26/09/10

TERMINUS 158: UMA COISA É OFENDER, OUTRA É CHAMAR NOMES

Têm sido muitas as vozes que se têm manifestado contra a pena de morte atribuída à iraniana Sakineh Ashtiani pelo crime de adultério. Pouco se pode dizer acerca deste caso que se contenha alguma comicidade. Já sobre situações paralelas, a história é outra.
Como é normal nestes casos de injustiça que ganham popularidade, às vozes do povo juntam-se também vozes de famosos e poderosos. Pessoas que, mais do que dizer, podem fazer algo para evitar que isto aconteça. A declaração mais recente veio da primeira-dama francesa, Carla Bruni, que defendeu publicamente os direitos da condenada Sakineh Ashtiani.
A parte engraçada vem agora, mas antes de passar isso, deixem-me fazer um pequeno aparte. O humor é contextual. O que, para nós, tem piada, para outra pessoa, pode não ter. A noção de crime e de ética segue o mesmo padrão. Continuando. Carla Bruni defendeu Sakineh Ashtiani. E o que é que aconteceu depois? O jornal Kayhan, assumindo-se como regente moral dos valores iranianos, referiu-se a Bruni como uma “prostituta italiana” que “merece a morte” pela sua “vida imoral”.
A piada está quase, calma.
Após as declarações de Bruni e do Kayhan, foi a vez do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad intervir. E ele interveio, considerando como crime, não alguém ser condenado à morte por cometer adultério APÓS a morte do marido, mas um jornal do seu país ofender uma dignidade estrangeira.
Que tipo de Islão permite isto?”, pergunta o Ahmadinejad. E com razão. A Carla Bruni é uma senhora atraente. Já a senhora Sakineh, talvez seja da roupa, mas não dá para perceber muito bem se o que está debaixo dos trapos é algo que faça um homem olhar para trás quando ela passa. Peço desculpa por ser tão insensível, mas é assim que as coisas são.
Não é uma questão de dizer se o que eles fazem no Irão é certo ou errado. Do nosso ponto de vista é errado, mas isso não conta para nada. A questão fulcral é: quais são as intenções de Ahmadinejad em relação a Carla Bruni? Parece-me que ele está a fazer-se ao lance. Por duas razões. A primeira, porque pode. No Irão, ele pode ter as mulheres que quiser; ainda para mais, sendo ele presidente. A segunda, porque Carla Bruni não tem estado nas notícias por fazer coisas muito acertadas.
O dia em que Carla Bruni chegue a casa e tenha os sacos do Modelo à porta poderá não estar muito distante. Ahmadinejad assim o espera. E quando isso acontecer, ela lembrar-se-á de quem considerou crime um jornal ofendê-la por ela ter defendido a vida duma mulher.
Estas são situações que podem gerar alguma controvérsia diplomática e que só pecam por tardias. Afinal, a silly season já terminou há quase um mês.

TERMINUS 157: UMA QUESTÃO DE (DES)ENTENDIMENTO

Ponto de situação: o país está congelado pelo medo. Os nossos responsáveis líderes políticos bem que nos tentam avisar, mas nós não ligamos aos seus avisos. Após um início auspicioso, em que até dançaram juntos (um deles chegou a ir a Espanha tecer elogios ao seu opositor, o que é uma atitude um pouco estranha, mas que parece bem), Sócrates e Passos Coelho não se entendem quanto ao Orçamento. O PS quer aumentar os impostos, o PSD quer diminuir a despesa, ambos dizem que não aprovarão o Orçamento de Estado se as suas propostas não forem aceites.
No meu tempo, se eu fizesse birra como estes dois estão a fazer, levava uma galheta e ficava o assunto resolvido. "Não quero comer peixe!" dizia eu. E diziam para mim, "Não queres, vais para o quarto sem jantar." Pretendo com isto dizer que o senhor Cavaco devia dar um puxão de orelhas a estes dois garotos? Nada disso. Já são crescidos demais; não ia adiantar nada.
Uma vez que já são crescidos e sendo que não podemos lidar com eles como se crianças fossem, o que se pede a José Sócrates e a Pedro Passos Coelho é uma atitude responsável e que se deixem de merdinhas duma vez por todas. Não ficava mal e o país agradecia.
A consequência, ou uma das consequências, mais imediata da não-aprovação do Orçamento de Estado é a vinda do FMI para Portugal. Sobre isso, muitos líderes, comentadores, ex-titulares de órgãos de soberania, etc., têm dito horrores. "É o fim do mundo!" Cada um defende o seu ponto de vista, não reconhecendo qualquer aspecto válido nos argumentos dos opositores.
Poderá parecer uma atitude pouco alarmista, mas os nossos políticos têm razões para temer a vinda do FMI para Portugal. Ter alguém a gerir as nossas contas públicas de forma responsável, sem meter dinheiro ao bolso (aqui, talvez me engane), seria quase como um choque térmico. A resultar colocaria a nossa classe política numa posição de muita fragilidade, embore eu ache que a principal razão para esta aversão ao FMI é por ser "gente de fora".
Para evitar a vinda do FMI é preciso aprovar o Orçamento e, para isso, é preciso que PS e PSD se entendam. Ora, eu até sou um rapaz novo, mas ainda sou do tempo em que o PS e o PSD se encontravam em lados diferentes do espectro político. Em teoria (friso, em teoria), são partidos opostos. A que ponto chegámos nós em que é preciso dois opositores de ideais opostos colocarem de parte as suas diferenças e chegarem a um entendimento?
Qual atitude responsável, qual quê! Homem que é homem, resolve os seus problemas à pêra! Não é cá com falinhas mansas! "Olha, se não fazes isto eu não aprovo o Orçamento!", "Ai é? E tu se não me deixas fazer isso, eu vou-me embora!" Façam-se homens e andem à porrada. Poderia não resolver nada à mesma, poderíamos continuar num impasse, mas sempre animava um pouco as coisas.

22/09/10

TERMINUS 156: MEMÓRIAS DE INFÂNCIA #1

O stress pode ser evitado se tivermos um bom despertador. Digo eu. O meu despertador é daqueles electrónicos. Acordo sempre com aquele irritante som do alarme. A primeira coisa que faço é desligá-lo. Quando isso não resulta, o melhor a fazer é pegar nele e atirá-lo contra a parede.
Gostava de ter um despertador que abrisse a janela do meu quarto e deixasse a luz do sol entrar devagarinho, que se aproximasse de mim e me tocasse gentilmente nas costas, suspirando no meu ouvido:
Acorda. Tens que ir fazer o teu serviço. O mundo precisa de ti.”
Já pensaram como seria ter um despertador assim? Sentir-nos-íamos mais importantes, não era? Ficávamos com mais ânimo ao levantar.
Quando eu era pequeno, o meu despertador era a minha mãe. Ela entrava no meu quarto, acendia a luz, puxava os lençóis para trás e gritava: “Vá! Toca a acordar!”
O problema não era puxar os lençóis. A mudança de temperatura não era muito importante. A não ser no Inverno. Costumava dormir com dois cobertores em cima e de repente ficava sem nada. Nada. Um lençol, dois cobertores e um édredon em cima e depois... nada.
O maior problema deste tipo de despertador era eu não poder colocar a minha mãe no modo standby. Seria tão bom, tão prático. Carregava no botão e a minha mãe ficava tipo estátua. O pior era se me enganasse e carregasse no snooze. Passado um bocado voltava tudo ao mesmo. Depois, lá acordava.
Tinha de ir de autocarro para a escola. Às vezes perdia o autocarro e tinha de ficar meia hora à espera do próximo. Não podia apanhar boleia de ninguém, porque a minha mãe dizia-me sempre para não aceitar boleias de gente estranha. E no sítio onde eu moro, o que não falta são pessoas estranhas.
Mas estas recomendações são bastante comuns. Os pais diziam sempre isso, não era? E os de hoje também. Às vezes, com razão. Quem ouviu isso enquanto filho, dá por si a fazer o mesmo aviso enquanto pai.
Não aceites boleia de estranhos. Se não tiveres dinheiro para o autocarro, chama um táxi que nós depois pagamos.”
Nunca ouviram isso? Eu gostava. Quando era novo, não prestava muita atenção, mas agora, pensando bem, é um pouco contraditório. Eu não podia aceitar boleia de estranhos, mas não havia problema nenhum em entrar num táxi, com um sujeito que eu não conhecia de lado nenhum, e dar-lhe dinheiro para ele me levar até à escola, ou até casa.
E se o taxista for um assaltante ou, mesmo, um assassino? Há umas semanas atrás, em Londres, um taxista passou-se dos carretos e matou várias pessoas a tiro. Temos a ilusão de que ele não nos vai fazer mal só por lhe estarmos a a pagar. Não é uma garantia muito segura, pois não?

TERMINUS 155: ATAQUE FRONTAL POR UMA OPOSIÇÃO REALISTA E RESPONSÁVEL

Pedro Passos Coelho começou a atacar em força o Governo. É preciso mudar de Executivo, diz o Pedro. Hum... Espera lá. É impressão minha ou este inchar de peito apareceu só depois de passar o prazo em que o Presidente Cavaco podia dissolver a Assembleia? Pedrito, Pedrito, todo armado em fanfarrão para quê? O tio Cavaco já não pode mandar o menino Zé para o castigo. Se o provocas, tens de te ver com ele e olha que ele não é pêra doce.
Fico contente por saber que já falas em público sem ser às refeições. Não era por nada, mas essa barriguita já começava a ganhar uma certa proeminência. Se queres chegar a Primeiro-Ministro, não basta saber sorrir; a forma física também é muito importante. Atenção a isso.
Sobre as declarações propriamente ditas, Passos Coelho diz que necessário “ultrapassar preconceitos”. Concordo. Desde que isso não obrigue a ir por nenhuma SCUT. Da maneira que isso está, palpita-me que tão cedo não os apanharíamos.
Diz também que é preciso “estabelecer regras para actuar com base nas possibilidades existentes. Ora, até que fim! Até que fim que alguém tem coragem de dizer isto publicamente duma vez por todas! Eu sempre fui um defensor do estabelecimento de regras de actuação e sempre defendi que essas regras deviam ser definidas com base nas possibilidades existentes. O problema é que, quando eu falo, ninguém me ouve. Eu até disse que não seria boa ideia estabelecer regras de actuação com base nas possibilidades não existentes. Pode parecer mais tentador, no sentido em que se pode pôr lá qualquer coisa, porém, obriga-nos a pensar mais. Dessa vez, vá lá, até me deram ouvidos.
A fechar, a declaração da noite. “É a oposição que está a ter o realismo e a responsabilidade que são o papel do Governo.” Faltou o ponto de interrogação. E a resposta é... não, não está. Isso quer dizer que o Governo está a ser realista e responsável. Outra vez o ponto de interrogação. E não, não está.
Portanto, o que é que temos aqui? Dois senhores, dois senhores que blá blá blá muito, mas porrada 'tá quieto. Passos Coelho e Sócrates dançam, trocam injúrias, calúnias, são cão e gato em público. Parecem muito diferentes, mas ambos largam pêlo e comem duma tigela.
Até 1906, 1907 existia o rotativismo parlamentar. Quando o Rei se fartava farto do partido no poder, saia esse e entrava O outro; depois o Rei fartava-se desse e regressava o anterior. Hoje em dia, essa rotação é imposta por sufrágio. O que quero dizer com isto? Que Sócrates e Passos Coelho são duas faces da mesma moeda? Não exactamente. Eu diria mais que são a mesma face; o que está no outro lado, isso sim é a Oposição.

