21/08/10

TERMINUS 146: EXPRESSÕES E REACÇÕES

O Carlos é um amigo meu que se irrita muito facilmente. Qualquer coisinha, fica logo virado avesso. Não é bonito de se ver, mas tem a sua piada. Às vezes é engraçado olhar para ele quando está irritado. Quer dizer, eu gosto. Porque ele diz cenas que... Do género, o Carlos chega-se ao pé de mim uma vez e diz-me:
Eh pá! Hoje de manhã quando ia pó trabalho, um gajo meteu-se à minha frente, quase que o ia atropelando. Passei-me logo!”
Há muita gente que diz isto: “Passei-me!”
Isto é impossível! Ninguém se consegue passar. É impossível! Imaginem: eu vou na rua, vejo uma pessoa e passo por essa pessoa. Essa pessoa passa por mim. Mas eu nunca, nunca, passo por mim mesmo. Nem que seja um clone, irmão gémeo ou alguém que a gente conheça muito bem. Mesmo que eu me cruze com algum eu passado ou futuro, não sou eu.
Faz-me alguma impressão, também, aquelas pessoas com aquela mania estúpida de não falarem às pessoas quando as vêem, só para depois poderem dizer:
Vi-te no outro dia.”
Como se eu fosse o Homem Invisível e eles me tivessem apanhado na única altura em que eu deixei ver.
Eu respondo-lhe sempre da mesma maneira:
Vai-te catar!”
Não é simpático. Talvez não.
São também estas pessoas que quando vêem alguém conhecido, fingem que não vêem, e depois vêm dizer:
"No outro dia passaste por mim. Porque é que não me falaste?"
"Porque passei por ti. Se tivesse esbarrado em ti, teria reparado em ti. E aí já te falava."
Mas pior que estas são aquelas que não nos deixam ir. Ficamos ali a responder às perguntas delas. Parece um interrogatório da PJ. Não as podemos levar a sério. Temos de lhes mostrar que temos pressa. Podemos tentar ser educados.
Olha, gostava imenso de continuar a conversar sobre o teu quisto. Tenho a certeza que há muitos tidbits interessantes que ainda não me contaste. Infelizmente, tenho um compromisso para o qual não me posso atrasar.”
Às vezes, temos de mentir:
Vou ali, venho já.”
E não voltamos. Mas quase sempre, temos de ser brutos:
Porra! Além de chato, cheiras mal como tudo!”
E vamos embora. Tranquilos, sem olhar para trás. É deixá-los ficar onde estão. Eles hão-de perceber o que aconteceu, mais tarde ou mais cedo.

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