21/08/10

TERMINUS 144: OS MÉDICOS NÃO GOSTAM DE MIM E EU NÃO GOSTO DELES

Os médicos não gostam de mim. Olham-me de lado. Durante muito tempo não conseguia perceber porquê, até que um dia lá descobri.
Quando uma pessoa nasce, regra geral, o médico ou a pessoa que ajuda no parto dá sempre uma palmada no rabinho do bebé. Dizem que faz bem. Mas a quem? Um gajo está ali muito bem, dentro da barriga da mãe, decide mudar de ares, e a primeira coisa que lhe fazem é dar-lhe porrada? Bela merda de hospitalidade!
Eu sabia da palmada antes de sair e antes que o médico tivesse tempo de fazer fosse o que fosse, atirei-me de cabeça para o chão. Chorei que nem um desalmado, sofri um traumatismo craniano, mas mostrei-lhes quem é que mandava. Não tive praticamente sequelas desse pequeno incidente. É o passarinho! Piu! Piu! A minha vida tem sido igual a tantas outras. Normal e aborrecida, com intervalos de breve excitação.
O médico que ajudou a trazer-me ao mundo, não achou graça nenhuma àquilo, ficou todo lixado comigo. É por isso que quando vou a uma consulta ou fazer um exame, sempre que passa um médico por mim, olha-me sempre de lado. Às vezes vão dois a conversar e quase que os oiço.
Foi aquele. Amandou-se de cabeça.”
Ah! Sacana!”
É por isso que eles não gostam de mim. E eu também não gosto deles. Quer dizer, não é bem dos médicos que eu não gosto, é mais daquele momento, aquele grande e longo momento, no Centro de Saúde, ou no Consultório, onde esperamos por eles.
Eu não percebo nada de sintomas. Quando estou com excesso de muco, nunca sei se é gripe, se é constipação, ou se é resfriado. E como não sei vou ao médico. Não sei porquê, espero sempre que aconteça algo diferente durante a consulta. Mas não. “Ponha a língua de fora”, “Abra a boca”, “Diga 33” É sempre o mesmo discurso. Mais vale usarem um gravador.
E por tudo isto, ou, apenas por isto, melhor dizendo, pago 25 euros. Eu sei que é caro, mas já disse que não percebo nada de sintomas. Por isso, quando preciso de ir ao médico, não escolho um Dr. Bayard qualquer. De qualquer modo, 25 euros para descobrir que estou constipado... Mais valia deixar que a doença desaparecesse por si mesma. Ou, caso ela se afeiçoasse a mim, aprender a conhecê-la. Podia nascer dali uma bonita relação de amizade. Mais do que isso não. Sou um homem comprometido e a minha namorada não gostaria que eu a traísse com uma doença. Um café de vez em quando, uma conversa aqui e ali. Nada de muito íntimo. É o gatinho! Miau!
Qualquer dia vou ao médico quando estiver são que nem um pêro (Isto está mal. São é plural! Devia ser: são que nem uns pêros!) só para ver o que é que ele diz. Deve ser mais ou menos isto:
É impressão minha ou você está com o síndrome da saúde aguda? Olhe que isso é muito perigoso. Vou-lhe receitar uma pneumonia e uma bronquite. Assim que se começar a sentir mal, venha ter comigo, sim?”

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