TERMINUS 154: CATÓLICOS E MUÇULMANOS

O que distingue um católico dum muçulmano? Muita coisa. Primeira: os católicos adoram um sujeito que era filho dum homem invisível, os muçulmanos seguem um tipo que se achava feio demais para ser representado.
Mais diferenças: os católicos podem consumir álcool, os muçulmanos são a favor da poligamia. Na prática, para os católicos a regra é "até que a morte vos separe", o sagrado matrimónio, UMA mulher; os muçulmanos têm direito a cinco. O que é estranho, porque os católicos é que têm a Santíssima Trindade. Deviam ter direito a três.
Depois vem a parte do pecado. Quem se porta bem, vai para o Céu. Os muçulmanos têm 70 virgens à espera; duvido que que os católicos tenham uma tasca no Céu. Aliás, esta é uma das razões que me leva a pensar que talvez o Céu não seja tão bom quanto querem fazer parecer.
Ir para o Céu é mau. Digo eu. Olhem para Adão e Eva. Expulsos do Paraíso por causa duma maçã. Dizem que não fizeram de propósito. Será que não? Vejam o caso de Jesus. Jesus teve uma vida imaculada, ausente de pecados, resistiu à tentação. A sua pureza levou-o para o Céu. Esteve lá três dias e bazou.
Foi dos poucos conhecidos que, indiscutivelmente, mereceu ir para o Céu e não ficou convencido com as condições que lhe eram oferecidas. Bom... ele ia viver com o pai. Ser filho de Deus também não deve ser fácil. Não há privacidade nenhuma.
"Pai, importa-se de sair do meu quarto?"
"Ó filho, sabes bem que não posso."
O Inferno, por outro lado, deve ser bom. Pensem naqueles que fizeram asneira, curtiram que nem uns doidos, roubaram, mataram, enganaram. Foram parar ao inferno. Quantos é que voltaram para dizer que aquilo não presta?
E para os muçulmanos... 70 virgens? Uma já é difícil de convencer, quanto mais 70! Estão sempre à espera "da pessoa certa" São 70 vezes a ouvir aquela conversa do "Prometes que não me magoas?" ou "Gostas mesmo de mim?" 70 para um. São 70 prendas de aniversário. Imaginem como será no Dia dos Namorados. Faço ideia se houver restaurantes no Céu.
"Era uma mesa para 71."
"Para 71 não tenho. Só 69. Há dois que ficam de fora."
Outra questão nesta cena das 70 virgens. Ninguém fala de idade, peso, altura ou sexo e eu acho que são dados importantes. 70 virgens não significa 70 virgens mulheres. Um gajo pode chegar lá todo convencido e de repente...
Porque isto de ir para o Céu, seja em que religião for, é um acto de compensação. Nós portamos-nos bem, porque estamos à espera de algo bom. Pensem numa criança que se porta bem o ano inteiro para receber uma certa prenda no Natal e chega ao dia e recebe uma porcaria qualquer.
O pessoal, enquanto é vivo, não mata, não rouba, cumpre as regras, vai para o céu e tem:
Opção A, 70 virgens; opção B, ficar sem sexo, sentado numa nuvem a ver quem se porta mal cá em baixo. Passamos a ser chibos. E a denúncia é considerada pecado.
Isso não é o Céu, é o Inferno.

