteceu com o Caso Freeport, com o Caso Portucale, e com muitos outros.
É lamentável, mas esta história vai passar para as revistas do social. Vamos passar a conhecer a vida da magistrada e do seu namorado. Vamos ver fotos da casa dele e dela. Descobrir que taras sexuais é que os movem. Se acreditam em Deus ou nos Signos do Zodíaco. Como ficaram comovidos com a morte duma figura pública que não lhes dizia absolutamente nada. Enfim, todos os fâit-divers que são expectáveis (e não “esperáveis”, como alguém disse) em publicações dessa estirpe.
Este caso interessava-me enquanto era notícia, agora que é uma telenovela terei de arranjar outra coisa para ocupar o tempo.

11/07/10

TERMINUS 121: ASSIM, ATÉ EU GOSTO DE FUTEBOL

 A melhor forma de dar remédios aos putos, comprimidos por exemplo, é misturá-los com leite ou sumo. Eles papam aquilo que é uma maravilha. Possivelmente com base nesta ideia, a actriz porno Bobbi Eden promete fazer sexo oral a todos os seus seguidores no Twitter caso a Holanda vença o Mundial. Se considerarmos que Bobbi tem cerca de vinte mil seguidores nessa rede social, aquilo é coisa para dar umas valentes caimbras. Felizmente, Bobbi não vai estar sozinha nessa árdua tarefa. Há duas colegas que estão dispostas a ajudá-la.
Eu até nem gosto muito de futebol, mas admito que... Vistas as coisas, não é um desporto assim tão mau. Tem emoção, tem acção, tem intriga, jogadas arriscadas. E para além de tudo isto temos os jogos em si. No entanto, por ser alguém para quem o futebol não diz assim muito, esta proposta da Bobbi, por muito tentadora que seja, não se resume a isto.
Não é a primeira vez que se fazem promessas do género em campeonatos mundiais. Natalya Sverikova, actriz porno da Bielorrússia, prometeu uma noite de sexo ao representante bielorruso no Campeonato de Xadrez de Países do Leste em 1999. Melodie Papamos, conhecida stripper franco-grega, prometeu uma lap-dance a Viktor Tessailikis se este conseguisse o primeiro lugar nas Jornadas da Filosofia em 1982. Exemplos não faltam, o que falta é o porquê?
Porque é que Bobbi Eden fez esta proposta? Porque é holandesa e quer ver o seu país vencer parece ser a resposta mais sincera, mas será mesmo por isso?
À data do seu anúncio, Bobbi tinha cerca de vinte mil seguidores no Twitter. Neste momento deve ter, no mínimo, o triplo ou o quadruplo disso (e estou a fazer a coisa por baixo; salvo seja). Supondo que ela defina como limite máximo o número de fãs que tinha à data do anúncio. Vinte mil a dividir por três dá cerca de 6667 gajos por boca. Tudo bem que são actrizes porno e estão habituadas a estas coisas, mas dá-me ideia de que elas não estão assim tão convictas na vitória da Holanda.
É como um pintas prometer à sua gaja que lhe compra um anel de noivado se nevar na Praia do Meco. Ou um tipo prometer que corta o pénis com uma Gillete se Portugal entrar numa rota de expansão e progresso. São situações tão impossíveis, ou improváveis de acontecer que podemos prometer o que seja que dificilmente teremos de cumprir essa promessa.
Por outro lado, parece que a Holanda até tem uma boa equipa. No dia da grande Final, milhares de pessoas, espanhóis incluídos, vão seguir atentamente a final e rezar pela vitória da “laranja mecânica”. Durante o jogo em si, não me admiro que a Espanha marque uns quantos autogolos, só para que alguns jogadores garantam acesso a um prémio muito especial. Por tudo isto, não tenho dúvidas que o único apoio que Espanha terá nessa Final (não assumidamente, é certo) virá de Bobbi Eden e das suas duas amigas.

TERMINUS 120: O QUE VALE É QUE ESTAMOS EM BOAS MÃOS

 Quem criticou as declarações do senhor Procurador Geral da República, sobre a nossa justiça ser a melhor a nível europeu, deve ter ficado com um melão bem grande quando se soube que Joaquim Fernandes vai ser o único acusado pelo Ministério Público pelo acidente de 27 de Novembro de 2009, na Avenida da Liberdade, Lisboa.
Joaquim Fernandes, cabo da GNR, estava a trabalhar como motorista do carro do secretário-geral da Segurança Interna, Mário Mendes. A Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa afirma que os factos apurados indicam o motorista como o “único responsável do acidente”. Está acusado de “condução perigosa de veículo rodoviário”, crime punível até três anos de prisão.
Nesse mesmo dia, Mário Mendes estava atrasado para a tomada de posse de 18 governadores civis. (Esta desculpa resulta sempre.) Foi por esse motivo que Joaquim Fernandes violou várias regras de trânsito. E era um bocado difícil não o ter feito, já que Joaquim Fernandes era um cabo da GNR e o homem que ele transportava, além de seu chefe, era chefe da polícia.
Calhou passar um sinal vermelho, calhou serem abalroados pela viatura oficial do Presidente da Assembleia da República. Mas imaginem que, em vez disso, tinha acontecido o seguinte: Joaquim Fernandes, supostamente seguindo ordens do seu patrão, passava um sinal vermelho. Um militar da GNR vê a infracção e manda-o encostar o carro. E depois? Quem é o idiota que vai multar o próprio patrão? Como é óbvio, ninguém.
Demorou-se menos de um ano para se chegar a estas conclusões e, infelizmente, sinto-me pouco seguro, diria mesmo assustado, quanto ao que foi apurado. Que Mário Mendes tenha fugido com o rabo à seringa da responsabilidade duma situação da qual foi parcialmente responsável não me surpreende. Assim como não me surpreende não ter sido condenado. Não só pela razão mais óbvia como por qualquer outra que possam imaginar. Também não me surpreende que este caso tenha sido julgado tão depressa, quando outros mais simples e evidentes demoram anos e anos. Nada disso me surpreende ou assusta.
O que me assusta mesmo é ver Mário Mendes, secretário-geral da Segurança Interna, o “Super-Polícia” como alguns lhe chamam, ir à SIC Notícias falar do caso e dizer que “não se lembra”, “não se recorda”, “não tem a certeza”, etc. Um bocado como Dias Loureiro, Oliveira e Costa, Armando Vara, ou qualquer outro elemento questionado por uma Comissão de Inquérito. Com uma diferença: Mário Mendes é secretário-geral da Segurança Interna. É alguém cujo rigor e tenacidade deveria ser um exemplo para as forças de segurança e para o cidadão comum. É alguém que deveria saber dizer, objectivamente, o que ocorreu. E objectivamente não implica ser verdade, apenas verosímil. Porque antes de nós acreditarmos na patranha, primeiro ele tem de se lembrar qual é

TERMINUS 119: O CHAMADO COMPORTAMENTO DE CIRCUNSTÂNCIA

 O nosso senhor Presidente, que tantos consideram tão carismático quanto um rolo de papel celofane – para mim sempre foi mais tipo papel couché – não consegue esconder que é, foi e sempre será um político. Goste-se ou não de Cavaco Silva, é inegável que ele nos tem brindado com belos momentos de postura presidencial. Desde interromper as suas férias para falar do Estatuto Político dos Açores a não interromper as suas férias para estar presente no funeral do único Nobel Português da Literatura.
Há muitos que consideram que a presença de Cavaco Silva no funeral de José Saramago seria um acto de hipocrisia por parte do Presidente da República. Dado o comportamento de Cavaco Silva aquando da nomeação do escritor para o Nobel, é provável que tenham razão. Contudo, imaginando o jeito que o nosso Presidente da República tem para citar poetas portugueses do século XVI, não posso deixar de ficar curioso sobre como seria uma citação sua do autor do Memorial do Convento.
Com relativa frequência, Cavaco Silva é questionado pela Comunicação Social sobre determinado caso ou alguma acção do Governo. Invocando o estatuto presidencial tem conseguido evitar responder a essas questões sempre que o deseja. Por outro lado, quando deseja responder, e é aqui que o talento do mestre se revela, é capaz de fazê-lo de forma tão ambígua que a certeza do que disse é igual à dúvida do que afirmou.
A última performance de Cavaco Silva neste desporto da retórica surgiu após o advogado Proença de Carvalho ter desafiado o Presidente ao incentivo da criação de um bloco central. (E eu que julgava que já havia!) Cavaco Silva estava em Cabo Verde quando respondeu: “Eu saberia como responder. Mas aqui, em Cabo Verde, não poderia dizer sobre o assunto uma única palavra.”
Em Cabo Verde não pode dizer nada? Porquê? Por causa do fuso horário? Por causa do clima? Isto é demasiado parecido com a seguinte situação: dois sujeitos estão prestes a andar à porrada e o mais forte é afastado pelos amigos e outro fica logo todo fanfarrão. Muitas vezes ao ponto de dizer, “Eu vi logo que o gajo 'tava-se a armar. Era mais que certo que eu lhe fazia a folha”
Por fim: “Não poderia dizer sobre o assunto uma única palavra”? Tudo bem que o Presidente da República não pode falar como qualquer um, mas quem é que fala assim? Ou melhor, quem é que escreve assim? Isto é demasiado parecido com um mini-discurso memorizado para soar espontâneo. Um pouco mais de naturalidade não lhe fazia mal nenhum.

