04/07/10

TERMINUS 112: POSTURA DE CANDIDATO

Como candidato a Presidente da República, Manuel Alegre tem sabido adoptar uma postura adequada ao cargo. Refiro-me ao cargo de candidato, por enquanto. Não ao de Presidente da República. É certo e sabido que a postura de um candidato a um cargo é completamente diferente da postura de um titular de cargo. Não o digo por mal, é apenas um daqueles factos da vida.

O porquê disto acontecer tem várias razões de ser. De todas, a mais facilmente observável é o facto de o candidato poder dizer e fazer coisas que o actual titular não pode. O truque está em convencer as pessoas que o titular pode, efectivamente, dizer ou fazer aquilo que o candidato está a dizer ou fazer. Se não o diz ou faz, é porque não quer.

É necessário que o candidato fale sobre os problemas do país, de preferência criticando o seu principal oponente e defendendo sub-repticiamente os actos do partido que mais o apoia. No caso de Manuel Alegre, em que o seu rival, Cavaco Silva, e o seu partido de apoio, o PS, estão na mesma área política, a tarefa é um pouco mais difícil, mas nem por isso impossível.

Quando soube que o Governo tinha usado a sua Golden Share na PT para bloquear a venda da Vivo à Telefónica, Alegre disse estar “muito contente” por essa decisão. As declarações foram proferidas ao fim da tarde do dia após o negócio, durante um encontro com dezasseis professores universitários no Hotel Altis. Uma vez que foi num encontro e não num jantar, pode-se deduzir que Alegre não estava a mandar bitaites à toa. Ao contrário de Passos Coelho durante os seus já habituais discursos às refeições.

No fim de semana anterior, durante uma cerimónia de homenagem a Mário Soares, José Sócrates leu a sua composição de homenagem a um dos fundadores do partido a que ele diz pertencer. Para mostrar que também ele é capaz de “atirar umas bocas”, Alegre convidou dezasseis entidades – pessoas com estatuto – cuja principal característica era não terem sido Ministros das Finanças. Para quem não percebe, trata-se de uma clara alusão a uma visita que ex-Ministros das Finanças fizeram aqui há tempos a Cavaco Silva para lhe comunicarem as suas preocupações quanto aos problemas do país. Problemas que os próprios ajudaram a criar. Não foi um indirecta daquelas assim bem fortes, mas deixou o Presidente Cavaco atento.

Quanto aos outros grandes temas da actualidade, o PEC, as SCUT e o novo filme da Saga Twilight, Alegre mostrou uma forte postura de Presidente da República dizendo, “Sobre isso não falo.” Acrescentando logo de seguida, “Sou capaz de fazer um poemazito se me derem tempo.” Mas não deram.

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