15/09/10

TERMINUS 150: A MANEIRA CERTA DE FAZER AS COISAS ERRADAS

 Nos meandros das altas esferas do poder político e empresarial são habituais certos procedimentos, ditos “impróprios” noutras áreas. Alguns desses procedimentos são expectáveis, outros apenas aceitáveis e outros inevitáveis. Na sua vasta panóplia incluem-se a tramóia, o compadrio, a moscambilha e a corrupção. Por questões de espaço, enumero apenas as principais variantes.
Eu gosto de olhar para estes procedimentos como se fossem uma espécie de roda dentada. Uma rodazinha, perdida entre duas rodas grandalhonas, tão pequenina que mal se vê. Parece que não faz lá nada, mas, sem ela, a engrenagem fica toda emperrada.
Seria preferível que as coisas funcionassem sem este elemento. Contudo, o mundo em que vivemos não é esse. É preciso que nos habituemos ao que temos, não ao que gostaríamos de ter. Quer os aceitemos, quer não, estes procedimentos fazem parte do sistema. Julgo que por esta altura estará a pensar que, ao escrever isto, eu pretendo fazer como que uma apologia do incorrecto. É natural que pense assim, já que muito raramente me percebem à primeira. Pois bem, engana-se.
Refiro-me a estes procedimentos como partes feias que podemos esconder, podemos disfarçar, mas das quais não nos podemos livrar definitivamente. É como aquele quadro horrível que o amigo pintor nos ofereceu, que só vai para a parede quando o autor vai lá a casa. O resto do tempo está guardado num caixote, dentro dum cofre, trancado numa cave.
O problema surge quando se julga que o recurso a esta forma de auxílio está ao alcance de qualquer um. É preciso ter uma boa margem de manobra. Não se trata de ter dinheiro para corromper, trata-se de conseguir convencer de que se tem dinheiro. É preciso rigor, segurança e evidências. Para se enganar alguém é preciso o mínimo de sustentabilidade e isso nem sempre acontece.
Como já o disse várias vezes, a tramóia e o compadrio são peças que gostaríamos de não ter. Mas temos. Em alguns casos, graças ao profissionalismo e ao rigor dos seus executantes, são feitos acordos secretos, compram-se submarinos, constroem-se centros comerciais, vendem-se computadores. Depois temos os outros casos, em que é tudo feito às três pancadas, a coisa corre mal e a Playboy portuguesa é cancelada.
Tolera-se que os impostos aumentem para pagar a compra de dois submarinos que não fazem falta nenhuma. (É um bocado como pagar aulas de arco e flecha ao filho. A não ser que ele resolva ir viver para o mato, aquilo nunca terá grande utilidade no dia a dia.) Todavia, é inadmissível que percamos um dos melhores acessos a fotografias de mulheres portuguesas (famosas antes ou depois) sem roupa. Particularmente numa altura em que muita professora não colocada considerava seguir o exemplo da sua ex-colega Bruna Real. É de lamentar tanta desconsideração por uma classe profissional de que tanta ajuda precisa.

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