TERMINUS 118: NINGUÉM SE DECIDE

Há gente que não sabe o que quer. Pedem carne, dão-lhes carne, e afinal querem peixe. Aquele casal gay no Swahili que tanto lutou para que o seu casamento fosse reconhecido – lembram-se deles? - separou-se há umas semanas atrás. Queriam tanto, queriam tanto – um deles (ou ambos) chegou a estar preso – e assim que lhes disseram “Pronto, vão lá à vossa vidinha.” um deles descobriu que afinal quer é gajas. Se isto não é gozar, não sei o que é.

Esta onda de “vira-casaquismo” está a alastrar de forma progressiva a tudo o que se possa imaginar. Das quais a mais a preocupante é, sem dúvida, o mundo do trabalho e do emprego. (Diferença principal entre uma coisa e outra, só para não perdermos muito tempo: emprego é o que nos arranjam, trabalho é aquilo que custa a manter). Antigamente ninguém queria ser empregado, queria tudo ser patrão. É claro que não haviam condições para serem todos patrões, por isso o que os empregados faziam era pôr algum dinheiro de parte e...

Como? O que é isso de “pôr algum dinheiro de parte”? Bem, é mais ou menos isto: você tem um salário, certo? Subsídio? Não importa. Portanto, você recebe o subsídio, paga as suas continhas, compra a comidinha, medicamentos se for caso disso. Não é? Óptimo para si, mau para as farmácias. (Não seja forreta. Uma constipaçãozinha ou uma bronquite de vez em quando não custa nada e é um incentivo ao desenvolvimento do comercial local e legítimo da sua área de residência.) Como eu dizia, você recebe o dinheiro, gasta-o no que tem a gastar e depois aquilo que sobra...

Ah! Não sobra nada? Mas vamos supor que sobra, pode ser? Óptimo.

Então, o que se passava era que os empregados punham algum de parte para depois investirem no seu próprio negócio. Certa vez disseram-me que o pior patrão é aquele que começa por baixo. Essencialmente porque conhece as manhas todas que o pessoal inventa para estar na ronha. Algumas dessas técnicas até foram patenteadas por ele nos seus dias de subordinado. São tão maus que quando vão para patrões de si mesmos até consigo ralham.

Durante anos este era um cenário para quem podia, não para quem queria. Entretanto, vieram as empresas na hora (mentira que são 67 minutos) e foi uma explosão de empreendedorismo que foi uma coisa parva. Nessa altura até quem não queria ser empresário e patrão, podia sê-lo.

Entretanto, o cenário mudou. Há quem diga que a culpa é do mercado, outros que é da falta de zelo ou de visão estratégica. O que seja. O que é certo é que começam a aparecer muitos patrões que querem ser empregados. São mais explorados e tal, recebem menos, mas não têm tantas chatices.

Até na política nós somos indecisos. Recuemos aos anos 90. Sai Cavaco (PSD), entra Guterres (PS); sai Guterres (PS), entra Durão (PSD); sai Durão (PSD), entra Santana (Fanfarra); sai Santana (Fanfarra), entra Sócrates (PSD, PS perdão). É uma indecisão que enerva.

04/07/10

TERMINUS 117: RESPOSTA ANÓMICA

Soube hoje da primeira opinião publicamente manifestada em relação a uma crónica humorística da minha autoria publicada no jornal O RIO. A crónica em questão fazia referência a uma série de eventos que tinham sido levados a cabo por grupos ou simpatizantes anarquistas.

O blogue ALHOS VEDROS AO PODER já me era familiar, não apenas de nome, mas também pelo “outwall” à entrada de Alhos Vedros. Visitei-o uma vez há uns anos atrás e nunca mais lá voltei. Não por concordar ou discordar das suas reivindicações, apenas porque prefiro blogues em que as vírgulas e outros sinais de pontuação são usados correctamente. Além disso, aquela panóplia de cores garridas e os pedaços de texto em destaque fazem-me mal aos olhos. Já me tinham dito que ler em transportes públicos pode causar um deslocamento da retina. Por recear que o mesmo, ou pior, pudesse acontecer se continuasse a ler aquele blogue, decidi não ler mais.

No dia 4 de Julho voltei lá e com cautela (não fosse o texto estar escrito assim), lá fui eu ler o artigo. Opiniões à parte, tenho de dar algum valor ao que lá vem escrito. Por exemplo:

O escriba quando se refere a Anarquia como sinônimo de desorganização poderia talvez se o soubesse o que duvido, estar a referir-se a Anomia que isso sim é sinónimo de caos e desordem que advem duma situação calamitosa a que o estado e os poderes levam uma população ou um País, como é o caso de Portugal que se encontra à beira da Anomia.

Viram? Sem saber o que era a Anomia, acabei por escrever um artigo sobre esse fenómeno. Por acaso, estava convencido que Anomia fosse uma variante de Anemia, exclusiva de pessoas com o tipo de sangue O. Agradeço ao blogue ALHOS VEDROS AO PODER por me ter esclarecido.

Como este meu crítico aponta, e bem, além de não perceber nada de anarquia Anarquia, eu ainda tento fazer troça de algo que me é “manifestamente desconhecido”. (Eu tenho a mania de gozar com assuntos sobre os quais não sou formado academicamente. Também insisto em escrever sem utilizar cores berrantes ou sem destacar trechos de texto para dizer aos meus leitores “Eh pá! Esta parte aqui é IMPORTANTE! Leiam ISTO!”)

Confesso que desconhecia a cláusula que diz ser proibido fazer humor seja com o que for se não formos mestres nessa matéria. Em relação à Anarquia, uma vez que não sou politólogo para dissertar sobre esse tema, o que eu fiz foi pegar na concepção que a sociedade em geral tem do mesmo e hiperbolizá-lo. É uma cena que se faz em humor.

Fico a imaginar como se comportará este meu crítico num espectáculo de comédia.

Há um tipo de hospital que nunca recebe reclamações: o hospital psiquiátrico. Não é que não recebam, mas eles têm um argumento que nunca falha:
Não liguem ao que ele diz. Vê-se logo que o tipo não bate bem.”

Para mim, isto é uma simples piada. Para o meu crítico será matéria para um artigo sobre a minha ignorância em relação a hospitais psiquiátricos. Previsivelmente com vírgulas, mal, colocadas, e pedaços de texto em grande destaque.

TERMINUS 116: TESTE DE INTELIGÊNCIA

Na mesma semana em que decorreram as eleições para Presidente da Alemanha, um deputado da CDU propôs a realização de um teste de inteligência a todos os imigrantes que queiram entrar na Alemanha. (Faço aqui um parentesis para explicar a algumas pessoas que a CDU alemã é o CDS português.)

A realização de um exame para quem pretenda obter a nacionalidade de um país do qual não é natural é algo comum a muitos países. Na Alemanha, esse exame avalia conhecimentos sociais e culturais sobre o país. Entende-se que queiram fazer o exame para terem a certeza de que vão receber alguém que gosta muito, ou que sabe muito, sobre o seu país. O que não faz muito sentido. Não é por alguém estudar muito para um exame, que passa a gostar dessa Cadeira.

Desconfio que o deputado que propôs este teste de inteligência tenha chegado a esta conclusão. Talvez o número de imigrantes que passam no exame de naturalização tenha aumentado bastante nos últimos anos. É apenas uma de muitas diferenças entre a Alemanha e Portugal. Lá, quando há uma súbita subida de resultados positivos, decidem verificar para ver se bate tudo certo; cá, quando temos alunos a dizer que o exame nacional de Matemática “foi facílimo” é apenas o resultado de boas políticas educativas.

Na Alemanha, das duas uma: ou o pessoal estava a usar cábulas ou andavam a marrar que nem uns marrões. O deputado quer que eles façam esta prova para ter a certeza de que só lá ficam os realmente inteligentes. O que parece ser uma ideia francamente estúpida. A perspectiva de viver num país onde todos são inteligentes parece muito bonita, mas e depois? Como é que o Governo funciona se só tiver cidadãos aptos a questioná-lo a cada decisão? Como é que os patrões enganam os empregados? Isto, se existirem empregados.

Realmente, uma ideia destas, vinda dos senhores que querem vir para cá fiscalizar o nosso Orçamento de Estado, não parece uma coisa muito acertada. Não seria melhor, em vez de um teste de inteligência, um teste de inteligência emocional? Em vez de verificarem o que a pessoa sabe, porque não verificar o que a pessoa sente? Há tanta revista com testes desses. É só escolher um entre milhares de enunciados disponíveis em qualquer papelaria ou quiosque e pronto. Seria muito mais seguro.

Cá em Portugal tenho algumas dúvidas de que isto fosse resultar da maneira pretendida. A não ser que se escolhesse uma de duas possíveis formas de aplicação: ou aplicava-se apenas a portugueses burros ou aplicava-se a toda a gente sem excepção. E isto deixa-me dividido.

Por um lado, não me importava de viver num país só com pessoas inteligentes, sem chicos-espertos. Por outro lado, receio que a ausência de portugueses pudesse pôr em causa a nossa identidade nacional. Por exemplo, visitar locais públicos e ler indicações em várias línguas, menos em português, ou mesmo, usarmos um instrumento sul-africano como a vuvuzela para apoiar a Selecção Portuguesa de Futebol. Enfim, nada que pudesse acontecer num país como o nosso.

TERMINUS 115: ELE SÓ QUER O NOSSO BEM

Um bom Primeiro-Ministro é como um bom pai. Podemos não compreender as suas decisões, achá-las desajustadas face à realidade, mas convém não esquecer que eles estão cá há mais tempo e querem sempre o nosso bem. Quantos de nós, quando crianças, fazíamos ouvidos moucos às admoestações dos nossos pais, para agora darmos por nós a repetir esses mesmos avisos? A cautela – administrada na forma de expressões como “Rita Patrícia, vê lá não caias!” ou “Não corras com a tesoura, Armando Rafael!” – é algo que passa de pais para filhos.

Pensem nisto como sendo uma grande família. Cavaco Silva é o avô, Jaime Gama é o tio e padrinho, José Sócrates é o pai (por enquanto fica a faltar a mãe) e nós somos os filhos. Uns são legítimos, outros bastardos. Tal qual uma verdadeira família.

Lembram-se quando nos diziam para não fazer algo e nós, levados da breca, íamos fazer precisamente isso? O que é que acontecia? Algumas vezes não acontecia nada e nós ficávamos convencidos de que a nossa imaturidade infantil era mais sábia do que toda a experiência de vida dos nossos pais. Na maior parte dos casos, porém, acontecia exactamente aquilo que nos tinham dito que ia acontecer ou pior. Quando assim era passávamos a olhar para os nossos pais com um misto de amor e terror. Amor porque nos tinham tentado poupar a esse infortúnio e terror porque tinham previsto o futuro. E ter um pai que prevê o futuro é algo que retira muito do gozo de ser criança. Um miúdo está sujeito a ser posto de castigo antes de ter feito a asneira.

Outra característica dos pais é terem uma noção do apetite do seu filho mais apurada do que a própria criança. Eu lembro-me de ir a um restaurante e querer três bifes. A minha mãe achou que eu só queria dois. E estava quase certa. Acabei por comer um e meio. Os pais conhecem-nos melhor do que nós próprios.

