19/09/10

TERMINUS 153: É SEGREDO, TÁ? NÃO CONTEM A NINGUÉM

A velha tradição portuguesa de fazer tudo diferente dos outros leva, por vezes, a situações bizarras. Se, por um lado, temos um Segredo de Justiça mais fragilizado do que um vidro rachado, por outro temos a mania, ou a pretensão, de querer dar demasiada importância a coisas banais. Bom, não se trata exactamente de coisas banais, mas, de qualquer modo, a necessidade de mantê-las em segredo é escusada.
Há meses atrás, quando se descobriu a arrecadação da ETA na zona das Caldas (houve quem quisesse chamar àquilo "célula"), falou-se muito da Estratégia Europeia de Contraterrorismo e da lacuna que Portugal tinha no desenvolvimento de um plano oficial anti-terrorismo. Isto foi em Junho, passaram-se três meses, e a coisa mudou um pouco.
Para começar, já temos uma Estratégia Nacional de Contra-terrorismo. Cinco anos depois da União Europeia ter difundido o seu plano anti-terrorista, cá estamos. Levámos mais tempo porque somos todos muito bons e não quisemos nada disso. Papinha feita é para os outros. Nós gostamos de fazer as coisas à nossa maneira. E contra isso eu não tenho nada a dizer.
Acho, no entanto, que foi um pouco estranha a decisão de tornar secreto esse nosso plano. Levámos tanto tempo a escrevê-lo que, na minha opinião, fazia mais sentido um programa de televisão sobre isto do que sobre quaisquer sete maravilhas. O Malato, o Jorge, a Catarina, até mesmo a Serenela, deviam apresentar uma Gala da Estratégia Nacional de Contraterrorismo. A Romana, o Toy e os Pólo Norte podiam ser os convidados musicais.
Em vez disso, resolveram escondê-lo. Ou aquilo ficou muito feio, cheio de palavras mal escritas, tipo redacção da primária; ou está tão bom que não querem deixar ninguém ver. Eu vou mais pela terceira hipótese, que é: não fizeram nada e estão a armar-se ao pingarelho. Na escola, levava os trabalhos numa disquete, e punha uma password no ficheiro. Só que a password não funcionava. "Devo ter carregado no shift sem querer, professor."
Nós estamos a falar de algo cuja base pode ser consultada no site da UE por qualquer cidadão, incluíndo terroristas. Aquilo que para a Europa deve ser do conhecimento público, os nossos governantes acham que deve ser guardado a sete chaves. Segundo a legislação, os documentos podem ser classificados como muito secreto, secreto, confidencial e reservado. A Estratégia Nacional de Contraterrorismo foi classificada de "confidencial", grau aplicado "às matérias cujo conhecimento por pessoas não autorizadas possa ser prejudicial para os interesses do País, ou dos seus aliados, ou de organizações de que Portugal faça parte". Estes documentos só podem ser acedidos por altos responsáveis credenciados pela Autoridade Nacional de Segurança. Ou, no caso de se esquecerem das credenciais em casa, qualquer pessoa com acesso à Internet.

Sem comentários: