31/07/10

TERMINUS 129: EXPRESSÕES QUASE REGIONAIS

Existem algumas expressões que me fazem confusão, ditos populares cuja origem eu desconheço e cujo propósito eu não desvendo. Rosado sol posto, cariz bem disposto. Lua com circo, água traz no bico. Nunca faças nada sem consultares a almofada. Quem tem medo compra um cão. E por aí fora.
E depois existem aquelas expressões que, além de não terem uma origem ou um propósito popular associado, deixam-me extremamente irritado. Não é bem a expressão em si que me irrita, é mais a sua constante repetição. Assim que eu me explicar melhor, o leitor de certeza que entenderá ao que me refiro.
Sabe aquele amigo ou conhecido de longa data, ou colega de trabalho, aquela pessoa que, sempre que o vê, o recebe sempre com a mesma expressão? É disso que eu estou a falar. No meu caso, a frase em questão é: 'Tás fixe ou vais para Peniche?
Começo pela pergunta mais óbvia e que é: uma pessoa que não está fixe é porque vai, obrigatoriamente, para Peniche? Eu já tenho estado não fixe por ir para outros sítios que não Peniche. Sempre que tenho de acordar cedo para ir, seja para onde for, não vou fixe. Outra! As pessoas fixes são só aquelas que não vão para Peniche? De onde vem este rancor que rotula as gentes de Peniche de pessoas não fixes? Parem com isso.
Eu já fui a Peniche. Não posso falar da minha experiência nessa terra, porque era ainda criançola quando lá fui, mas duvido que os penicheiros apreciem ver a sua terra associado a um dito depreciativo.
Dizer 'Tás fixe ou vais para Peniche? faz tanto sentido como dizer 'Tás mouco ou vais para o Samouco?, 'Tás porreiro ou vais para Aveiro?, 'Tás afoita ou vais para a Moita?, 'Tás com medo [pronunciado mêde] ou vais para Cantanhede?. E ainda: Perdeste o balde ou vais para Mangualde?, Queres hortelã ou vais para a Sertã?.
Quem são os autores desta frase? Quem é que na sua inspiração, criou este dito que atravessa gerações e regiões? Essa pessoa estará ainda viva. Provavelmente não. E provavelmente terá morrido de demência a julgar pelo legado que deixou.
A quem me lê, a quem tenta criar ditos semelhantes, aqui fica um esclarecimento:
Não pretendo frases com sentido. Tendo em conta o que já existe, é impossível esperar por isso. O que eu desejo que houvesse são mais frases. Podem ser mais parvas e com menos sentido do que aquelas que são ditas de norte a sul do país, mas se forem simples o suficiente para alguns menos dotados conseguirem aprenderem mais duas ou três frases, talvez eu não hesitasse tanto em ir a determinados sítios, certo de que vou lá encontrar a mesma ave rara de sempre que me vai receber com o seu irritante 'Tás fixe ou vais para Peniche?

Sem comentários: