19/09/10

TERMINUS 152: EXPRESSÕES PATERNAIS

Tinha colegas meus que além da escola tinham actividades extra-curriculares. Escuteiros, por exemplo. Eu nunca fui escuteiro, mas tive muitos colegas que foram. No outro dia até pensei, e isto pode até parecer de mau gosto, mas o que é facto é que se há uns anos atrás a Casa Pia tivesse Lobitos, não seriam Lobitos e sim Lombitos.
O meu melhor amigo dos meus tempos de pré-primária foi lobito. Não foi mais longe que isso porque ele, coitado, era um pouco burro. Lembro-me de ter visto uma cassete que os pais dele gravaram quando ele foi fazer a sua primeira caminhada. Aquilo era engraçado porque só se viam os putos com aquele ar nervoso, de quem não sabe o que vai acontecer. E tínhamos também, é claro, as recomendações dos pais. Aquelas frases que ficam sempre bem nestas alturas.
Põe a camisola para dentro!”
Não andes com os atacadores desatados!”
Levas a tua garrafinha de água?”
Não saias do pé dos outros meninos!”
Este meu amigo entrou para a Escola da GNR. É natural, já que ele não tinha inteligência para ir trabalhar em nenhuma loja de fast-food. Entretanto, já mais velho, foi para o Iraque. Por acaso, os pais dele resolveram filmar mais esta partida do filho. E novamente vieram as velhas recomendações. Só que, já não estamos a lidar com crianças que vão acampar numa mata, onde o maior perigo que podem enfrentar é um esquilo descontente. Estamos a lidar com homens, altamente treinados que vão entrar num cenário de guerra. Homens preparados para matar. As recomendações de antigamente já não têm o mesmo efeito. Mas eles dizem-nas à mesma.
Não te esqueças do capacete.”
Não vás pra lado nenhum com pessoas que não conheças.”
Não fiques acordado até tarde.”
Se alguém disparar contra ti, desvia-te.”
Não digas que vais para a guerra e depois vais para a discoteca. Olha que a gente sabe sempre.”
Come a horas decentes e não te ponhas a comer porcarias que só te fazem mal.”
A minha favorita era esta:
Porta-te bem e não te metas em confusões para não ficares mal visto senão para a próxima ficas em casa.”
Passe o tempo que passar, há pais que continuarão a ver os seus filhos como crianças. Isto tem o seu lado carinhoso, mas tem também um lado MUITO embaraçoso. Sobre isso falaremos outro dia. Por agora, deixo-vos com uma última expressão paternal, uma expressão que se costuma dizer quando as crianças não querem comer e que é:
Tens mais olhos que barriga.”
Muito bem, para que saibam, toda a gente, toda, tem mais olhos que barriga. Quem não tiver, quem tiver tantos olhos como barriga, das duas uma, ou é anormal ou é zarolho. Fazem as crianças sentirem-se mal com isso sem razão nenhuma. Depois queixam-se que há muita violência infantil.

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