04/07/10

TERMINUS 115: ELE SÓ QUER O NOSSO BEM

Um bom Primeiro-Ministro é como um bom pai. Podemos não compreender as suas decisões, achá-las desajustadas face à realidade, mas convém não esquecer que eles estão cá há mais tempo e querem sempre o nosso bem. Quantos de nós, quando crianças, fazíamos ouvidos moucos às admoestações dos nossos pais, para agora darmos por nós a repetir esses mesmos avisos? A cautela – administrada na forma de expressões como “Rita Patrícia, vê lá não caias!” ou “Não corras com a tesoura, Armando Rafael!” – é algo que passa de pais para filhos.

Pensem nisto como sendo uma grande família. Cavaco Silva é o avô, Jaime Gama é o tio e padrinho, José Sócrates é o pai (por enquanto fica a faltar a mãe) e nós somos os filhos. Uns são legítimos, outros bastardos. Tal qual uma verdadeira família.

Lembram-se quando nos diziam para não fazer algo e nós, levados da breca, íamos fazer precisamente isso? O que é que acontecia? Algumas vezes não acontecia nada e nós ficávamos convencidos de que a nossa imaturidade infantil era mais sábia do que toda a experiência de vida dos nossos pais. Na maior parte dos casos, porém, acontecia exactamente aquilo que nos tinham dito que ia acontecer ou pior. Quando assim era passávamos a olhar para os nossos pais com um misto de amor e terror. Amor porque nos tinham tentado poupar a esse infortúnio e terror porque tinham previsto o futuro. E ter um pai que prevê o futuro é algo que retira muito do gozo de ser criança. Um miúdo está sujeito a ser posto de castigo antes de ter feito a asneira.

Outra característica dos pais é terem uma noção do apetite do seu filho mais apurada do que a própria criança. Eu lembro-me de ir a um restaurante e querer três bifes. A minha mãe achou que eu só queria dois. E estava quase certa. Acabei por comer um e meio. Os pais conhecem-nos melhor do que nós próprios.

No caso dos nossos governantes, podemos fazer a mesma analogia. Nós somos como crianças, ávidas de comida e brinquedos e o Governo é o pai que sabe o melhor para nós. Assim se explica porque é o desemprego é cada vez maior em Portugal. Não tem nada a ver com crises internacionais ou com más políticas governativas. Pelo contrário, é tudo muito bem pensado e tem apenas a ver com o facto de nós, assim que temos algum, irmos logo a correr gastá-lo. Pensem em todas as famílias que estão endividadas por terem recorrido a crédito “fácil” e facilmente entenderão o que eu quero dizer.

Esta semana José Sócrates visitou a AutoEuropa, em Palmela, e disse que o crescimento do desemprego “está a abrandar”. Alguns dizem que é um “efeito sazonal”, mas esquecem-se de mencionar o ar preocupado do Primeiro-Ministro ao comunicar isto ao país. José Sócrates não estava orgulhoso disto. Ele sabe que nós não estamos preparados para uma reviravolta dessa natureza. Habituados que estamos à precariedade e às crises conjunturais, o contacto com a prosperidade e o desenvolvimento seria um choque demasiado violento para muitos de nós.

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