08/08/10

TERMINUS 134: A INVEJA E A NÃO-NOTÍCIA

 Fico feliz quando os meus amigos estão bem, assim como feliz quando pessoas que não prezo estão mal. Não quero isto dizer que desejo que lhes aconteça mal, apenas que não me importo quando isso acontece.
Há também quem fique feliz com a felicidade de quem não conhece. Quanto a isso, nada tenho a dizer. Por outro lado, faz-me confusão alguém ficar feliz com a desgraça de pessoas que não conhece e que nunca lhe fizeram mal.
De acordo com o ranking da felicidade, o Paquistão está doze lugares à frente de Portugal. Julgava que a razão principal para aquele país do Médio Oriente estar na posição em que estava tinha mais a ver com o facto de possuir armamento nuclear do que propriamente com a felicidade dos seus ocupantes.
Uma semana depois de eu publicar este artigo, eis que somos brindados com notícias de cheias e mau tempo no Paquistão. Não sei quantos mortos, vários desalojados, muita destruição. Quero acreditar que é uma coincidência. Afinal de contas eles estão no Inverno. Mau tempo no Inverno nem chega a ser notícia já que é algo expectável. É como alguém cair do sétimo andar e morrer e fazer disso notícia de jornal. Notícia seria alguém saltar do sétimo andar, levantar-se, sacudir o pó da roupa e ir apanhar o autocarro. Tudo porque “o elevador estava avariado e pela janela era mais rápido”.
É verdade que o relato da informação não se deve limitar àquilo que é inesperado. Não me refiro ao insólito ou ao incrível, e sim a qualquer acontecimento de que não se está à espera. Por exemplo, qualquer caso envolvendo figuras públicas terminar com a absolvição dos réus ou com a sua prescrição. (Não tenho problemas se estes réus forem inocentes. No entanto, é curioso que as únicas pessoas já condenadas graças ao Processo Casa Pia, em processos paralelos, tenham sido monitores, auxiliares; enfim, “peixe miúdo”. E foram condenados em pouco tempo. Parece que a prova é algo que tem mais peso quanto menos dinheiro a pessoa tem.)
Como cidadão, como leitor de jornal, aceito que exista um desequilíbrio entre aquilo que é notícia e aquilo que é acessório. O que não aceito é que a balança esteja a pender para o lado do acessório. É verdade que às vezes não há nada para noticiar. Não se passa nada no mundo ou no país que possa levar um repórter a pensar: “Esta sequência de eventos teve um resultado inesperado e merece ser noticiada.”
José Sócrates envolver-se em mais um caso não é notícia. A não ser que seja algo como o Caso da Revista Gina. Isto não é informativo, mas é divertido. Não podem ser só notícias sérias. Precisamos de nos entreter. E o entretenimento de uns pode ser a infelicidade de outros. É por isso que não falamos do mau tempo no Paquistão nesta época do ano porque é notícia. Falamos porque temos inveja. É uma maneira camuflada de dizer: “Olhem pra eles, tão felizes que eles são! Tomem lá pra aprender!”

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