08/08/10

TERMINUS 135: O QUE É ESSENCIAL

 Quando se fala em crise é inevitável falar-se da dificuldade, cada vez maior, que é a aquisição de produtos e bens essenciais à subsistência do ser humano. Geralmente, pensamos mais no petróleo. O aumento do preço do barril de crude serve de justificação para o aumento do preço dos combustíveis, como é sabido. Mas serve também para o aumento do preço de qualquer produto que não seja produzido na porta ao lado e que uma pessoa possa ir buscar usando apenas um robe e um par de pantufas.
(Estou a falar de rissóis ou filhoses e não daquilo que vocês estão a pensar.)
Em suma, o preço do petróleo aumenta, aumenta o preço do combustível e aumenta o preço de qualquer produto que seja transportado por um veículo movido a combustível fóssil.
Acostumámos-nos a esta justificação para o aumento do custo dos produtos. Há, no entanto, outras situações que também exercem a sua influência no aumento do preço das coisas. (Curiosamente não há nada que faça baixar o preço delas – tirando os saldos.) É o caso, por exemplo, do aumento do preço do trigo na Europa.
Porque é que o preço do trigo aumentou na Europa? Não sei, não faço a menor ideia, mas também não é importante. É uma daquelas curiosidades que não resolvem o problema, nem de atenuar as consequências do mesmo. É como alguém que ficou sem a casa num incêndio descobrir que a culpa foi duma vela que acendeu para disfarçar o cheiro do peixe frito. Só serve como argumento para os miúdos, que não queriam comer peixe, usarem a seu favor. “Vês mamã, se tivesses encomendado uma pizza nada disto teria acontecido.” Não deve existir nada pior para um pior do que ser repreendido, e com razão, pelo próprio filho.
No caso do trigo, o que importa analisar são os efeitos. Invocando, mais uma vez, a dificuldade de aceder a produtos essenciais, estima-se que este aumento não foi feito de forma descuidada e interesseira. Na verdade, verifica-se um rigor, de certo modo inesperado, na forma os produtos derivados do trigo aumentaram ou mantiveram os seus preços.
O pão, esse produto tão essencial da nossa alimentação, vai ficar mais caro. Todavia, a cerveja vai ficar ao mesmo preço. Calma! Não comecem já com teorias parvas sobre as cervejeiras terem mais dinheiro do que as panificadoras. Não é nada disso. Esta distinção entre o pão e a cerveja, pode não parecer mas, faz todo o sentido.
Reparem: se uma pessoa só tiver dinheiro para comprar pão, não se esquece que não tem dinheiro para comprar cerveja. Já uma pessoa que só tenha dinheiro para comprar cerveja, é capaz de não se lembrar de mais nada. Entendem? Não resolve o problema, mas deixa as pessoas bem-dispostas. Pelo menos, até ao dia seguinte.

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