21/08/10

TERMINUS 147: INFORMAÇÃO EM AGOSTO

Num qualquer dia do mês de Agosto abrimos um jornal e é isto que lemos:
Governo pondera sacrificar raparigas virgens para diminuir o défice. Vai ser difícil nos dias de hoje, mas nunca se sabe.
Finanças detêm sem-abrigo por suspeitas de rendimentos não declarados. Veio-se confirmar mais tarde que aqueles dois cêntimos não foram ofertados e sim encontrados por acaso. Após o pagamento da respectiva taxa, o sem-abrigo pôde ir à sua vida.
Numa aldeiazinha bem no interior do país, uma velhinha queixa-se de não ser abusada ou aldrabada por ninguém. A senhora pede ajuda para fazer participar num daqueles programas de plásticas para, e cito, “ver se alguém me pega”.
Empresas de lavagem de dinheiro abrem concurso para escolha de novo detergente. A decisão final terá lugar daqui a três dias e contará com a presença da ASAE para verificar se o dinheiro fica mesmo bem lavado.
Estudo conclui que Fármaco anti-tabaco causa suicídio. Um outro estudo indica que o preço também.
Em Moimenta da Beira, foi detido um homem suspeito de ter morto os próprios pais à machadada. Quando levado perante o Juiz, o homem pediu clemência uma vez que era órfão.
Mais uma notícia inesperada. Uma mulher caiu do sexto andar e morreu. O que vale é que teve morte rápida.
Associação de Mutilados de Guerra cessa funções. Nas palavras do director Semedo Lopes, “O projecto já não tinha pernas para andar.”
No campo da ciência, foram publicados dois estudos muito interessantes. No primeiro um grupo de peritos em gastronomia conclui que “Comida de plástico afinal não é de plástico” No segundo, cientistas descobrem que “se não respirarmos, morremos”.
No desporto não se passou nada hoje. Mas houve rumores de um campo pelado preso por atentado ao pudor. Tentaremos desenvolver mais esta notícia durante as próximas horas.
Segue agora uma sugestão cultural: “Coisas doces sem açúcar”, o best-seller de Manuel Luis Goucha, vai ser adaptado para teatro de marionetas. A encenação do espectáculo ficará a cargo de Filipe La Féria. Confirmada está já a presença de Diogo Morgado como a bavaroise de ananás e de Soraia Chaves como a mousse de marmelos.
Por fim, uma história curiosa para todos nós pensarmos um pouco. Isaías Montevideu, desempregado e desconfiado, vivia sozinho. Os dias eram difíceis, o futuro pouco promissor. Rezava por uma oportunidade, uma chance de melhorar a sua vida. E um dia a sorte grande bateu-lhe à porta, mas como tinha ar de ser testemunha de Jeová, Isaías não abriu. E foi expulso ontem de casa por não ter pago a renda dos últimos seis meses.
A informação segue dentro de momentos.

TERMINUS 146: EXPRESSÕES E REACÇÕES

O Carlos é um amigo meu que se irrita muito facilmente. Qualquer coisinha, fica logo virado avesso. Não é bonito de se ver, mas tem a sua piada. Às vezes é engraçado olhar para ele quando está irritado. Quer dizer, eu gosto. Porque ele diz cenas que... Do género, o Carlos chega-se ao pé de mim uma vez e diz-me:
Eh pá! Hoje de manhã quando ia pó trabalho, um gajo meteu-se à minha frente, quase que o ia atropelando. Passei-me logo!”
Há muita gente que diz isto: “Passei-me!”
Isto é impossível! Ninguém se consegue passar. É impossível! Imaginem: eu vou na rua, vejo uma pessoa e passo por essa pessoa. Essa pessoa passa por mim. Mas eu nunca, nunca, passo por mim mesmo. Nem que seja um clone, irmão gémeo ou alguém que a gente conheça muito bem. Mesmo que eu me cruze com algum eu passado ou futuro, não sou eu.
Faz-me alguma impressão, também, aquelas pessoas com aquela mania estúpida de não falarem às pessoas quando as vêem, só para depois poderem dizer:
Vi-te no outro dia.”
Como se eu fosse o Homem Invisível e eles me tivessem apanhado na única altura em que eu deixei ver.
Eu respondo-lhe sempre da mesma maneira:
Vai-te catar!”
Não é simpático. Talvez não.
São também estas pessoas que quando vêem alguém conhecido, fingem que não vêem, e depois vêm dizer:
"No outro dia passaste por mim. Porque é que não me falaste?"
"Porque passei por ti. Se tivesse esbarrado em ti, teria reparado em ti. E aí já te falava."
Mas pior que estas são aquelas que não nos deixam ir. Ficamos ali a responder às perguntas delas. Parece um interrogatório da PJ. Não as podemos levar a sério. Temos de lhes mostrar que temos pressa. Podemos tentar ser educados.
Olha, gostava imenso de continuar a conversar sobre o teu quisto. Tenho a certeza que há muitos tidbits interessantes que ainda não me contaste. Infelizmente, tenho um compromisso para o qual não me posso atrasar.”
Às vezes, temos de mentir:
Vou ali, venho já.”
E não voltamos. Mas quase sempre, temos de ser brutos:
Porra! Além de chato, cheiras mal como tudo!”
E vamos embora. Tranquilos, sem olhar para trás. É deixá-los ficar onde estão. Eles hão-de perceber o que aconteceu, mais tarde ou mais cedo.

TERMINUS 145: A FUNÇÃO DA CRÍTICA

Dentro de poucas semanas, o meu primeiro livro estará em circulação. Posso adiantar-vos que é um romance policial com algum fantástico à mistura. Falarei mais acerca disto nos próximos tempos. Por agora, vou falar daquilo que eu mais gosto no mundo da literatura, a seguir à leitura e à escrita: as críticas. Eu gosto de ler críticas. Gosto muito. Não daquelas que me ajudam a decidir sobre a possibilidade de comprar ou não um livro, mas das outras que não se percebe nada.
Exemplo: “Trata-se de um livro onde o autor explora um mundo de sentimentos ambíguos movido por uma exorbitância de sentimentos plena rodeada de uma sensibilidade magneticamente extrema elevada ao apogeu do ser humano.”
Sim, é tudo muito bonito, muito épico, mas e... a história? Onde é que está a história? Se calhar estão à espera que eu leia esta crítica e pense “Olha! É mesmo este que eu vou comprar.”
A verdade é que as críticas não servem para vender os livros. Podem ajudar em alguns casos, mas não é essa a sua principal função. Quando estava a escrever o meu livro, descobri que função é essa e posso dizer que devo ser o único que percebeu isto. Portanto, é meu dever informar-vos do seguinte: a crítica serve para alguns autores perceberem do que é que os seus livros tratam.
Eu sei contar a minha história se me perguntarem. Com mais ou menos palavras. Porém, há escritores que não conseguem. Falam da intenção da história, da sua essência, mas sobre o enredo em si, não conseguem dizer nada de jeito. Alguém pergunta, “Então e o seu novo livro é sobre o quê?” E ele responde, “Bom, então isto é... a história... de um homem... que anda à procura da sua identidade. E no fim encontra-a.”
O que é que isto nos diz? Um tipo perde uma carteira com os documentos todos e no fim encontra-a. Talvez encontre só o BI.
Ora, quando o autor não sabe explicar o seu livro, o que é que ele faz? Vai ter com o crítico e pede-lhe para escrever uma crítica ao seu livro. E o crítico, tudo bem.
Depois, o autor lê a crítica e descobre que afinal “o livro é uma amálgama de sexo e violência explorada de forma sensacionalista, cujo intuito é a degradação dos costumes morais da sociedade portuguesa e o incentivo deliberado à devassidão total.”
E o autor pensa: “Hum... e eu que até pensava que isto era uma história de amor. Tá visto que me enganei.”
Existem várias maneiras de conseguir boas críticas, excelentes críticas. Vou deixar-vos com algumas.
Convidar o crítico a escrever a sua opinião sob ameaça de pistola.
Raptar o crítico e sujeitá-lo a terapia de choques.
Raptar a mulher ou filho do crítico e ameaçar enviar pedacinhos por correio.
Fazer uma fotomontagem onde se veja o crítico com criancinhas ou a acender uma fogueira na floresta. Ou a queimar criancinhas numa fogueira na floresta.
Para começar é isto.

TERMINUS 144: OS MÉDICOS NÃO GOSTAM DE MIM E EU NÃO GOSTO DELES

Os médicos não gostam de mim. Olham-me de lado. Durante muito tempo não conseguia perceber porquê, até que um dia lá descobri.
Quando uma pessoa nasce, regra geral, o médico ou a pessoa que ajuda no parto dá sempre uma palmada no rabinho do bebé. Dizem que faz bem. Mas a quem? Um gajo está ali muito bem, dentro da barriga da mãe, decide mudar de ares, e a primeira coisa que lhe fazem é dar-lhe porrada? Bela merda de hospitalidade!
Eu sabia da palmada antes de sair e antes que o médico tivesse tempo de fazer fosse o que fosse, atirei-me de cabeça para o chão. Chorei que nem um desalmado, sofri um traumatismo craniano, mas mostrei-lhes quem é que mandava. Não tive praticamente sequelas desse pequeno incidente. É o passarinho! Piu! Piu! A minha vida tem sido igual a tantas outras. Normal e aborrecida, com intervalos de breve excitação.
O médico que ajudou a trazer-me ao mundo, não achou graça nenhuma àquilo, ficou todo lixado comigo. É por isso que quando vou a uma consulta ou fazer um exame, sempre que passa um médico por mim, olha-me sempre de lado. Às vezes vão dois a conversar e quase que os oiço.
Foi aquele. Amandou-se de cabeça.”
Ah! Sacana!”
É por isso que eles não gostam de mim. E eu também não gosto deles. Quer dizer, não é bem dos médicos que eu não gosto, é mais daquele momento, aquele grande e longo momento, no Centro de Saúde, ou no Consultório, onde esperamos por eles.
Eu não percebo nada de sintomas. Quando estou com excesso de muco, nunca sei se é gripe, se é constipação, ou se é resfriado. E como não sei vou ao médico. Não sei porquê, espero sempre que aconteça algo diferente durante a consulta. Mas não. “Ponha a língua de fora”, “Abra a boca”, “Diga 33” É sempre o mesmo discurso. Mais vale usarem um gravador.
E por tudo isto, ou, apenas por isto, melhor dizendo, pago 25 euros. Eu sei que é caro, mas já disse que não percebo nada de sintomas. Por isso, quando preciso de ir ao médico, não escolho um Dr. Bayard qualquer. De qualquer modo, 25 euros para descobrir que estou constipado... Mais valia deixar que a doença desaparecesse por si mesma. Ou, caso ela se afeiçoasse a mim, aprender a conhecê-la. Podia nascer dali uma bonita relação de amizade. Mais do que isso não. Sou um homem comprometido e a minha namorada não gostaria que eu a traísse com uma doença. Um café de vez em quando, uma conversa aqui e ali. Nada de muito íntimo. É o gatinho! Miau!
Qualquer dia vou ao médico quando estiver são que nem um pêro (Isto está mal. São é plural! Devia ser: são que nem uns pêros!) só para ver o que é que ele diz. Deve ser mais ou menos isto:
É impressão minha ou você está com o síndrome da saúde aguda? Olhe que isso é muito perigoso. Vou-lhe receitar uma pneumonia e uma bronquite. Assim que se começar a sentir mal, venha ter comigo, sim?”

