11/07/10

TERMINUS 119: O CHAMADO COMPORTAMENTO DE CIRCUNSTÂNCIA

 O nosso senhor Presidente, que tantos consideram tão carismático quanto um rolo de papel celofane – para mim sempre foi mais tipo papel couché – não consegue esconder que é, foi e sempre será um político. Goste-se ou não de Cavaco Silva, é inegável que ele nos tem brindado com belos momentos de postura presidencial. Desde interromper as suas férias para falar do Estatuto Político dos Açores a não interromper as suas férias para estar presente no funeral do único Nobel Português da Literatura.
Há muitos que consideram que a presença de Cavaco Silva no funeral de José Saramago seria um acto de hipocrisia por parte do Presidente da República. Dado o comportamento de Cavaco Silva aquando da nomeação do escritor para o Nobel, é provável que tenham razão. Contudo, imaginando o jeito que o nosso Presidente da República tem para citar poetas portugueses do século XVI, não posso deixar de ficar curioso sobre como seria uma citação sua do autor do Memorial do Convento.
Com relativa frequência, Cavaco Silva é questionado pela Comunicação Social sobre determinado caso ou alguma acção do Governo. Invocando o estatuto presidencial tem conseguido evitar responder a essas questões sempre que o deseja. Por outro lado, quando deseja responder, e é aqui que o talento do mestre se revela, é capaz de fazê-lo de forma tão ambígua que a certeza do que disse é igual à dúvida do que afirmou.
A última performance de Cavaco Silva neste desporto da retórica surgiu após o advogado Proença de Carvalho ter desafiado o Presidente ao incentivo da criação de um bloco central. (E eu que julgava que já havia!) Cavaco Silva estava em Cabo Verde quando respondeu: “Eu saberia como responder. Mas aqui, em Cabo Verde, não poderia dizer sobre o assunto uma única palavra.”
Em Cabo Verde não pode dizer nada? Porquê? Por causa do fuso horário? Por causa do clima? Isto é demasiado parecido com a seguinte situação: dois sujeitos estão prestes a andar à porrada e o mais forte é afastado pelos amigos e outro fica logo todo fanfarrão. Muitas vezes ao ponto de dizer, “Eu vi logo que o gajo 'tava-se a armar. Era mais que certo que eu lhe fazia a folha”
Por fim: “Não poderia dizer sobre o assunto uma única palavra”? Tudo bem que o Presidente da República não pode falar como qualquer um, mas quem é que fala assim? Ou melhor, quem é que escreve assim? Isto é demasiado parecido com um mini-discurso memorizado para soar espontâneo. Um pouco mais de naturalidade não lhe fazia mal nenhum.

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