27/07/10

TERMINUS 127: AS RAZÕES INVOCADAS

O Bispo auxiliar de Lisboa e presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social, D. Carlos Azevedo, apelou aos políticos cristãos para que doassem vinte por cento do salário para um fundo social destinado aos pobres. Num bonito gesto de solidariedade, políticos da esquerda à direita foram solidários na recusa do apelo. E ainda dizem que a classe política não é capaz de se unir por valores mais altos!
A deputada Teresa Venda justificou a sua posição com argumentos um bocado forçados
Não posso doar uma parte do meu ordenado como deputada porque já dou parte para ajudar uma família em concreto.”
Dum ponto de vista superficial, quase que dá vontade de rir; do meu ponto de vista dá mesmo vontade de rir. Que se recusem a doar vinte por cento do seu salário é algo a que só aos próprios diz respeito. Não querem dar, não dão e ponto final. O problema começa quando se tentam justificar.
A senhora deputada não quer doar parte do seu ordenado como deputada porque já dá uma parte para ajudar uma família em concreto. Qual família? Provavelmente a sua. O exemplo começa sempre em casa e se Teresa Venda não for boa para os seus, não será para os outros. Aliás, é por ser boa para os seus que se recusa a ser boa para os outros.
A proposta de alteração de feriados apresentada pela deputada, que iria criar mais quatro dias de trabalho por ano e aumentar o Salário Mínimo Nacional, pretendia combater esse problema. De fora só ficariam aqueles pobres que nem têm dinheiro para trabalhar. (É bem feito! Não trabalham, também não recebem.)
A Igreja quer mais um subsídio, mas a pobreza resolve-se com o atender às condições específicas de cada família, porque cada família é um caso.” Acho bem. Lá porque são pobres, isso não quer dizer que devam ser todos tratados da mesma maneira. Alguns pobres precisam de 109 euros por mês, outros de 111. São valores totalmente díspares que obrigam cada caso a ser devidamente analisado.
Maria José Nogueira Pinto não recusou o apelo; entendeu-o como um estímulo à consciência social. Em termos práticos isso quer dizer o quê? “Eu não doo, mas estou consciente de que há pobrezinhos”?
Restam aqueles que não se esquivam, mas atiram parte da batata quente para outros. CDS-PP e BE partilham da opinião que o apelo é feito, não só aos políticos, mas a todos os que têm dinheiro. Esta consonância de opiniões não significa, necessariamente, uma consonância de razões. É como uma conta de matemática. 3+1 pode dar 4, mas 2+2 também produz o mesmo resultado.
Manuel Alegre disse que já desconta muito nos impostos e que “pagar impostos é necessário porque esse é o primeiro dever dos cidadãos”. Já que em Portugal quase que não há fuga aos impostos, nem desvio de fundos, nem branqueamento de capitais, fico mais descansado. Se em vez de usarem argumentos da treta tivessem dito logo isto, a coisa teria ficado resolvida. Deixava de haver matéria para este artigo, mas pronto. Eu fazia o sacrifício.

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