16/08/10

TERMINUS 143: FÉRIAS INTERROMPIDAS PRA QUÊ?

Esta semana Cavaco Silva promulgou o diploma que altera a Lei das Uniões de facto. Em pleno mês de Agosto. Depois é assim que as coisas começam.
Atenção, eu não li nenhuma Lei das Uniões de facto, nem sei sobre que pontos Cavaco Silva terá ficado mais reticente. É uma questão que, por enquanto, não me diz respeito. Mas há uma coisa que me chateia. Já o disse várias vezes, a propósito do Pedrito dos Laranjas, e sendo Cavaco uma espécie de Padrinho (não no sentido funesto do termo) ou de Tio (não no sentido “beto” do termo), faz sentido que tenha de o dizer novamente.
Atenção ao timing.
Aníbal, posso tratar-te por tu? Eu não votei em ti nas últimas presidenciais, é verdade, mas se tu és o Presidente de todos os portugueses, que diabo pá!, isso é quase como seres meu vizinho. E eu trato os meus vizinhos por tu. Acho que insultar alguém recorrendo a “você” reduz bastante a fúria das palavras. É claro que isso não irá acontecer connosco. Em momento algum abusarei da nossa relação.
Agora que estamos mais à vontade, vou directo ao assunto.
Tu sabes que estamos em pleno mês de Agosto, não sabes? Sabes que é nesta altura que os políticos deixam de fazer nenhum (no sentido em que vão de férias)? Sabes também que as pessoas não estão minimamente interessadas com outra coisa além de Fogos, Praia e Futebol, não sabes? Ninguém vai ligar ao que tu promulgaste. Sabes disso, não sabes?
Então porque é que o fizeste?
Aposto que estiveste ontem acordado até às tantas, com a tua mulher a dizer-te “Anda pra cama, Aníbal.” E tu, em vez de ir, o que é que fizeste? Exacto, promulgaste. Pior! Promulgaste contrariado. O que já começa a ser hábito.
Quando foi do Casamento Entre Pessoas do Mesmo Sexo, disseste que eras contra mas aprovavas para a coisa não ficar a engonhar. Eu sei que não utilizaste o verbo engonhar em nenhuma declaração oficial. Porém, deixa-me imaginar que isso poderá ter acontecido em conversa privada. E não, não escutei nenhuma conversa. É uma suposição.
Tudo bem que não adiras à totalidade das soluções normativas consagradas no diploma legal que promulgaste, mas poças! Tens de ter um bocadinho de bom senso. Sem dúvida que esta é uma matéria que merece atenção e tu tens o teu trabalho a fazer. Ninguém está a pôr isso em causa.
A única coisa que eu peço, aconselho, melhor dizendo, é não tornares a interromper as férias. Sejam as tuas, para falar do Estatuto Político dos Açores; ou as nossas, para promulgar Leis com as quais não está totalmente de acordo. Estes são assuntos que podem esperar um dia ou dois, ou mesmo uma semana. Há outros em que, sim, tens de despir a farda de guia turístico e colocar o chapéu de presidente. Mesmo que depois não te sintas à vontade por não conhecer a pessoa, mesmo que fiques à porta. A não ser que calhe em Agosto. Se assim for, podes ficar à vontade.

15/08/10

TERMINUS 142: SUGESTÕES DE LEITURA PARA AGOSTO

Sei que o mês já vai a meio, mas ainda há tempo para vos deixar com algumas sugestões de leitura.


  1. APRENDA A DETECTAR PONTOS NEGROS
  2. FOTOGRAFIAS DE PESSOAS COM BORBULHAS
  3. COMO FALAR ALTO SEM INCOMODAR NINGUÉM
  4. COMO FUMAR EM LOCAIS FECHADOS SEM SER APANHADO
  5. COMO BEBER DUAS GARRAFAS DE WHISKY E NÃO SE LEMBRAR DE NADA NO DIA SEGUINTE
  6. UMA LISTA DE TODAS AS DESCULPAS USADAS POR PESSOAS ADÚLTERAS
  7. COMO ENGANAR MEIO MUNDO
  8. IMPRESSIONE O SEU PATRÃO COM MALABARISMO
  9. GUIA NOCTURNO DE TODAS AS CIDADES ONDE MORAM PESSOAS ESTRANHAS
  10. DEZ FORMAS INOVADORAS DE SODOMIZAR OVELHAS
  11. AUMENTE A SUA VIDA SEXUAL ATRAVÉS DE SUBSTÂNCIAS ILÍCITAS
  12. COMO DIZER À SUA MULHER QUE ELA JÁ NÃO É ASSIM TÃO BONITA
  13. COMO DIZER SEMPRE A VERDADE MESMO QUANDO NÃO CONVÉM
  14. TODOS OS CÓDIGOS DE BARRAS DE PRODUTOS FARMACÊUTICOS
  15. A NORMA ISO 9001 CONTADA ÀS CRIANÇAS
  16. BIBLIOTECONOMIA PARA TOTÓS
  17. FÁTIMA TEM OUTRO SEGREDO E NÃO DIZ A NINGUÉM
  18. O SEU DECOTE NÃO É ASSIM TÃO GRANDE
  19. APRENDA A DETECTAR IMPLANTES DE SILICONE EM TRÊS SIMPLES LIÇÕES
  20. OS PIORES FILMES DE SEMPRE A DUAS VELOCIDADES E MEIA

