15/08/10

TERMINUS 138: OS SALDOS / O VALOR DE UM CÊNTIMO / VALOR MATERIAL

Os saldos são aquelas alturas do ano em que as mulheres vão às compras comprar roupa só por ser mais barata. Só que não precisam. Elas têm três roupeiros em casa cheios de roupa, caixas com roupa debaixo da cama. Elas não precisam de comprar roupa – elas têm roupa para vender.
Se for fora da época de saldos, uma mulher chega à loja, olha para as peças e pensa: "25 euros por uma camisola para cães? Se eu alguma vez comprava isto..."
Chegam os saldos. Vão à loja, vêem a camisola. 10 euros.
"É minha!"
E ela não tem cão. É só por estar mais barata. E também para poder chegar junto das amigas e fazer inveja.
"Lembram-se daquela camisola que nós vimos à venda por 25 euros? Comprei-a por 10."
E as amigas ficam todas roídas de inveja.
É preciso saber escolher. Ver bem o preço. Embora haja preços que... Não se percebe. 4 euros e 99, cinco euros e um. O que é isso? Arredondem. É 5 euros e acabou-se. 4 e 99 é o preço mais estúpido que existe, porque nunca há troco. Nunca.
Lembram-se como era antes da chegada do euro? Quando eram preços tipo 999$ ou 998$50, já quando as moedas de 2”50 tinham saído de circulação, também nunca havia troco. Íamos aos hipermercados e nunca havia um escudo de troco. Nunca. E ninguém se importava. Era um escudo. Que diferença fazia um escudo?
No entanto, quando foi para fazer a troca de moedas, a quantidade de carros blindados que iam dos hipermercados para os bancos. Carregados de sacos com moedas de um escudo que ninguém tinha.
Ainda hoje, a cena mantém-se. Nunca há troco. E quando há, o pessoal nunca quer. Dizem sempre "Pode ficar com isso." Ninguém quer ficar com as pretas. Um cêntimo ainda vá, dois... tudo bem. Agora cinco? Deviam começar a fazer as moedas de 1 e 2 euros assim também, a ver se continuavam a ser esquisitos.
E quem dá gorjetas de 1 cêntimo, dá sempre com um ar condescendente, como se tivesse a dar uma fortuna de gorjeta. É a boa acção do dia para essas pessoas, só pode.
Só falta dizerem: "Veja lá, não gaste isso mal gasto."
O que me leva a outra questão: "em que é que se gasta um cêntimo? Um só?
Em nada. Absolutamente nada. As moedas de um escudo, as mais pequenas, serviam para apertar as armações dos óculos; as de um cêntimo nem para isso servem.
Se fosse eu a receber um cêntimo de gorjeta, daria a isso a importância necessária: "Uau! Já posso largar isto e pedir a reforma antecipada!"
Um cêntimo não vale nada. Se formos a ver bem, as coisas perdem o seu valor assim que passam a ser nossas. Um artigo em segunda mão é sempre mais barato. Mesmo que o dono só o tenha usado durante cinco minutos. Tudo perde o seu valor, principalmente quando nos é roubado. Eu diria que há uma necessidade quase imediata da pessoa se convencer que aquilo que perdeu, por muito caro que possa ter sido, não tinha qualquer valor.
Imaginem um casal. Quando a relação vai de vento em popa é tudo muito bonito. Mal acaba, é logo:
"Quem? Eu? Falar com aquela vaca? Nem que me paguem!"

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