19/07/10

TERMINUS 123: OIÇA, OU SAIA OU ARRANJE-ME UM LUGAR

Costuma-se dizer que quem não chora, não mama. Perdoem-me os mais sensíveis pela linguagem, mas os ditados populares são como são.
Tentei ouvir o debate sobre o Estado da Nação enquanto este decorria. Infelizmente, a essa hora eu estava a trabalhar – ao contrário de muitos dos presentes no Parlamento; excepção feita ao pessoal do Bar e outros serviços – e só consegui escutar o rescaldo quando cheguei a casa.
Já se sabe que nestas coisas de debates nunca se chega a um consenso. O Governo diz que está tudo bem, a Oposição diz que está tudo mal. Com mais ou menos surpresa, cada facção defende o seu ponto de vista. Não se espera nada de novo vindo daqui.
Porém, como eu costumo dizer, a política é como a vida: quando menos esperamos, somos surpreendidos. E de que maneira!
O que o Paulinho fez parece próprio de um bipolar, mas tem muito que se lhe diga. Por um lado, manda o chefe do Governo sair; por outro, pede a esse mesmo chefe que lhe arranje uma cunhazinha no executivo. Aliás, não pede só para ele. Pede para o amigo também. Ou conhecido. Ou pessoa de outra força política muito semelhante à sua. E à do Governo também. Isto não é para qualquer um.
Imaginem isto acontecer noutros cenários sem ser na política. Numa reunião de accionistas, por exemplo. O CEO está reunido com os accionistas a apresentar os resultados do período anterior e o modo como as suas decisões levaram a empresa até àquele ponto. Tudo muito calmo, muito solene. Algumas perguntas de vez em quando, nada de mais.
De repente, entra o Paulinho por ali adentro e diz: “Não oiçam o que este senhor diz que é mentira! Devia ter era vergonha na cada! A mentir aos senhores accionistas desta maneira!”
E depois aproxima-se do CEO e diz-lhe, “Oiça lá, não me arranja aqui um lugarzinho? A tirar cópias ou assim? Ah! E já agora, se pudesse ser, veja lá aí qualquer coisa para o meu vizinho. Você sabe quem ele é. Costuma ter aulas de tango consigo.”
Fico contente por isto não acontecer no mundo empresarial, embora não deixe de lamentar por acontecer no mundo da política. Paulo Portas tem um sonho e por isso arriscou a sua sorte. Ele quer que o Primeiro-Ministro abandone o cargo e, ao mesmo tempo, lhe arranje um lugar no Governo. Um sonho estranho, é certo, mas não estamos aqui para julgar. Talvez o seu desejo se concretize. Coisas mais inesperadas já aconteceram.

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