TERMINUS 141: DAS MAMAS AO PROTOCOLO E AO QUE REALMENTE IMPORTA

Os homens gostam de mamas. Políticos, empresários, trolhas, músicos, médicos. Todos gostam de mamas. Desde tenra idade que somos atraídos por essas protuberâncias; primeiro como fonte de alimento, mais tarde como fonte de prazer.
Alguns gostam tanto de mamas que até tomam hormonas só para terem umas mamas grandes só para eles. Chegam mesmo a usar soutien. Depois tiram fotos na brincadeira e gravam no computador e depois o computador é invadido por hackers e em menos duma semana a PJ vai bater-lhes à porta porque as fotografias tinham ido parar a um site de pedofilia e numa das fotos, através do reflexo num espelho, podia-se ver a silhueta duma criança a passar na rua.
A verdade é que podia ser alguém baixinho e não necessariamente uma criança. Mas a dúvida está lançada e em caso de dúvida só há uma coisa a fazer: deter o suspeito para prestar declarações e dar-lhe um enxerto de porrada na esquadra. São formas de protocolo.
Existem formas de protocolo ainda mais estúpidas como estar três horas a participar um roubo por esticão, enquanto se tenta perceber porque é que o polícia, em vez de perseguir o ladrão que passou por ele, se desviou para não levar um encontrão e deixar cair a cerveja, indicando à vítima do roubo que a esquadra mais próxima era só descer a rua e virar à esquerda.
O mundo está louco e ninguém sabe a quantas anda. Falo, não só de orientação, mas também de protocolo. O caso que falei reflecte exactamente isso.
O mundo dos pássaros é para quem acorda cedo. São questões de pontualidade. E no mundo do trabalho esta deve ser a palavra de ordem. Mesmo quando somos patrões, às vezes podemos dar-nos ao luxo de ficarmos na cama até tarde, outras vezes temos de chegar cedo para darmos o exemplo. É preciso também ter em consideração os transportes. O trânsito não perdoa, quer tenhamos carro próprio, quer sejamos utilizadores dos transportes públicos; e neste último caso existem ainda as greves.
As greves que, em termos de impacto, afectam primeiramente o utente do serviço em questão. Os sindicatos intervêm, vêm as manifestações, quase sempre a partir do Marquês de Pombal até ao Terreiro do Paço, os jornais fazem a cobertura. Os sindicatos anunciam uma adesão de 90%, o Governo anuncia uma adesão de 10%. Em que é que ficamos?
E depois da notícia da greve vem a notícia da senhora sem pernas que não consegue arranjar trabalho como motorista, o filho está preso por tráfico de droga e tá há um ano há espera do subsídio de desemprego. É o interesse humano que faz disto notícia, dizem uns; outros diriam que é o sensacionalismo. Notícias típicas de fazer a primeira página de alguns jornais diários ou semanários. E a ética jornalística previne ou tenta prevenir isso.
Um acontecimento é feito de pessoas, isso é inegável mas nem todos os acontecimentos são notícia. A vida da dona Alzira de Alcabideche interessa-lhe a ela e aos que são próximos dela. A mim não me interessa nada.

TERMINUS 140: CENAS DE CASAMENTO

Um amigo meu casou-se há pouco tempo. Convidou-me para ir, eu fui. Casou-se pela igreja. Foi uma cerimónia bonita. A comida estava excelente, não haviam chatos, estava tudo bom.
A única coisa que me irritou foram os pais dele na igreja.
O raio das pessoas não parava de chorar!
O filho estava-se a casar, a noiva era uma boazona que só visto e eles estavam ali duma maneira que mais parecia que estavam num velório. Porquê?
Lembram-se quando nós éramos pequenos e os nossos pais ralhavam connosco? E nós começávamos a chorar? E depois eles diziam
"Tá calado senão levas mesmo qué pra saberes porque é que choras!"
Digo-vos uma coisa, um dia que eu me case e os meus pais comecem a chorar durante a cerimónia, eu juro: páro tudo, vou ao pé deles e dou-lhes um enxerto. Para eles saberem porque é que choram.
Juro que não percebo essa choradeira.
Outra coisa que também não percebo o seguinte. Descobri no mesmo casamento. É uma tradição já antiga, pelos vistos e que é roubarem os bonecos do bolo. Não sei se já ouviram falar disto ou não, mas se ouviram, a minha pergunta é: Porquê?
O que eu acho estranho não é tanto o roubo em si – não deve haver um mercado negro muito grande para bonecos de bolo de casamento – mas quem leva os bonecos, e aqui vem a parte estúpida, tem direito a que os noivos lhe paguem um jantar um ano depois.
Mais estranho ainda, é eles saberem que vão ser roubados e mesmo assim convidarem pessoas para ir lá.
E se alguém roubasse o bolo e deixasse ficar os bonecos? Aí, o noivo já se queixava. Tinham-lhe prometido que seria ele o primeiro a comer o bolo da noiva, não havia de ficar chateado?
Pior, eles roubam os bonecos do bolo e recebem um jantar; e se em vez dos bonecos roubassem mesmo os noivos? O que é que iriam receber passado um ano? Não estou a falar de raptar os noivos, apenas de aproveitar que eles estão distraídos para lhes fanar a carteira. Continuam a ter direito a um jantar ou, uma vez que foram mais ousados, já estão habilitados a um fim de semana de férias?

