13/09/10

TERMINUS 148: VALORIZAR A CULTURA E OS SEUS RECURSOS

 Nós não estimamos o que temos. A única altura em que damos valor ao que é nosso é quando algum estrangeiro fala mal disso. De certeza que já viram algo assim. Vão a uma Loja do Cidadão e está lá um brasuca a falar mal do atendimento e vocês, ou alguém, chamam-no à atenção, dizem-lhe para voltar para a terra dele, ou então não dizem nada e ficam a resmungar. Depois, chega vossa vez e dizem bem pior do que ele.
Poderá parecer uma contradição, mas não é. É simplesmente a natureza humana em acção. Nós não valorizamos o que temos, a não ser que falem mal disso, ou a não ser que estrangeiros ricos gostem.
De tudo aquilo que não estimamos, o que estimamos menos é a cultura. Algumas coisas eu lamento que não sejam melhor estimadas. Outras, compreende-se porque são votadas ao esquecimento. E depois há outras em que saímos do campo da cultura e entramos no campo do fanatismo.
Em Lisboa terá sido demolido um prédio que terá tido como inquilino Fernando Pessoa. (Eu digo terá sido porque não posso confirmar neste momento que essa obra tenha ido para a frente. É verdade que podia ir ao local e confirmar por mim mesmo, mas isso é para quem não tem o que fazer.)
O prédio, que estava ao abandono, irá dar lugar a um projecto de luxo. Isto, para algumas pessoas, é aceitável, é lógico. O prédio estava em risco de derrocada, não havia como restaurá-lo, tinha de ir abaixo. Aparentemente, não havia muito a discutir, mas já se sabe como é que nós somos. Não temos por hábito estimar, só que quando estimamos é a sério; só ao fim de nove anos é que a coisa se resolveu de vez.
A mim, confesso que me faz confusão este seguidismo. Não falo do caso de Fernando Pessoa, que até foi um autor que eu aprecio bastante, mas da obsessão geral que algumas pessoas têm em relação aos seus ídolos. Eu gosto do Fernando Pessoa, mas mas não acho que seja assim tão importante conservar a cama onde ele dormiu entre 1915 e 1916.
Pergunto-me como seria se Fernando Pessoa e outros artistas da época tivessem tido clubes de fãs como têm os artistas de hoje em dia? Imagino o cartaz do Festival Orpheu Alive. Almada Negreiros na abertura, seguido de Mário de Sá-Carneiro. Como cabeça de cartaz, o sonho de qualquer produtor, quatro artistas pelo preço de um. Apesar de Fernando Pessoa ter dezenas de heterónimos, duvido que todos eles tivessem a mesma presença de palco.
Em certa medida, isto faz-me pensar nas adolescentes com os seus posters da saga Twilight e dos Tokyo Hotel. Com uma diferença claro: se os fãs de Fernando Pessoa se limitassem-se a ficar apenas com a obra do poeta, ainda ficariam com um espólio considerável. Coisa que não aconteceria com essas adolescentes, caso elas resolvessem fazer o mesmo.

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