No caso dos nossos governantes, podemos fazer a mesma analogia. Nós somos como crianças, ávidas de comida e brinquedos e o Governo é o pai que sabe o melhor para nós. Assim se explica porque é o desemprego é cada vez maior em Portugal. Não tem nada a ver com crises internacionais ou com más políticas governativas. Pelo contrário, é tudo muito bem pensado e tem apenas a ver com o facto de nós, assim que temos algum, irmos logo a correr gastá-lo. Pensem em todas as famílias que estão endividadas por terem recorrido a crédito “fácil” e facilmente entenderão o que eu quero dizer.

Esta semana José Sócrates visitou a AutoEuropa, em Palmela, e disse que o crescimento do desemprego “está a abrandar”. Alguns dizem que é um “efeito sazonal”, mas esquecem-se de mencionar o ar preocupado do Primeiro-Ministro ao comunicar isto ao país. José Sócrates não estava orgulhoso disto. Ele sabe que nós não estamos preparados para uma reviravolta dessa natureza. Habituados que estamos à precariedade e às crises conjunturais, o contacto com a prosperidade e o desenvolvimento seria um choque demasiado violento para muitos de nós.

TERMINUS 114: ASSALTO À MARRETADA

Um grupo de homens encapuzados assaltou um posto dos CTT na Maia. À hora do assalto o estabelecimento já estava fechado, por isso tiveram de partir o vidro à marretada. Os ladrões levaram dinheiro e ameaçaram os funcionários.

Esta é a parte objectiva da notícia; a seguir vem, não uma, mas três análises a este caso. (Catita, hã? Estavam à espera de um artigo e acabam por ler três! Quem é amigo, quem é?)


1 – A PERSPECTIVA DOS ASSALTANTES

O grupo de assaltantes de sexo não apurado – as notícias podem tê-los descritos como homens, mas podiam muito bem ser mulheres com voz grossa; com a cara tapada não há como saber – chegou atrasado. Isso revela, por um lado, falta de planeamento e, por outro, falta de empenho. A desculpa do motorista que se enganou no caminho ou a do parceiro que tinha de ir levar a mais nova à dança não pegam. Se era para estar lá antes daquilo fechar, só tinham era que se despachar.

Porém, o facto de terem as marretas à mão significa que estavam já preparados para um eventual atraso. Continuam a ter menos um ponto pelo desempenho geral, mas o ponto extra que recebem por terem antecipado um obstáculo ajuda a equilibrar as contas.


2 – A PERSPECTIVA DOS ASSALTADOS

Para os funcionários do posto assaltado, a acção dos meliantes, além de danosa, foi parva.
Ainda ontem 'tive aqui que tempos a esfregar o vidro com produto que houve alguém lá fora que devia ter óleo ou sei lá nas mãos. Encostou-se lá fora, 'tava aquilo cheio de dedadas. Foi a manhã toda de roda daquilo pra ó depois acontecer isto.” Palavras da dona Francisca, responsável dos Serviços de Limpeza da Estação.

O Chefe da Estação disse não compreender o que se passava na cabeça daquela gente. “O pessoal já tinha vindo todo buscar o dinheiro das reformas. Não sei o que é que vieram cá fazer àquela hora. Mais valia terem batido à porta.”


3 – A MINHA PERSPECTIVA

Com que então um assalto com uma marreta? Isto está bonito, está! Os meninos (ou meninas) por acaso não tinham nada que desse mais nas vistas? Como é que faziam para esconder a marreta? Dentro das calças? Imagino as caras de espanto de quem se vos viu assim.

Eu até gosto de marretas e entristece-me ver esse objecto nas mãos de alguém com tão pouco discernimento.

Baza assaltar os Correios com uma moto-serra!”

Não sejas parvo! Com uma marreta é mais giro!”

Iá!”

E os senhores dos CTT? Não podiam ter esperado um bocadinho antes de fecharem a porta? Que mania! 'Tavam muito cansadinhos, era? Os Correios fecham às seis e meia, o assalto foi ao fim tarde. Não deve ter passado assim tanto tempo que não pudessem esperar um bocadinho.

Agora, além do dinheiro que foi roubado, ainda vão ter de desembolsar mais umas massas para comprar um vidro novo. Tudo isto seria evitável se tivessem esperado um pouco. Pode ser que vos sirva de lição para a próxima.