TERMINUS 139: DUAS PEQUENITAS IDEIAS QUE ATÉ PODEM AJUDAR

Hoje trago-vos duas pequenas ideias que eu acho que merecem ser aproveitadas:
A primeira é esta.
Nos nossos Bilhetes de Identidade temos o nome, data de nascimento, nome do pai, nome da mãe, país de origem, estado civil, etc., etc. Não temos, e eu acho que fazia falta – não tanto como um Livro de Reclamações em Fátima para quando as orações não são atendidas, é verdade –, um espaço para o estado de espírito.
A ideia seria podermos lidar melhor com as pessoas. Se soubermos o estado de espírito de alguém é mais fácil de lidar com essa pessoa. O único senão é que como o nosso estado de espírito está sempre a mudar – eu às vezes chego a ter dois estados de espírito diferentes na mesma hora – o pessoal tinha de estar a ir sempre ao registo fazer a actualização do Bilhete de Identidade.
E com estas burocracias todas podemos imaginar o tempo que seria.
Sei que isto é uma ideia estúpida, mas eu posso dizê-la. Posso dizer a ideia mais estúpida que me vier à cabeça. Posso. Tenho liberdade para isso. Vocês têm liberdade para isso.
E isto leva-me à minha segunda ideia. Que é esta.
A liberdade de expressão é uma coisa bonita, mas tem os seus limites. A classificação etária, por exemplo, às vezes é ridícula. Nos Estados Unidos existe o Parental Advisory, que é uma etiqueta que se coloca em CDs e DVDs que contenham uma linguagem considerada ofensiva para mentes mais jovens.
Faz sentido. E ajuda nas vendas. É a fórmula do fruto proibido. Os pais não querem que os filhos oiçam, logo os filhos vão comprar.
A ideia é boa e não seria mal pensado trazermos isto para Portugal. Copiamos tantas ideias más, porque não copiar uma boa, para variar?
Mas eu não estou a pensar na música, deixem a música em paz. Eu penso que o aviso de linguagem ofensiva, pessoal a dizer asneiras, portanto, deveria ser colocado em discursos políticos. Estou a pensar no Direito de Antena e intervenções do Primeiro-Ministro ou do Presidente da Republica ou de qualquer outro político.
Em vez de "O espaço que se segue é da exclusiva responsabilidade das entidades intervenientes" seria "O programa que se segue poderá conter linguagem susceptível de ofender alguns dos nossos telespectadores." Num cantinho do ecrã um símbolo "Aviso de asneira". Faria mais sentido. E seria mais honesto.

TERMINUS 138: OS SALDOS / O VALOR DE UM CÊNTIMO / VALOR MATERIAL

Os saldos são aquelas alturas do ano em que as mulheres vão às compras comprar roupa só por ser mais barata. Só que não precisam. Elas têm três roupeiros em casa cheios de roupa, caixas com roupa debaixo da cama. Elas não precisam de comprar roupa – elas têm roupa para vender.
Se for fora da época de saldos, uma mulher chega à loja, olha para as peças e pensa: "25 euros por uma camisola para cães? Se eu alguma vez comprava isto..."
Chegam os saldos. Vão à loja, vêem a camisola. 10 euros.
"É minha!"
E ela não tem cão. É só por estar mais barata. E também para poder chegar junto das amigas e fazer inveja.
"Lembram-se daquela camisola que nós vimos à venda por 25 euros? Comprei-a por 10."
E as amigas ficam todas roídas de inveja.
É preciso saber escolher. Ver bem o preço. Embora haja preços que... Não se percebe. 4 euros e 99, cinco euros e um. O que é isso? Arredondem. É 5 euros e acabou-se. 4 e 99 é o preço mais estúpido que existe, porque nunca há troco. Nunca.
Lembram-se como era antes da chegada do euro? Quando eram preços tipo 999$ ou 998$50, já quando as moedas de 2”50 tinham saído de circulação, também nunca havia troco. Íamos aos hipermercados e nunca havia um escudo de troco. Nunca. E ninguém se importava. Era um escudo. Que diferença fazia um escudo?
No entanto, quando foi para fazer a troca de moedas, a quantidade de carros blindados que iam dos hipermercados para os bancos. Carregados de sacos com moedas de um escudo que ninguém tinha.
Ainda hoje, a cena mantém-se. Nunca há troco. E quando há, o pessoal nunca quer. Dizem sempre "Pode ficar com isso." Ninguém quer ficar com as pretas. Um cêntimo ainda vá, dois... tudo bem. Agora cinco? Deviam começar a fazer as moedas de 1 e 2 euros assim também, a ver se continuavam a ser esquisitos.
E quem dá gorjetas de 1 cêntimo, dá sempre com um ar condescendente, como se tivesse a dar uma fortuna de gorjeta. É a boa acção do dia para essas pessoas, só pode.
Só falta dizerem: "Veja lá, não gaste isso mal gasto."
O que me leva a outra questão: "em que é que se gasta um cêntimo? Um só?
Em nada. Absolutamente nada. As moedas de um escudo, as mais pequenas, serviam para apertar as armações dos óculos; as de um cêntimo nem para isso servem.
Se fosse eu a receber um cêntimo de gorjeta, daria a isso a importância necessária: "Uau! Já posso largar isto e pedir a reforma antecipada!"
Um cêntimo não vale nada. Se formos a ver bem, as coisas perdem o seu valor assim que passam a ser nossas. Um artigo em segunda mão é sempre mais barato. Mesmo que o dono só o tenha usado durante cinco minutos. Tudo perde o seu valor, principalmente quando nos é roubado. Eu diria que há uma necessidade quase imediata da pessoa se convencer que aquilo que perdeu, por muito caro que possa ter sido, não tinha qualquer valor.
Imaginem um casal. Quando a relação vai de vento em popa é tudo muito bonito. Mal acaba, é logo:
"Quem? Eu? Falar com aquela vaca? Nem que me paguem!"

TERMINUS 137: À ESPERA NA SEGURANÇA SOCIAL

Esta semana fui duas vezes à Segurança Social. Ir à Segurança Social é aquele momento em que ouvimos uma discografia completo, em que começamos e acabamos um livro de quatrocentas páginas, mas acima de tudo, é o momento em que se espera. E foi graças a essa espera que consegui, finalmente, entender a razão principal de se estar tanto tempo à espera.
Ao contrário do que é comum dizer, a culpa não é de quem atende. Podem ter alguma dose de culpa quando saem todos para almoçar e fica só um sozinho a atender. Porém, quando estão todos a atender, é um erro pensar que eles atendem devagar. Falo-vos por experiência própria. Eles têm tanta vontade de demorar a atender uma pessoa, quanto nós temos de estar ali.
Desta vez esperei um total de cinco horas para ser atendido, tanto no edifício da Segurança Social, como no café em frente e, durante esse período, observei algo que ajuda a explicar este problema.
Estava eu no café em frente, esperando pela minha vez, quando vejo um casal sair do edifício com um cesto de bebé. O casal atravessa a estrada e aproxima-se duma mesa na esplanada, onde estavam dois casais. Um dos casais pega no cesto e lá vão eles, com o mesmo puto, ser atendidos primeiro que eu!
Faço aqui uma pausa para frisar que isto não é nenhuma esquema perpetrado por minorias. Se era, deixou de o ser. Qualquer um recorre a este estratagema, desde que tenha meios para isso. O chico-espertismo, o desenrrascanço, são cenas que nos estão no sangue. Não hesito em admitir que, se tivesse os meios, faria o mesmo.
Quem entra na Segurança Social com um bebé ao colo, independentemente de ir levantar documentos (senha D, hora e meia de espera) ou de entregar documentos (senha A, três horas de espera), tem direito a atendimento prioritário. Há mais pessoas que têm direito a atendimento prioritário, é o caso de idosos e pessoas com deficiência, mas por agora, vou atacar apenas as mulheres com bebés de colo e as grávidas.
Das primeiras já falei. Quanto às grávidas, as únicas que eu tolero terem prioridade são aquelas cuja gravidez tenha resultado de violação. Aquelas que engravidaram por distracção, azar. Tivessem tomado qualquer coisa, tivessem usado qualquer coisa, tivessem dito não. Aquelas que engravidaram porque quiseram, minhas caras, fizeram a vossa escolha e eu respeito isso, mas não sou obrigado a ter de esperar ad infinitum por vossa causa. A prioridade deve ser dada a quem está numa condição involuntária. Se escolheram estar assim, então que esperem.
Deixo-vos com uma proposta para resolver este problema das esperas longas e que é: um carimbo de discoteca. Daqueles que só vêem com luz negra, sabem? A mãe entra com o miúdo, o segurança carimba-o e pronto. Das duas uma, ou passamos a esperar menos tempo na Segurança Social, ou vamos assistir a um baby-boom que vai fazer duplicar a população nacional. E aí bem poderemos esperar.

08/08/10

TERMINUS 136: OLHEM PRÓ QUINTAL DOS OUTROS, NÃO OLHEM PRÓ MEU. QUER DIZEM, OLHEM

Luís Amado, o senhor a quem José Sócrates, em tempos, deu um “ferro”, lamenta que “não se dê mais atenção no país ao que se passa no mundo”. Segundo o Ministro dos Negócios Estrangeiros português (continuo a falar de Luís Amado; só não disse porque achei que isso seria evidente), as questões internacionais são pouco debatidas pelos nossos políticos.
Estaremos nós, como infere Luís Amado, a olhar só para o nosso umbigo? É possível que sim.
O mundo atravessa uma era de constantes mudanças e estarmos desatentos em relação ao que se passa fora do nosso cantinho pode trazer-nos consequências graves. Em Portugal, como se sabe, as coisas chegam sempre tarde e a más horas. Nós podíamos, e devíamos, aprender com isso.
Podíamos só usar ou fazer aquilo que, de facto, resultava. Infelizmente, não isso que acontece. Nós insistimos em tentar fazer cá aquilo que não resultou em lado nenhum. Achamos que nos conseguimos desenrascar melhor do que os outros tipos que são uns atados. Além disso, aquilo que corre bem lá fora, também tentamos fazer; só que à nossa maneira. Regra geral, as coisas não costumam correr tão bem quanto o desejado.
Se fizéssemos como Luís Amado sugere e prestássemos mais atenção ao mundo que nos rodeia, saberíamos estar precavidos e, quem sabe, reagir atempadamente às situações. Se os partidos portugueses abandonassem a picardia e a baixa semântica e passassem à lógica construtiva e pró-activa, talvez as coisas começassem a correr melhor para todos, não apenas para eles.
Infelizmente, não são estas as razões que motivaram as declarações de Luís Amado. Como Ministro dos Negócios Estrangeiros interessa-lhe que, em Portugal, se debata sobre assuntos, lá está, estrangeiros. Se até José Sócrates, que é o seu chefe, o ignora, imagine-se como será tratado pelos seus congéneres europeus. É capaz de ser o Ministro dos Negócios Estrangeiros acerca do qual contam piadas quando não está presente, ou aquele a quem colam papéis nas costa, ou põem pioneses na cadeira.
Luís Amado pode estar a dizer aos portugueses para não se preocuparem só com o seu quintal. No entanto, ao dizer isto, está a fazer exactamente aquilo que diz aos outros para não fazerem. Bonito exemplo, sim senhor. Mas entendo-o perfeitamente. Dada a sua visibilidade, se não fosse assim, ninguém repararia nele.

TERMINUS 135: O QUE É ESSENCIAL

 Quando se fala em crise é inevitável falar-se da dificuldade, cada vez maior, que é a aquisição de produtos e bens essenciais à subsistência do ser humano. Geralmente, pensamos mais no petróleo. O aumento do preço do barril de crude serve de justificação para o aumento do preço dos combustíveis, como é sabido. Mas serve também para o aumento do preço de qualquer produto que não seja produzido na porta ao lado e que uma pessoa possa ir buscar usando apenas um robe e um par de pantufas.
(Estou a falar de rissóis ou filhoses e não daquilo que vocês estão a pensar.)
Em suma, o preço do petróleo aumenta, aumenta o preço do combustível e aumenta o preço de qualquer produto que seja transportado por um veículo movido a combustível fóssil.
Acostumámos-nos a esta justificação para o aumento do custo dos produtos. Há, no entanto, outras situações que também exercem a sua influência no aumento do preço das coisas. (Curiosamente não há nada que faça baixar o preço delas – tirando os saldos.) É o caso, por exemplo, do aumento do preço do trigo na Europa.
Porque é que o preço do trigo aumentou na Europa? Não sei, não faço a menor ideia, mas também não é importante. É uma daquelas curiosidades que não resolvem o problema, nem de atenuar as consequências do mesmo. É como alguém que ficou sem a casa num incêndio descobrir que a culpa foi duma vela que acendeu para disfarçar o cheiro do peixe frito. Só serve como argumento para os miúdos, que não queriam comer peixe, usarem a seu favor. “Vês mamã, se tivesses encomendado uma pizza nada disto teria acontecido.” Não deve existir nada pior para um pior do que ser repreendido, e com razão, pelo próprio filho.
No caso do trigo, o que importa analisar são os efeitos. Invocando, mais uma vez, a dificuldade de aceder a produtos essenciais, estima-se que este aumento não foi feito de forma descuidada e interesseira. Na verdade, verifica-se um rigor, de certo modo inesperado, na forma os produtos derivados do trigo aumentaram ou mantiveram os seus preços.
O pão, esse produto tão essencial da nossa alimentação, vai ficar mais caro. Todavia, a cerveja vai ficar ao mesmo preço. Calma! Não comecem já com teorias parvas sobre as cervejeiras terem mais dinheiro do que as panificadoras. Não é nada disso. Esta distinção entre o pão e a cerveja, pode não parecer mas, faz todo o sentido.
Reparem: se uma pessoa só tiver dinheiro para comprar pão, não se esquece que não tem dinheiro para comprar cerveja. Já uma pessoa que só tenha dinheiro para comprar cerveja, é capaz de não se lembrar de mais nada. Entendem? Não resolve o problema, mas deixa as pessoas bem-dispostas. Pelo menos, até ao dia seguinte.

TERMINUS 134: A INVEJA E A NÃO-NOTÍCIA

 Fico feliz quando os meus amigos estão bem, assim como feliz quando pessoas que não prezo estão mal. Não quero isto dizer que desejo que lhes aconteça mal, apenas que não me importo quando isso acontece.
Há também quem fique feliz com a felicidade de quem não conhece. Quanto a isso, nada tenho a dizer. Por outro lado, faz-me confusão alguém ficar feliz com a desgraça de pessoas que não conhece e que nunca lhe fizeram mal.
De acordo com o ranking da felicidade, o Paquistão está doze lugares à frente de Portugal. Julgava que a razão principal para aquele país do Médio Oriente estar na posição em que estava tinha mais a ver com o facto de possuir armamento nuclear do que propriamente com a felicidade dos seus ocupantes.
Uma semana depois de eu publicar este artigo, eis que somos brindados com notícias de cheias e mau tempo no Paquistão. Não sei quantos mortos, vários desalojados, muita destruição. Quero acreditar que é uma coincidência. Afinal de contas eles estão no Inverno. Mau tempo no Inverno nem chega a ser notícia já que é algo expectável. É como alguém cair do sétimo andar e morrer e fazer disso notícia de jornal. Notícia seria alguém saltar do sétimo andar, levantar-se, sacudir o pó da roupa e ir apanhar o autocarro. Tudo porque “o elevador estava avariado e pela janela era mais rápido”.
É verdade que o relato da informação não se deve limitar àquilo que é inesperado. Não me refiro ao insólito ou ao incrível, e sim a qualquer acontecimento de que não se está à espera. Por exemplo, qualquer caso envolvendo figuras públicas terminar com a absolvição dos réus ou com a sua prescrição. (Não tenho problemas se estes réus forem inocentes. No entanto, é curioso que as únicas pessoas já condenadas graças ao Processo Casa Pia, em processos paralelos, tenham sido monitores, auxiliares; enfim, “peixe miúdo”. E foram condenados em pouco tempo. Parece que a prova é algo que tem mais peso quanto menos dinheiro a pessoa tem.)
Como cidadão, como leitor de jornal, aceito que exista um desequilíbrio entre aquilo que é notícia e aquilo que é acessório. O que não aceito é que a balança esteja a pender para o lado do acessório. É verdade que às vezes não há nada para noticiar. Não se passa nada no mundo ou no país que possa levar um repórter a pensar: “Esta sequência de eventos teve um resultado inesperado e merece ser noticiada.”
José Sócrates envolver-se em mais um caso não é notícia. A não ser que seja algo como o Caso da Revista Gina. Isto não é informativo, mas é divertido. Não podem ser só notícias sérias. Precisamos de nos entreter. E o entretenimento de uns pode ser a infelicidade de outros. É por isso que não falamos do mau tempo no Paquistão nesta época do ano porque é notícia. Falamos porque temos inveja. É uma maneira camuflada de dizer: “Olhem pra eles, tão felizes que eles são! Tomem lá pra aprender!”

TERMINUS 133: OS PODERES DO PGR

 O Procurador-Geral da República, o senhor Pinto Monteiro diz que tem tantos poderes como a Rainha de Inglaterra. Estas informações foram devidamente divulgadas pela comunicação social, infelizmente pelas razões erradas. Falou-se muito da estrutura do Ministério Público, do compadrio do poder judicial com o poder político. Não se falou, e esse é um facto a lamentar, daquilo que o senhor Procurador-Geral da República disse mesmo.
Para um leigo, a afirmação de Pinto Monteiro, “tenho tantos poderes como a Rainha de Inglaterra”, é uma forma de dizer que se considera uma peça quase acessória na grande engrenagem que é a justiça portuguesa. É tipo uma rodinha ou uma anilha que tem o seu papel, mas se retirada da máquina, esta continua a funcionar. No caso da justiça portuguesa, assim como assim, com ou sem pecinha funciona mal sempre. No entanto, o que Pinto Monteiro disse, não só é inexacto, como também revela alguma ignorância da parte do senhor.
Estive a consultar a Enciclopédia de Poderes de Figuras Públicas, Nobres e Magistrais e na entrada para a Rainha de Inglaterra diz o seguinte:
A Rainha tem ar de velhinha simpática (desde os 8 anos) e gosta de pôr a mão no rabo dos líderes mundiais com quem já tirou fotografia. A única excepção a este evento aconteceu aquando da fotografia com Bill Clinton em que foi o Presidente americano quem pôs a mão no rabo do bumbum real. É também capaz de dizer coisas com nexo, apesar da idade.
Já na entrada de Pinto Monteiro, o que vem é algo bem diferente:
Pinto Monteiro coordena, dirige e fiscaliza a actividade do Ministério Público; emite as directivas, ordens e instruções a que deve obedecer a actuação dos respectivos magistrados. Tem competência para “fiscalizar superiormente a actividade processual dos órgãos de polícia criminal”. Pode “inspeccionar ou mandar inspeccionar os serviços do Ministério Público e ordenar a instrução de inquérito e processos criminais ou disciplinares aos seus magistrados.” Pode propor ao Ministro da Justiça providências legislativas com vista à eficiência do Ministério Público.
O que é que se conclui após uma análise destas duas entradas?
Em primeiro lugar, que a Rainha de Inglaterra pode parecer muito sonsinha, mas essas são as piores. E em segundo lugar, que Pinto Monteiro se queixa de ser parecido com uma velha – uma velha respeitável mas, ainda assim, uma velha – quando se devia queixar de não ser parecido com o Super-Homem. Ao Procurador-Geral da República, friso bem, República, não fica bem comparar-se a uma monarca. É como um vírus dizer “Faço tão bem como um canjinha.”
Insisto na teoria do Super-Homem porque acho que ficava muito melhor ao Procurador-Geral da República dizer que queria ter os mesmos poderes do herói de Kripton. E acredito que o Procurador não se importaria de ter esses poderes. Talvez não para resolver os problemas da justiça portuguesa, mas para, com a sua super-velocidade, mais facilmente fugir deles.

TERMINUS 132: SINTO-ME QUASE MAIS SEGURO

 Acho que é seguro dizê-lo: estamos seguros. Não completamente seguros ainda. Calma. Apenas seguros. O que já não é nada mau. É verdade, minha gente querida que eu adoro. O Tridente já chegou a Portugal e, não, não me refiro a nenhum actor de filmes pornográficos nascido nos arredores de Chernobyl; falo do submarino. O primeiro de dois que nos custaram mil milhões de euros e trocos. Já está no Alfeite, é bem bonito e faz-me sentir mais descansado.
Apesar de toda a polémica em torno da aquisição dos submarinos, da falsificação de documentos, das trocas e baldrocas que se sabem e das que não se sabem, eu acho que valeu a pena. Mais do que valer a pena, era algo que fazia falta.
Nos últimos anos, Portugal tem tido graves problemas de falta segurança. Principalmente no mar. Uma pessoa não podia ir dar um passeiozinho à noite que apareciam logo dois ou três pintas a cravar “trocos”. Sei que assaltos e essas cenas também acontecem em terra e acho que devia haver mais segurança em terra, mas a insegurança no mar era demais. Digo isto, com todo o respeito pelas pessoas que preferem passear em solo seco.
É por isso que eu estou contente por ter um submarino a patrulhar as águas internacionais. Da próxima vez que me apetecer ir dar uma volta subaquática, basta pegar no meu escafandro e ir até à praia mais próxima. Antigamente, quando queria ir passear debaixo de água e sabia que era uma perigosa, não arriscava. Ficava em casa, enchia o lava-loiça, enfiava a cabeça lá dentro e servia-me de um tubo de PVC (daqueles que se usavam antigamente para atirar cartuchos) como respirador.
Esta questão da segurança está, portanto, em vias de ficar resolvida. Ainda teremos de esperar mais alguns meses até que o segundo submarino, o Arpão, chegue a Portugal. Por enquanto, temos de nos governar com um único submarino de 500 milhões composto por uma guarnição de 34 militares (comandante incluído).
E é aqui que sou obrigado a fazer um reparo. Não sou sovina, apenas ponderado. Acho que se arranjava uma coisa mais em conta se for só para levar 34 pessoas, mais uma ou outra visita que possam lá ir. Se estiverem a contar ter mais tripulação daqui a uns tempos, ou se quiserem ter espaço para um salão de baile, eu entendo.
Fora tudo isso, tudo bem.