19/09/10

TERMINUS 153: É SEGREDO, TÁ? NÃO CONTEM A NINGUÉM

A velha tradição portuguesa de fazer tudo diferente dos outros leva, por vezes, a situações bizarras. Se, por um lado, temos um Segredo de Justiça mais fragilizado do que um vidro rachado, por outro temos a mania, ou a pretensão, de querer dar demasiada importância a coisas banais. Bom, não se trata exactamente de coisas banais, mas, de qualquer modo, a necessidade de mantê-las em segredo é escusada.
Há meses atrás, quando se descobriu a arrecadação da ETA na zona das Caldas (houve quem quisesse chamar àquilo "célula"), falou-se muito da Estratégia Europeia de Contraterrorismo e da lacuna que Portugal tinha no desenvolvimento de um plano oficial anti-terrorismo. Isto foi em Junho, passaram-se três meses, e a coisa mudou um pouco.
Para começar, já temos uma Estratégia Nacional de Contra-terrorismo. Cinco anos depois da União Europeia ter difundido o seu plano anti-terrorista, cá estamos. Levámos mais tempo porque somos todos muito bons e não quisemos nada disso. Papinha feita é para os outros. Nós gostamos de fazer as coisas à nossa maneira. E contra isso eu não tenho nada a dizer.
Acho, no entanto, que foi um pouco estranha a decisão de tornar secreto esse nosso plano. Levámos tanto tempo a escrevê-lo que, na minha opinião, fazia mais sentido um programa de televisão sobre isto do que sobre quaisquer sete maravilhas. O Malato, o Jorge, a Catarina, até mesmo a Serenela, deviam apresentar uma Gala da Estratégia Nacional de Contraterrorismo. A Romana, o Toy e os Pólo Norte podiam ser os convidados musicais.
Em vez disso, resolveram escondê-lo. Ou aquilo ficou muito feio, cheio de palavras mal escritas, tipo redacção da primária; ou está tão bom que não querem deixar ninguém ver. Eu vou mais pela terceira hipótese, que é: não fizeram nada e estão a armar-se ao pingarelho. Na escola, levava os trabalhos numa disquete, e punha uma password no ficheiro. Só que a password não funcionava. "Devo ter carregado no shift sem querer, professor."
Nós estamos a falar de algo cuja base pode ser consultada no site da UE por qualquer cidadão, incluíndo terroristas. Aquilo que para a Europa deve ser do conhecimento público, os nossos governantes acham que deve ser guardado a sete chaves. Segundo a legislação, os documentos podem ser classificados como muito secreto, secreto, confidencial e reservado. A Estratégia Nacional de Contraterrorismo foi classificada de "confidencial", grau aplicado "às matérias cujo conhecimento por pessoas não autorizadas possa ser prejudicial para os interesses do País, ou dos seus aliados, ou de organizações de que Portugal faça parte". Estes documentos só podem ser acedidos por altos responsáveis credenciados pela Autoridade Nacional de Segurança. Ou, no caso de se esquecerem das credenciais em casa, qualquer pessoa com acesso à Internet.

TERMINUS 152: EXPRESSÕES PATERNAIS

Tinha colegas meus que além da escola tinham actividades extra-curriculares. Escuteiros, por exemplo. Eu nunca fui escuteiro, mas tive muitos colegas que foram. No outro dia até pensei, e isto pode até parecer de mau gosto, mas o que é facto é que se há uns anos atrás a Casa Pia tivesse Lobitos, não seriam Lobitos e sim Lombitos.
O meu melhor amigo dos meus tempos de pré-primária foi lobito. Não foi mais longe que isso porque ele, coitado, era um pouco burro. Lembro-me de ter visto uma cassete que os pais dele gravaram quando ele foi fazer a sua primeira caminhada. Aquilo era engraçado porque só se viam os putos com aquele ar nervoso, de quem não sabe o que vai acontecer. E tínhamos também, é claro, as recomendações dos pais. Aquelas frases que ficam sempre bem nestas alturas.
Põe a camisola para dentro!”
Não andes com os atacadores desatados!”
Levas a tua garrafinha de água?”
Não saias do pé dos outros meninos!”
Este meu amigo entrou para a Escola da GNR. É natural, já que ele não tinha inteligência para ir trabalhar em nenhuma loja de fast-food. Entretanto, já mais velho, foi para o Iraque. Por acaso, os pais dele resolveram filmar mais esta partida do filho. E novamente vieram as velhas recomendações. Só que, já não estamos a lidar com crianças que vão acampar numa mata, onde o maior perigo que podem enfrentar é um esquilo descontente. Estamos a lidar com homens, altamente treinados que vão entrar num cenário de guerra. Homens preparados para matar. As recomendações de antigamente já não têm o mesmo efeito. Mas eles dizem-nas à mesma.
Não te esqueças do capacete.”
Não vás pra lado nenhum com pessoas que não conheças.”
Não fiques acordado até tarde.”
Se alguém disparar contra ti, desvia-te.”
Não digas que vais para a guerra e depois vais para a discoteca. Olha que a gente sabe sempre.”
Come a horas decentes e não te ponhas a comer porcarias que só te fazem mal.”
A minha favorita era esta:
Porta-te bem e não te metas em confusões para não ficares mal visto senão para a próxima ficas em casa.”
Passe o tempo que passar, há pais que continuarão a ver os seus filhos como crianças. Isto tem o seu lado carinhoso, mas tem também um lado MUITO embaraçoso. Sobre isso falaremos outro dia. Por agora, deixo-vos com uma última expressão paternal, uma expressão que se costuma dizer quando as crianças não querem comer e que é:
Tens mais olhos que barriga.”
Muito bem, para que saibam, toda a gente, toda, tem mais olhos que barriga. Quem não tiver, quem tiver tantos olhos como barriga, das duas uma, ou é anormal ou é zarolho. Fazem as crianças sentirem-se mal com isso sem razão nenhuma. Depois queixam-se que há muita violência infantil.

