11/07/10

TERMINUS 118: NINGUÉM SE DECIDE

Há gente que não sabe o que quer. Pedem carne, dão-lhes carne, e afinal querem peixe. Aquele casal gay no Swahili que tanto lutou para que o seu casamento fosse reconhecido – lembram-se deles? - separou-se há umas semanas atrás. Queriam tanto, queriam tanto – um deles (ou ambos) chegou a estar preso – e assim que lhes disseram “Pronto, vão lá à vossa vidinha.” um deles descobriu que afinal quer é gajas. Se isto não é gozar, não sei o que é.

Esta onda de “vira-casaquismo” está a alastrar de forma progressiva a tudo o que se possa imaginar. Das quais a mais a preocupante é, sem dúvida, o mundo do trabalho e do emprego. (Diferença principal entre uma coisa e outra, só para não perdermos muito tempo: emprego é o que nos arranjam, trabalho é aquilo que custa a manter). Antigamente ninguém queria ser empregado, queria tudo ser patrão. É claro que não haviam condições para serem todos patrões, por isso o que os empregados faziam era pôr algum dinheiro de parte e...

Como? O que é isso de “pôr algum dinheiro de parte”? Bem, é mais ou menos isto: você tem um salário, certo? Subsídio? Não importa. Portanto, você recebe o subsídio, paga as suas continhas, compra a comidinha, medicamentos se for caso disso. Não é? Óptimo para si, mau para as farmácias. (Não seja forreta. Uma constipaçãozinha ou uma bronquite de vez em quando não custa nada e é um incentivo ao desenvolvimento do comercial local e legítimo da sua área de residência.) Como eu dizia, você recebe o dinheiro, gasta-o no que tem a gastar e depois aquilo que sobra...

Ah! Não sobra nada? Mas vamos supor que sobra, pode ser? Óptimo.

Então, o que se passava era que os empregados punham algum de parte para depois investirem no seu próprio negócio. Certa vez disseram-me que o pior patrão é aquele que começa por baixo. Essencialmente porque conhece as manhas todas que o pessoal inventa para estar na ronha. Algumas dessas técnicas até foram patenteadas por ele nos seus dias de subordinado. São tão maus que quando vão para patrões de si mesmos até consigo ralham.

Durante anos este era um cenário para quem podia, não para quem queria. Entretanto, vieram as empresas na hora (mentira que são 67 minutos) e foi uma explosão de empreendedorismo que foi uma coisa parva. Nessa altura até quem não queria ser empresário e patrão, podia sê-lo.

Entretanto, o cenário mudou. Há quem diga que a culpa é do mercado, outros que é da falta de zelo ou de visão estratégica. O que seja. O que é certo é que começam a aparecer muitos patrões que querem ser empregados. São mais explorados e tal, recebem menos, mas não têm tantas chatices.

Até na política nós somos indecisos. Recuemos aos anos 90. Sai Cavaco (PSD), entra Guterres (PS); sai Guterres (PS), entra Durão (PSD); sai Durão (PSD), entra Santana (Fanfarra); sai Santana (Fanfarra), entra Sócrates (PSD, PS perdão). É uma indecisão que enerva.

Sem comentários: