19/07/10

TERMINUS 122: O DESPRIMOR DA CORRUPÇÃO

Aprecio deveras a existência daquela barreira entre a realidade e a ficção. Detesto quando essa barreira é desrespeitada e certos assuntos, que mais parecem retirados duma telenovela, saltam para a ribalta.
Uma magistrada dos submarinos tem relação com líder de entidade que fez peritagem de processo. E depois? Acham que é por aí que a coisa vai descambar? Querem ver que é que agora que vamos descobrir que a corrupção não teve nada a ver com o caso? Que tudo não passou duma história de amor?
Para alguns isto deve parecer muito bonito – e aposto que vão passar a acompanhar o caso com mais atenção – mas esquecem-se do descrédito que isto causa às nossas instituições. A corrupção atravessa uma bela fase no nosso país, tem feito muito pela nossa imagem lá fora e não merecia ser tratada desta forma.
A corrupção é boa para a economia. A pessoa corrompida recebe dinheiro para fazer algo pelo corruptor. Com o dinheiro que recebe pode ir às compras e isso ajuda ao desenvolvimento do comércio. Às vezes, a pessoa é corrompida para permitir que o corruptor faça algo. Nesta situação, além do corrompido continua a ter dinheiro para investir, aplica-se uma particular forma de acordo laboral que muitos patrões não desdenhariam: pagar para trabalhar. Imagino alguns patrões a lerem estas palavras e a pensarem, Ahhh, se fosse possível...
É desmotivante o Caso dos Submarinos, depois de tanta polémica, de tanta notícia, de tanto relatório, acusação, etc., estar em risco de ser anulado devido a uma relação amorosa. Não apenas pelas razões que já adiantei, mas por todas as mudanças que daqui virão.
A comunicação social em Portugal divide-se em três focos: a que investiga e publica notícias relevantes, a que tenta fazer isso e não consegue e a que relata cenas da vida privada. Eu esperava que este caso tivesse o percurso habitual que todos os casos polémicos costumam ter. Manchetes em jornais de grande tiragem, artigos em revistas semanais de renome e, por fim, um decrescer do interesse jornalístico na matéria até esta não ser mais do que informação consultável via Internet. Aconteceu com o Caso Freeport, com o Caso Portucale, e com muitos outros.
É lamentável, mas esta história vai passar para as revistas do social. Vamos passar a conhecer a vida da magistrada e do seu namorado. Vamos ver fotos da casa dele e dela. Descobrir que taras sexuais é que os movem. Se acreditam em Deus ou nos Signos do Zodíaco. Como ficaram comovidos com a morte duma figura pública que não lhes dizia absolutamente nada. Enfim, todos os fâit-divers que são expectáveis (e não “esperáveis”, como alguém disse) em publicações dessa estirpe.
Este caso interessava-me enquanto era notícia, agora que é uma telenovela terei de arranjar outra coisa para ocupar o tempo.

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