16/09/10

TERMINUS 151: SUGESTÕES DE LEITURA PARA O OUTONO


  1. A SUA VERRUGA NÃO É ASSIM TÃO GRANDE

  2. COMO REMOVER UM RIM E OUTROS ÓRGÃOS

  3. COISAS SALGADAS SEM SAL

  4. A DESCRIÇÃO DETALHADA DE TODOS OS ACIDENTES COM MOTOCICLOS NO IC-19

  5. FOTOGRAFIA DIGITAL COM UM RELÓGIO DE BOLSO

  6. GUIA MICHELIN DA “ZONA VERMELHA” DE AMESTERDÃO

  7. OS MELHORES LOCAIS PARA ABANDONAR O SEU ANIMAL DE ESTIMAÇÃO NAS FÉRIAS

  8. 150 PÁGINAS DE PAUTAS PARA SAPATEADO MOSCOVITA

  9. ARRANJOS FLORAIS COM ERVAS DANINHAS

  10. ONDE ENTERRAR O CORPO DA SUA SOGRA SEM SER APANHADO

  11. SOLUÇÕES SALINAS PARA PESSOAS COM PROBLEMAS DE COLESTEROL

  12. CIRURGIA PLÁSTICA PARA TOTÓS

  13. A EMOCIONANTE VIDA DE UM NOTÁRIO

  14. O LIVRO DE TODAS AS ESTAMPILHAS COM FIGURAS DE QUE NINGUÉM SE LEMBRA

  15. ACTAS DO CONSELHO DE MINISTROS DO GOVERNO DE PEDRO SANTANA LOPES

  16. O POUPAS BEBEU UM COPINHO A MAIS

  17. ANEDOTAS PARA CONTAR EM MOMENTOS INCÓMODOS

  18. CONSTRUÇÕES COM COTONETES

  19. CARTA DE VINHOS DO 'TOCA DA RAPOSA'

  20. UMA LISTA DE TUDO O QUE PODE ENCONTRAR NUMA MALA DE SENHORA

15/09/10

TERMINUS 150: A MANEIRA CERTA DE FAZER AS COISAS ERRADAS

 Nos meandros das altas esferas do poder político e empresarial são habituais certos procedimentos, ditos “impróprios” noutras áreas. Alguns desses procedimentos são expectáveis, outros apenas aceitáveis e outros inevitáveis. Na sua vasta panóplia incluem-se a tramóia, o compadrio, a moscambilha e a corrupção. Por questões de espaço, enumero apenas as principais variantes.
Eu gosto de olhar para estes procedimentos como se fossem uma espécie de roda dentada. Uma rodazinha, perdida entre duas rodas grandalhonas, tão pequenina que mal se vê. Parece que não faz lá nada, mas, sem ela, a engrenagem fica toda emperrada.
Seria preferível que as coisas funcionassem sem este elemento. Contudo, o mundo em que vivemos não é esse. É preciso que nos habituemos ao que temos, não ao que gostaríamos de ter. Quer os aceitemos, quer não, estes procedimentos fazem parte do sistema. Julgo que por esta altura estará a pensar que, ao escrever isto, eu pretendo fazer como que uma apologia do incorrecto. É natural que pense assim, já que muito raramente me percebem à primeira. Pois bem, engana-se.
Refiro-me a estes procedimentos como partes feias que podemos esconder, podemos disfarçar, mas das quais não nos podemos livrar definitivamente. É como aquele quadro horrível que o amigo pintor nos ofereceu, que só vai para a parede quando o autor vai lá a casa. O resto do tempo está guardado num caixote, dentro dum cofre, trancado numa cave.
O problema surge quando se julga que o recurso a esta forma de auxílio está ao alcance de qualquer um. É preciso ter uma boa margem de manobra. Não se trata de ter dinheiro para corromper, trata-se de conseguir convencer de que se tem dinheiro. É preciso rigor, segurança e evidências. Para se enganar alguém é preciso o mínimo de sustentabilidade e isso nem sempre acontece.
Como já o disse várias vezes, a tramóia e o compadrio são peças que gostaríamos de não ter. Mas temos. Em alguns casos, graças ao profissionalismo e ao rigor dos seus executantes, são feitos acordos secretos, compram-se submarinos, constroem-se centros comerciais, vendem-se computadores. Depois temos os outros casos, em que é tudo feito às três pancadas, a coisa corre mal e a Playboy portuguesa é cancelada.
Tolera-se que os impostos aumentem para pagar a compra de dois submarinos que não fazem falta nenhuma. (É um bocado como pagar aulas de arco e flecha ao filho. A não ser que ele resolva ir viver para o mato, aquilo nunca terá grande utilidade no dia a dia.) Todavia, é inadmissível que percamos um dos melhores acessos a fotografias de mulheres portuguesas (famosas antes ou depois) sem roupa. Particularmente numa altura em que muita professora não colocada considerava seguir o exemplo da sua ex-colega Bruna Real. É de lamentar tanta desconsideração por uma classe profissional de que tanta ajuda precisa.

14/09/10

TERMINUS 149: LONG LIVE THE GOAT!

 Ainda mal acabou a época de incêndios deste ano e já se discutem novas medidas para evitar que o próximo ano seja igual a este. Apesar de alguns pessimistas vaticinarem que será ainda pior, eu sou daqueles que acham que, por fim, estamos no caminho certo. Falou-se muito da falta de limpeza das matas. Parece que foi esse o grande causador dos incêndios florestais. Nomeadamente daqueles que, vistos de cima, formam uma bonita linha recta. É isto que eu gosto nos incêndios naturais: têm uma rectidão que não se encontra nos incêndios premeditados.
Portanto, estamos de acordo que é preciso atacar este flagelo, certo? Muito bem! Desta é que vai ser! Vamos nos juntar aos espanhóis e juntos vamos acabar de vez com estes malditos incêndios! Não vamos olhar a meios!
Em termos práticos em que é que isto consiste? Para começar, fez-se um investimento de 48 milhões de Euros em 150 mil cabras, que serão distribuídas nas zonas raianas dos distritos da Guarda, Bragança, Zamora e Salamanca. Foi esta a ideia maravilha. Self-prevention foi o que lhe chamaram. Devem ter achado que um nome inglês trazia mais credibilidade à coisa.
José Luís Pascoal, presidente do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial Duero-Douro, diz que este projecto permitirá a prevenção de incêndios, mas também “o desenvolvimento económico e rural” daquelas zonas. Como? Duma forma tão simples que até me admira ninguém se ter lembrado disto antes.
As cabras serão colocadas nos campos agrícolas e montes abandonados. (Agora vem a parte boa!) Esta foi a forma encontrada para evitar fogos florestais, uma vez que os terrenos ficaram* “livres de vegetação”, concluiu o senhor José. Tenho de fazer uma pausa aqui porque, a sério que não percebo.
48 milhões de Euros gastos em 150 mil cabras para prevenir incêndios. As cabras comem a relvinha e o mato e pronto. Até aqui tudo bem. Só não percebo é que raio de prevenção elas vão fazer em sítios que já arderam?
Talvez eu esteja a perceber mal a ideia, talvez ela tenha sido mal explicada. Parece-me, no entanto, como pessoa citadina com pouco conhecimento do que é viver no campo, que é preciso prevenir incêndios nos locais ainda não ardidos. Parece-me. Caso contrário, a coisa perde um pouco o seu propósito.
É verdade que muitas pessoas irão beneficiar disto. Pastores, produtores de queijo e matadouros. Dá a ideia que isto não é para durar muito tempo. Pensava eu: se eles vão pôr as cabras em zonas ardidas, o que é que elas vão comer? A presença de matadouros na zona diz-me que elas não vão ficar lá muito tempo. Uma tosquiadela, uma recolha de leite e lá vão elas para o matadouro.

*Nada me tira da cabeça que o jornalista que escreveu este artigo transcreveu ao fonema aquilo que o entrevistado disse. Se ele tivesse escrito ficarão, o texto faria mais sentido. Ainda bem que não o fez, senão eu ficaria sem artigo.

13/09/10

TERMINUS 148: VALORIZAR A CULTURA E OS SEUS RECURSOS

 Nós não estimamos o que temos. A única altura em que damos valor ao que é nosso é quando algum estrangeiro fala mal disso. De certeza que já viram algo assim. Vão a uma Loja do Cidadão e está lá um brasuca a falar mal do atendimento e vocês, ou alguém, chamam-no à atenção, dizem-lhe para voltar para a terra dele, ou então não dizem nada e ficam a resmungar. Depois, chega vossa vez e dizem bem pior do que ele.
Poderá parecer uma contradição, mas não é. É simplesmente a natureza humana em acção. Nós não valorizamos o que temos, a não ser que falem mal disso, ou a não ser que estrangeiros ricos gostem.
De tudo aquilo que não estimamos, o que estimamos menos é a cultura. Algumas coisas eu lamento que não sejam melhor estimadas. Outras, compreende-se porque são votadas ao esquecimento. E depois há outras em que saímos do campo da cultura e entramos no campo do fanatismo.
Em Lisboa terá sido demolido um prédio que terá tido como inquilino Fernando Pessoa. (Eu digo terá sido porque não posso confirmar neste momento que essa obra tenha ido para a frente. É verdade que podia ir ao local e confirmar por mim mesmo, mas isso é para quem não tem o que fazer.)
O prédio, que estava ao abandono, irá dar lugar a um projecto de luxo. Isto, para algumas pessoas, é aceitável, é lógico. O prédio estava em risco de derrocada, não havia como restaurá-lo, tinha de ir abaixo. Aparentemente, não havia muito a discutir, mas já se sabe como é que nós somos. Não temos por hábito estimar, só que quando estimamos é a sério; só ao fim de nove anos é que a coisa se resolveu de vez.
A mim, confesso que me faz confusão este seguidismo. Não falo do caso de Fernando Pessoa, que até foi um autor que eu aprecio bastante, mas da obsessão geral que algumas pessoas têm em relação aos seus ídolos. Eu gosto do Fernando Pessoa, mas mas não acho que seja assim tão importante conservar a cama onde ele dormiu entre 1915 e 1916.
Pergunto-me como seria se Fernando Pessoa e outros artistas da época tivessem tido clubes de fãs como têm os artistas de hoje em dia? Imagino o cartaz do Festival Orpheu Alive. Almada Negreiros na abertura, seguido de Mário de Sá-Carneiro. Como cabeça de cartaz, o sonho de qualquer produtor, quatro artistas pelo preço de um. Apesar de Fernando Pessoa ter dezenas de heterónimos, duvido que todos eles tivessem a mesma presença de palco.
Em certa medida, isto faz-me pensar nas adolescentes com os seus posters da saga Twilight e dos Tokyo Hotel. Com uma diferença claro: se os fãs de Fernando Pessoa se limitassem-se a ficar apenas com a obra do poeta, ainda ficariam com um espólio considerável. Coisa que não aconteceria com essas adolescentes, caso elas resolvessem fazer o mesmo.